Botao Vermelho 1 Flavio Pessoa dezembro.20

 

 

Você lê aqui o quarto conto da série Botão Vermelho, uma parceria do Pernambuco com o Instituto Serrapilheira que une literatura e ciência para pensar novos mundos. Clique aqui e acesse o editorial da série, escrito pela curadora e editora Carol Almeida, e os três contos publicados antes.

No texto abaixo, assinado pelo escritor Itamar Vieira Junior, palavras em vermelho indicam informações científicas. Clique em cima delas para conhecer mais dados.

 

*** 

 Enquanto tomava café e lia uma tese, marcando com traços equivalentes os números de correções necessárias na margem direita de cada linha a ser revisada, escutei meus colegas de departamento fazerem uma referência aleatória ao “buraco negro”. Logo em seguida riram, com ironia, e um deles disse então que não poderiam mais chamar o evento de buraco negro, já que a qualquer hora poderiam ser acusados de racismo. “O correto é utilizar o termo singularidade gravitacional”, completou, até que levantei meu olhar e observei seus semblantes despreocupados e mimados, sem que notassem a minha presença.

E eu pensei em Bárbara, a mulher que causava, ao mesmo tempo, vergonha entre as mulheres religiosas e veneração por alguns membros de nossa família. Esses sentimentos ambíguos por ela se misturavam, retornando vez ou outra às memórias familiares. Bárbara era uma sombra poderosa sobre nossas vidas. Sombra, outra palavra para escuro, negro, e amávamos e odiávamos esse fantasma desde muito tempo. Não precisam mudar o nome do evento, pensei, enquanto lembrava dos risos que a história dessa mulher me causava. Homens bobos. Nada escapa de um buraco negro, nada escapa ao negro. Vejam como tudo ainda gira no nosso entorno, até a preocupação com uma palavra inventada por vocês mesmos.

Quando eles se levantaram da mesa, viram que eu os observava. Fizeram um breve aceno com a cabeça, como se nada tivessem dito, para logo depois saírem rindo. “Hum-hum”, diria minha avó para expressar seu desprezo, e eu imagino que, mesmo passado tanto tempo, talvez não tivessem superado a minha aprovação no concurso, concorrendo com muitos de seus amigos à vaga do departamento de Física. Suspirei ao pensar sobre quantas vezes teria que presenciar aqueles risinhos.

“Se ocupe com você mesma”, minha mãe me dizia.

Olhei para o relógio: precisava seguir para a sala de aula. Fechei a tese e caminhei de volta ao edifício.

Cumprimentei os alunos, alguns ainda conversavam como se eu não estivesse na sala. Peguei a caneta piloto e escrevi no quadro: “raios cósmicos”.

***

Quando minha avó me procurava pela casa depois de chamar por meu nome sem que eu respondesse, ficava aflita. Até que uma de minhas tias lembrava que eu poderia estar no quintal. “Mas nessa escuridão?”, perguntava, “Ela disse que na escuridão consegue ver melhor as estrelas”, uma das tias respondia. E riam enquanto minha avó caminhava para o quintal me chamando: “Ô, Rita! Rita! Espero que você não encontre um rato ou uma cobra e volte pra casa chorando”. Eu me escondia perto do galinheiro para observar o céu, e, claro, com um pedaço de madeira para afastar qualquer bicho que representasse perigo. E nos dias sem nuvens, conseguia ver o “movimento” das estrelas, da Lua, as estrelas cadentes deixando um breve rastro cintilante na escuridão da noite. Fixava meu olhar por horas naquela imensidão, perdida na vastidão negra do céu até começar a ver pequenos pontos de luz se adensarem, como uma chuva cósmica que descia em minha direção.

“Você deveria estar com a cara nos livros. É uma menina muito inteligente, pode nos dar a alegria de ser médica”, minha avó me dizia.

“Mas eu estudo vó, sempre leio. Mas não quero ser médica. Quero ser cientista”. Sorria, sem olhar diretamente para ela, sabendo que seria difícil convencê-la.

“E cientista trabalha? Traz comida pra mesa? Não sei… parece mais coisa de gente muito sonhadora. Nossa vida nunca foi fácil, você precisa ter os pés no chão”, me dizia sem desviar o olhar da máquina de costura.

“Astronauta, na verdade. Quero ser astronauta.”

“Astronauta é aquela gente que vai pra cima num foguete?”

“Sim. Como o homem que desceu na Lua.”

“Misericórdia! E você pensa que eu vou deixar você subir numa geringonça daquelas para sabe lá onde?”, perguntava, agora parando o trabalho para me olhar nos olhos “Ah, menina… sua cabeça anda nas nuvens. É inteligente o suficiente para ter uma vida melhor que a nossa, mas não queira ser Deus. Onde já se viu desafiar a natureza? Não temos asas, minha filha, pra ir muito longe… Ai, Meu Deus, a quem essa menina saiu?”

Mas eu não me importava com as coisas que a vó ou a mãe diziam. Continuava debruçada nos verbetes científicos da Enciclopédia do Estudante, os volumes vermelhos já muito gastos, mas que eram a única coisa para ler em nossa casa além dos jornais de domingo. Antes de abri-los, me fixava na capa em alto-relevo dourada: a imagem de um macaco, um astronauta, as pirâmides do Egito, um foguete interespacial, tubos de ensaio, um microscópio e o globo terrestre. Ali eu passeava por horas depois das atividades da escola, buscando informações sobre a Lua, os planetas, como se formavam as estrelas, de que matéria era feita o espaço. Acho mesmo que contribuí para deixar aquelas capas mais gastas, a película emborrachada que a recobria se soltando das extremidades.

Não foram poucas as vezes em que encontrei minha avó evocando a lembrança de Bárbara quando a ouvia me chamar sem que respondesse. Eu voltava na ponta dos pés do quintal para a cozinha e a encontrava com as duas tias Isabel — a grande e a pequena — dizendo: “Essa menina parece a Bárbara que meu pai falava, valha-me Deus!”.

“E essa Bárbara existiu, mamãe? Vejo a senhora falar tanto nela, mas não temos fotos nem documentos…” perguntou tia Isabel Grande enquanto apagava o cigarro e eu prendia a respiração diante da porta da cozinha para que não me ouvissem.

“Claro que existiu. Era a avó de seu avô Domingos, meu pai.”

“E por que a Rita parece com a tal da Bárbara?”, perguntou tia Isabel Pequena.

“Aluada. Cabeça noutro mundo. Não viu ela me dizendo que quer ser astranote, astro… sei lá, aquela gente que quer ser mais que Deus e foi pra Lua?

“Vi, sim. E a Bárbara?”

“Meu pai dizia que era uma mulher assim, que vivia no mundo da Lua. Falando com o céu, com as árvores, com espírito, com as estrelas. Uma idólatra, como diz o pastor. Deus não gosta dessas coisas não.”

“Mas isso foi há tanto tempo, Rita nem sabe quem foi essa mulher”, continuou tia Isabel Grande enquanto acendia o forno.

“Eu escutava papai conversando com os homens da família sobre as coisas que essa Bárbara aprontou… me mata de vergonha. Sem contar que ela preferiu continuar cativa, depois que decretaram a liberdade”, disse minha avó enquanto entregava a assadeira de pão a Isabel Grande.

“Ah, mamãe, isso já aconteceu há tanto tempo. Não tem nem mais graça…”. Era a voz de tia Isabel Pequena.

“Tem, sim. O céu e o mal ainda são os mesmos”.

***

Já que ninguém me contava e não havia documentos ou imagens de Bárbara, passei a acreditar que poderia me comunicar com ela para saber o que de fato ela fez de tão vergonhoso. Olhava para o céu do fim da tarde ao começo da manhã. Poderia ter escolhido conversar com a fotografia do Einstein da Enciclopédia, ou com a da Marie Curie — e confesso que o fiz por um tempo —, mas seus feitos eram públicos, de conhecimento de todos. E eu me interessava pelo desconhecido, de forma que a vida de Bárbara era mais interessante.

Quando minha mãe retornava do trabalho, antes de se reunir com as mulheres da casa, eu perguntava sobre o passado, de onde vieram meus avós, o que havia acontecido com meu pai, por que eu não tinha irmãos. Não era todos os dias que eu podia fazer tais perguntas; se ela chegasse com o semblante cansado, eu nem me arriscava. Mas havia dias de muita ternura, em que ela parecia perceber a importância que essas histórias poderiam ter para mim.

“E de onde vieram os avós de meus avós?”

“Nossa, que cabecinha que não para… Bem, eu não sei exatamente de onde vieram”, ela respondeu enquanto colocava grampos no próprio cabelo. “Uma parte dos avós de seu pai veio de Portugal, num navio. Eram muito pobres, nunca mais puderam voltar”.

“E a outra parte?”

“Já eram nascidos aqui. Eram negros como a gente.”

“Eles eram escravos? Os livros da escola contam que essas pessoas vieram de longe, de um país chamado África.”

“Não. Eles foram forçados a vir para trabalhar sem nenhum pagamento. E a África não é um país, é um continente.”

“Isso não é ser escravo?”

“Isso é ter estado na condição de escravo… às vezes por toda a vida. Eram pessoas como nós, que sofriam, sentiam saudade, amavam seus filhos”, disse tocando com o anel dourado, depois de retirá-lo do dedo, a ponta do meu nariz.

“E a Bárbara?”, aproveitei para perguntar.

“Sua avó anda falando demais, não é?”, disse rindo, enquanto fechava o armário e me segurava pela mão para sairmos do quarto.

“Vez ou outra, quando estou lá pelo quintal para ver as estrelas, ela fala na Bárbara”, confessei, tentando extrair algo mais de sua boa vontade e humor.

“Bárbara é uma lenda, uma história de família” falou, sem olhar para mim ao deixar o quarto.

“Ela nasceu aqui? Ela era escrava?”

“Dizem que sim, mas como vamos saber? Não há documento, foto, nada sobre ela. Só as histórias que são contadas de pai e mãe para os filhos. Mas chega dessa história, vamos jantar?”, perguntou para interromper a conversa.

“E o que ela fez que foi uma vergonha?”. Minha mãe arregalou os olhos quando eu falei a palavra vergonha.

“Nada demais… quando você for mulher a gente conversa, tá? Além do mais, Bárbara morreu há muitos, muitos anos. Os mortos precisam de descanso e sua avó sabe disso”.

Cada vez mais a história de Bárbara, envolta nos sussurros da família, se assemelhava ao céu da noite onde eu observava os mais estranhos fenômenos. Passaram-se meses sem que seu nome fosse tocado, talvez anos, mas sua presença permanecia entre nós, especialmente em mim, que não resistia a nenhum mistério sem sentir a vontade de investigar.

***

De onde os raios cósmicos surgem? Não sabemos, mas é bem provável que sua alta concentração de energia tenha início em um evento inter ou extragaláctico, como o nascimento ou a desintegração de uma estrela. Ou mesmo a sua captura pela singularidade gravitacional, o que chamamos popularmente de buraco negro. Imaginem vocês que os raios cósmicos têm uma energia na faixa de 10 bilhões a 1 sextilhão de eletro-volts”, ela escreveu no quadro o número 10 elevado à nona e vigésima primeira potência. “Isso é quase 10 mil vezes a capacidade de energia de um acelerador de partículas, o grande Colisor de Hádrons, na Suíça, que tem 27 quilômetros de circunferência.”

 

Botao Vermelho 2 Flavio Pessoa dezembro.20

 

“E qual o impacto desse bombardeio de energia sobre o planeta?”, perguntou um aluno que Rita achava não estar prestando atenção à aula.

“Ainda não sabemos. Há muitas pesquisas como as desenvolvidas no nosso laboratório para conhecer mais sobre o fenômeno”, disse, apoiando o braço direito sobre a mesa ao mesmo tempo em que gesticulava com a caneta piloto na esquerda, como uma maestrina regendo sua orquestra. “O fato é que grande parte dessa energia se perde em desvios interestelares e principalmente no choque com os núcleos atômicos de nossa atmosfera. Ainda assim, uma quantidade significativa e detectável chega à superfície. Não sabemos exatamente que tipo de interferência ou dano pode nos causar. O fato é que para um ou uma astronauta, sem a proteção da atmosfera, é uma quantidade de energia espacial perigosa, já que são raios primários. Os que chegam à Terra são secundários, por causa da interação com os átomos atmosféricos que os modifica”.

“E como a energia não se dispersa, segundo o princípio da Lei de Conservação da Energia…”, disse Daiane, a aluna que fazia com que Rita pudesse ver a si mesma aos vinte anos novamente.

“Exato! Uma pequena quantidade desses raios cósmicos chega à superfície terrestre. Essa energia não se dissipa, mas se transforma. Em que tipo de energia? Não sabemos. Mas há algumas pesquisas em andamento.”

“E se um simples bater de asas de uma borboleta influencia o curso das coisas, imagine os raios cósmicos…”, completou Daiane.

“Sim. Mas tudo ainda é uma hipótese. Está no campo da abstração.”

Quando o sinal do fim da aula tocou, Rita ainda permaneceu sentada em sua mesa, pensando nos colegas de departamento “preocupados” com o racismo do termo buraco negro. Depois sentiu uma pequena satisfação com sua aula sobre raios cósmicos. Mas foram as palavras de Daiane sobre o “efeito borboleta” que lhe devolveram a lembrança do mistério de Bárbara.

***

À medida que crescia, essa história retornava eventualmente às conversas de família: para o horror cristão de minha avó, mas, em certa medida, para a diversão de minhas tias, uma geração de mulheres que não se abalava com insinuações morais sobre a vida de seus antepassados. Entre uma conversa e outra, soube que Bárbara era uma mulher cativa que vivia numa plantação de cana-de-açúcar junto a outros trabalhadores. Ninguém sabia como cresceu, qual era sua estatura, sua cor exata, se havia nascido no Brasil ou em terras estrangeiras.

O que se sabia é que ela nunca foi submissa à família de seu senhor e por isso era mandada para os campos de cana, onde às vezes trabalhava com afinco, como se desejasse voltar para a casa-grande. Mas quando parecia prestes a receber o perdão e a acolhida da família de seus senhores para retornar à casa, parava de trabalhar, desaparecia por dias. Então mobilizavam todos os trabalhadores para encontrá-la na beira do rio, em cima das árvores, ou deitada sobre um fardo de capim, sem temer serpentes ou qualquer outro animal. Era encontrada catatônica, como se estivesse em transe — “possuída pelo mal”, a avó repetia — olhando para o céu.

“Eu vejo uma chuva de estrelas”, era o que ela dizia, segundo as histórias de família. Os homens repetiam “Nós também vemos, Bárbara, mas elas seguem para longe”. E Bárbara retrucava “Não. As que eu vejo vêm em direção a mim. É uma chuva e me molha de luz”. A essa altura todos já haviam compreendido que Bárbara estava com um encosto ruim. Para os seus senhores, era loucura mesmo.

Quando seu senhor ficou viúvo, determinou que Bárbara retornasse à casa para os trabalhos domésticos. As mulheres cativas que ali viviam já eram idosas e não tinham mais energia. Além disso, seu senhor já não se importava que ela desaparecesse por dias para ser encontrada suja, maltrapilha e faminta, com os pensamentos no céu da noite. Da última vez que ela saiu, retornou no dia seguinte, diferente de todas as outras vezes em que passava muito tempo solitária na mata. Estava com o semblante sereno, cantava alguma coisa pelas veredas, sorria discretamente enquanto olhava para os seus pés que caminhavam descalços pela terra. Ela regressou com um anúncio: 

“Nós seremos livres”.

Mas ninguém acreditou, graças à sua fama de louca.

O senhor de engenho viajou pessoalmente para vender um grande carregamento de cana. Dali a três dias, alguns trabalhadores de outras fazendas passaram dizendo que a princesa havia assinado uma lei, que todos eram livres agora. Bárbara, que já sabia, atirou as louças que lavava para o ar para vê-las se espatifarem no chão. Começou a dançar no terreiro, bebeu junto com os homens e se deitou com alguns deles.

Eles arrumaram pequenas trouxas para abrigar o quase nada que tinham. Iriam partir com outros trabalhadores das fazendas vizinhas para procurar por terra que não tivesse dono, queriam cuidar dos seus próprios cultivos, ser donos dos seus próprios trabalhos. Tinham sonhos.

O senhor retornou na manhã seguinte. Encontrou os cacos de louça quebrada no chão da cozinha. Não parecia estar furioso, tinha uma expressão desolada. Também não se opôs à partida dos trabalhadores, apenas se sentou no banco de madeira do alpendre com o chapéu na mão e depois de um tempo, pôs-se a chorar. Bárbara, que já estava pronta para partir, olhou para trás, como a mulher de Lot, que a minha avó contava lembrando uma injusta passagem da Bíblia, dessa mulher que ousou olhar para trás. Bárbara não se transformou numa estátua de sal, mas se deixou contaminar por uma piedade equivocada. Por alguns instantes, hesitou se partiria com os companheiros que lhe acenavam, ou se permaneceria até que o senhor encontrasse alguém para cuidar dele e da casa.
E ficou assim por um tempo.

Com os mesmos pés descalços retornou à cozinha e começou a recolher as louças quebradas. Esfregou o chão como se nada tivesse mudado. Preparou o almoço e lavou as roupas fedidas do senhor. As únicas mudanças foram a retirada do lenço que recobria sua cabeça e a barriga que começou a se avolumar. Bárbara deixou seu cabelo crescer como a copa de uma árvore. E antes que a criança nascesse, passou a frequentar a cama de seu senhor, aquele homem mestiço que achava ser branco.

Não se envergonhou do que fez e teve muitos filhos com ele.

Quando o senhor morreu, anos depois, viu os filhos legítimos retornarem e mandarem-na, ela e os meninos, embora. Ninguém sabe se ela resistiu, se foi arrancada dali à força ou se saiu por vontade própria. É bem provável que tenha encontrado e se reunido aos remanescentes de sua gente. Mas ninguém estava disposto a perdoar aquele despautério até a geração de minha avó. Minha mãe e tias achavam graça, viam os arroubos de Bárbara como um sinal de liberdade indomada, sempre contrariando aquilo que esperavam que fizesse.

Mas a história não me foi contada assim. Esses são os fragmentos que ouvi ao longo da vida e fui juntando numa história que escrevo e reescrevo como uma equação matemática, para que o mistério de Bárbara faça algum sentido para mim.

 

***

A história cósmica de Bárbara, a primária, apenas ela viveu. A que chegou aos dias de Rita foi desintegrada pelos preconceitos dos homens da família, por uma sociedade adoecida, pelas mulheres que cresceram nesse meio e tomaram para si as virtudes que lhes foram impostas pela igreja e pela moral corrompida dos que acreditavam em verdades.

Há mais de um século Bárbara olhava para o céu da noite e tentava encontrar um sentido para o tédio de sua vida cativa, de eterno trabalho e de muitas privações. Fixava seus olhos vorazes na escuridão e era capaz de ver uma chuva de estrelas em sua direção que a molhava de luz.

Rita olhou para o céu, que não era o mesmo de Bárbara por ser puro movimento, como o rio de Heráclito. É provável que tenham visto as mesmas estrelas. Ela se sentiu encorajada por sua curiosidade nata, pelos volumes da enciclopédia de casa, pela educação que recebeu de sua mãe e mulheres da família, até mesmo de sua avó cristã que condenava Bárbara, mas se recusava a obedecer quem quer que fosse. No fim da vida a avó se rendeu à liberdade das crenças pagãs, tendo compreendido tudo mais como um compêndio de histórias e superstições que já não lhe diziam muita coisa perto de tudo que pôde viver.
Rita encontrou no céu uma vocação, um sentido para a própria vida.

A chuva de estrelas que Bárbara via era a mesma que Rita sabia existir através de cálculos matemáticos, leis da física e observações. Mas mesmo quando ela não podia aferir através de seu conhecimento científico, apenas se deixava levar pelo que poderia descobrir. Ninguém poderia chamar Rita de louca, não teria o mesmo destino de Bárbara. Ela sabia que carregava um filamento grande do DNA dessa mulher, e que talvez por isso fosse capaz de sentir de alguma forma suas dores e liberdade, suas desilusões e coragem.

Rita fechou o caderno onde anotava considerações e sentimentos que lhe vinham à mente sobre inúmeros temas, e sentiu seus pés tocarem o chão do apartamento, que esfriou repentinamente. Se dirigiu à janela para ver as condições do tempo, algo que não fazia mais com tanta frequência, dado o trabalho que acumulava. Nuvens densas e vento. Quando fechou a janela procurou pelos chinelos de lã, mas antes que os encontrasse se deteve em seus pés, como se fossem os antigos pés de Bárbara atravessando o assoalho frio de sua casa.


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Itamar Vieira Júnior é escritor, formado em Geografia e autor dos livros de contos Dias, A oração do carrasco e do premiado romance Torto arado.

 

A pesquisa que inspira essa história é coordenada pela professora Rita de Cássia dos Anjos, graduada em Física Biológica pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, mestre e doutora em Física pela Universidade de São Paulo, e pós-doutora pelo Centro Harvard-Smithsonian para Astrofísica. Para o projeto, que recebeu apoio do Instituto Serrapilheira e que visa identificar a origem dos raios cósmicos, bem como sua importância no balanço energético total do universo, Rita e sua equipe utilizaram modelos de acreção e jatos relativísticos provenientes de buracos negros para obter a luminosidade dos raios cósmicos e sua parcela no balanço energético total. O modelo resultante será comparado com os novos dados dos principais observatórios astronômicos do mundo.

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