Botao Vermelho 1 Flavio Pessoa novembro.20

 

 

Você lê aqui o terceiro conto da série Botão Vermelho, uma parceria do Pernambuco com o Instituto Serrapilheira que une literatura e ciência para pensar novos mundos. Clique aqui e acesse o editorial da série, escrito pela curadora e editora Carol Almeida, e os dois primeiros contos. 

No texto abaixo, assinado pela escritora Socorro Acioli, palavras em vermelho indicam informações científicas. Clique em cima delas para conhecer mais dados.

***

 

— Desculpa o atraso, tive que comprar uma coisa antes de vir.

— Eu acabei de chegar, atrasei também.

— Estava pensando em desistir?

— É, enfrentei um último lampejo de racionalidade, dei duas voltas no quarteirão pensando se deveria. Mas estou aqui agora, não estou?

— Estamos. Comprei um exemplar do livro pra você, vamos direto ao assunto.

— Só me diz uma coisa: aconteceu algo grave?

— Não, tá tudo bem. Só chamei pra falar desse livro, agradeço por você ter vindo, é importante para mim.

— O título é bonito, Rio de meandros. E a capa é muito boa.

— É uma foto do Rio Tefé visto de cima.

— Dá pra pensar que é uma pintura. O desenho é tecnicamente perfeito, olha isso: as curvas têm o mesmo ângulo, a mesma distância. Parece que foi calculado e construído por uma equipe muito neurótica de escavadores perfeccionistas.

— Ou seja: virginianos com um chefe capricorniano.

— Mas a ideia teria sido de uma pisciana, claro.

— Você ainda está desenhando?

— Só as coisas do trabalho.

— Que pena.

— Mas explica os meandros. Tô curioso para saber o que te deixou tão impressionada com este livro.

— Isso do rio, pelo que eu li, tem a ver com a energia das águas. Mudam de volume e direcionamento de fluxo. A água erode a terra de um lado, transporta pelo meio e deposita no outro, é assim que são formadas as curvas e as ilhas.

— Erode é uma palavra nova na sua vida.

— Vou usar bastante. Serve para muitas coisas.

— Mas por que o rio faz isso?

— Não consegui descobrir. Li um monte de coisas, um alemão descobriu uma fórmula matemática…

— Você anotou a fórmula, claro.

— Ah, não ri, é importante. Aqui: Is = 3,5 F(- 0,27) é a relação entre o índice de sinuosidade, a forma do canal, a relação largura-profundidade.

— E aí?

— E aí que eu não entendi nada, óbvio. Anotei de besta. Só imagino os rios de meandros às gargalhadas, vendo minha tolice de tentar decifrar uma coisa tão sofisticada.

— Não temos nem dez minutos de conversa e você já fez todos os rios de meandros do mundo gargalharem. Um fenômeno.

— Vamos falar sério. Tenho muito para explicar, eu nem comecei.

— Pois vou pedir alguma coisa pra beber.

— Eu escolho aqui no cardápio. Você tem quantas horas?

— Não estou apressado.

— Eu ensaiei para falar tudo em meia hora.

— Você ensaiou?

— Claro.

— Pra falar comigo?

— Eu não te via há um ano. Não sabia como você iria se portar.

— E como estou me portando?

— Parece bem.

— Bem feliz. Gargalhando igual aos rios, só que por dentro, como sempre. E você?

— Nervosa.

— Por causa dos meandros?

— De certa forma.

— O livro é todo sobre rios?

— Oi! Vamos querer duas cervejas e esse Helter skelter, por favor.

— Como assim, Helter skelter?

— Todos os pratos aqui têm nome de músicas. Escolhi esse lugar de propósito.

— Helter skelter é um brinquedo em espiral.

— Entre outras coisas. É a tua cara.

— Não sei nem o que esperar de uma comida com esse nome.

— Tipo um rio de meandro pra baixo?

— Entendi. Vamos voltar ao assunto. Você não me chamou só pra isso? Estou aqui para ouvir.

— O livro não é todo sobre rios. É a história de uma bióloga italiana chamada Francesca. Ela vai para a Amazônia fazer uma pesquisa sobre uma cidade abandonada que se chama Velho Airão. A pesquisa da vida dela inteira é sobre lugares abandonados pelo mundo, sobre como a natureza se comporta quando o homem dá as costas e acaba resolvendo tudo de uma maneira muito melhor.

— Começa com isso?

— Sim. Começa com ela em um rio de meandro em um barco chamado voadeira, indo pra cidade. São duas voadeiras, na verdade, porque ela tem uma equipe.

— Existe mesmo esse lugar?

— Sim, existe. Foi construído no ciclo da borracha, no século XIX. Era bonitinha, toda em estilo português. Ela conta que as telhas ainda tinham a marca da olaria em Lisboa, tem azulejo velho pelo chão, a mulher descreve bem demais. Cada caco da cidade que ela vê é disparador para simular o que era tudo aquilo quando estava vivo. Incrível como se faz isso com palavras.

— Gostaram do Helter skelter?

— Uma delícia.

— Mais duas cervejas?

— Sim, por favor.

— Você estava com sede.

— Estou mais calma agora. Vamos lá: ela vai para ver as ruínas e as plantas com planos de passar uma noite. Ela foi preparada para isso, tem todos os utensílios, repelente, saco de dormir, roupa, sapato, máquina fotográfica, remédios, ela sai descrevendo a bolsa inteira e não cansa o leitor nem por um minuto, porque tudo vai fazendo sentido.

— E não tem ninguém lá?

— Tem. Um japonês. O cara decidiu morar na cidade abandonada, fez um museu improvisado, recebe as pessoas, mostra tudo. Explica onde era cada casa, mostra os restos e vive disso, da ajuda do turismo.

— E aí? Fantasmas?

— Nada de fantasmas.

— Taí. Fiquei surpreso.

— Pois é, eu também.

— Você adora histórias de mortos. Imaginei que fosse esse o grande impacto do livro. Minha curiosidade só aumenta.

— É algo que nunca li antes, sobre coisas que não poderemos nunca entender por completo.

— Eu fujo disso.

— Eu sei.

— Se eu não sei entender, nem explicar e se vai me causar problema, melhor fugir.

— O contrário de mim.

— Você é muito corajosa. E está tocando Helter skelter.

— O garçom já fez um legal com o polegar pra mim, por isso. Deve ser prática da casa, eles tocam as músicas dos pratos que as pessoas pedem. Daqui a pouco escolho outra coisa, já vi umas músicas que eu quero ouvir.

— Está tocando Helter skelter, moça.

— Eu estou ouvindo, moço, mas não vou falar sobre esse assunto.

— Vai falar sobre a bióloga na floresta. Foi só por isso que me chamou, não é mesmo?

— É. No total eram mais oito pessoas com a Francesca. Da equipe dela eram duas biólogas auxiliares, um tradutor, um fotógrafo. De Manaus foram três guias, que se revezavam em muitas funções. Um deles levou ayahuasca e tomou sozinho, fez seu ritual e Francesca acompanhou. Foi nessa noite que ela ouviu dele a frase que é o centro de todo livro.

— Qual frase?

As árvores conversam pelas raízes.

— Conversam como? Com palavras? Um idioma?

— Foi isso que ela começou a tentar descobrir, mas o que ele explicou fazia total sentido. A posição das árvores na floresta; porque determinadas plantas sempre nasciam perto das outras, específicas. Ou porque algumas afastavam todo crescimento ao seu redor. Tudo era combinado em comunicação umas com as outras.

— É, está ficando incrível.

— Eu estou só resumindo, você vai ver como ela narra bem melhor no livro. Esse sujeito contou várias histórias. Disse que, onde ele cresceu, cada planta nativa que aparecia no chão perto de casa tinha uma propriedade medicinal para uma doença específica que iria acontecer com alguém da família. Desde seus bisavós, tataravós, as ervas daninhas não tinham esse nome, eram recados da natureza para a saúde deles. E se curavam. A geração que começou a visitar os médicos só confirmava o que o chão já estava dizendo.

 

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— Eu lembro de você falar muitas vezes que o importante não é o tema, mas o que o autor faz com ele. A cada livro bom ou a cada bomba que eu leio, vem a sua voz dando opinião. Até aqui eu estou tenso por isso, é um tema incrível, mas imagino que ela tenha feito um grande livro porque, enfim, você não fica impactada por qualquer coisa.

— Não mesmo. Continuando: a Francesca anotou tudo o que ele dizia, com a ajuda do tradutor, fez inúmeras perguntas. E ele falou de outras coisas abandonadas na floresta. Falou de uma invasão de árvores de folhas e raízes alucinógenas em outro lugar.

— Tem um lance com uma fábrica da Ford por lá, não tem?

— A Fordlândia, ela conta no livro. Logo no começo ela relembra os lugares onde já esteve na Europa, na Ásia, até cemitério de navio ela já visitou, completamente tomados de vegetação. 

— E o que ela faz no lugar, exatamente?

— Recolhe amostras das plantas, observa de onde nascem, para onde vão, que tipos, quem nasce perto de quem e, sobretudo, analisa a relação da natureza como salvação da ruína. 

— Acho que estou sentindo para onde isso vai.

— Claro que está. Foi por isso que quis conversar contigo. Não conheço outra pessoa que pudesse entender exatamente como eu entendo. Sempre foi assim, por isso você me faz tanta falta.

— Chegamos em um ponto quase telepático.

— Por isso eu te chamava de Mago.

— Eu gostava. Você via mágica em tudo que eu fazia, isso era bom.

— Você já aceitou que é genial?

— Não, mas quando você diz eu acredito.

— Está acabando minha meia hora, vou prosseguir. A Francesca vai ficando muito impactada com as entrevistas, mas a equipe não se empolga tanto e começa um clima ruim. Eles tinham uma agenda de viagens a cumprir e um dos objetivos era produzir imagens para uma série de documentários sobre lugares abandonados no planeta. Francesca era o centro disso, porque fazia tudo com o viés científico. E pelo que entendi, era uma mulher carismática, falava bem, sem ela não aconteceria. O projeto era imenso, com muita, muita grana no meio e a aparente ideia de ouvir as raízes por mais uns dias colocaria tudo a perder.

— Caralho. E ela?

— Ela não estava mais nem ligando pra isso, porque percebeu que tinha alguma coisa muito importante ali. Tem a ver com o momento de vida dela, com tudo que passou e a falta imensa de um sentido, que só depois a gente vai entender. Chegou em um ponto decisivo: ou ficava por conta própria para pesquisar uma hipótese que poderia não dar em nada, ou abandonava a ideia para seguir seu projeto milionário.

— Você ficaria?

— Claro. E ela ficou também.

— Duas loucas. Eu não ficaria. Deixa eu ver o cardápio?

— É mais cerveja?

— Não, queria comer alguma coisa.

— Deixa que eu escolho, vou chamar o garçom.

— Por que isso?

— Porque é divertido. Oi! Eu queria isso aqui, por favor, mas não repete o nome alto porque é surpresa.

— Pode deixar, já já ele vai ouvir. E mais duas cervejas?

— Sim, pode trazer.

— Já são três pra cada um, você está ciente?

— Estou. A Francesca ficou em Novo Airão, a equipe foi pra Manaus. De lá ligaram para o chefe deles e a história se espalhou pela comunidade internacional, foi uma confusão. Eles pegaram pesado, disseram que ela estava louca. Uns dias depois ela teve de voltar para Manaus também, acabaram os mantimentos. Quando chegou viu um e-mail do Giorgio, um biólogo importante, dizendo que ela causou um transtorno imenso no projeto e ele chegaria em Manaus na quinta-feira, que era exatamente o dia em que Francesca via a mensagem. A princípio a gente não sabe se ele só foi para salvar a pesquisa e tirar a Francesca do transe ou se ele também acreditou que valeria a pena.

— E qual é a do Giorgio?

— Ficamos na dúvida um bom tempo, mas é a parte mais bonita do livro. Durante a chegada dele, no andar das pesquisas, de vez em quando eles soltam uma lembrança, uma palavra dúbia, uma pista, só no final dá pra entender.

— Está tocando You don’t know me, moça.

— Nada mal para o nome de um sanduíche de queijo.

— O que o Caetano diria disso?

— Do sanduíche? Não sei. Mas ele apoiaria o uso que fizemos da música. O ritmo é muito adequado.

— Sempre fomos bons nisso com qualquer música.

— Eu morro de saudades de você. Essa frase é alerta vermelho, preciso chegar ao fim do livro, já tomamos quatro cervejas, cada um. Já comemos os Beatles e o Caetano.

— Não estou apressado.

— Enfim, eles seguem com a pesquisa e felizmente as coisas vão dando certo, aos poucos. Eles comprovam que a comunicação entre as árvores acontece entre as raízes.

— Descobrem pela pesquisa ou é o cara do chá que conta?

— Pesquisa. Ciência. Isso dura anos, estou acelerando aqui. Eles mapeiam umas enzimas que passam de uma árvore para outras, transporte de águas de árvores fortes para as mais frágeis. Com as comprovações, começam a chegar outros pesquisadores. Uma delas desenvolve um modelo matemático para explicar isso. É uma lição sobre viver em comunidade, em pares, sobre comunicação.

— Você também anotou as fórmulas, claro.

— Não, dessa vez não teve fórmulas, mas é impressionante porque as pesquisas todas existem de verdade e como a mulher escreve bem demais tudo vai fazendo absurdo sentido. As árvores ajudam umas às outras em ambientes mais carregados de stress ambiental, onde elas correm mais perigo.

— E o Giorgio? É um fio narrativo paralelo importante, pelo que você disse.

— O lance entre eles começa a ficar mais evidente quando o Giorgio acha uma espécie de salão de orquídeas da Amazônia e explica que elas têm caules finos, precisam de árvores fortes e que cada flor é um presente de agradecimento por essa união, digamos assim. E que o amor, só por existir por dentro, faz a mesma coisa com a gente. Nasce uma orquídea no peito mesmo que ninguém veja, ninguém saiba. E ele diz que foi assim, naqueles anos todos ela era uma orquídea linda nas lembranças dele.

— É.

— Eles foram amantes por muitos anos. Ela era mais velha, mais experiente, foi professora dele, se amaram muito, mas precisaram se separar. Só que ele confiava nela mais que tudo e viajou para ajudar.

— Você acha que ele foi lá só pra ajudar? Só para ouvir o que ela tinha a dizer?

— Acho que foi tudo misturado.

— Acho que ele pode ter ido para dar uma chance ao acaso.

— É nesse ponto que quero chegar: há o visível e o invisível em todos os atos. Os dois ficaram muitos anos nessa dificuldade, sem realizar o amor, porque nunca conseguiram falar direito sobre isso. E a verdade é que a gente nunca sabe falar direito quando está no meio de um sentimento muito forte. Parece a metáfora do iceberg para explicar a nossa mente. A ponta é a consciência, a menor parte. O resto é oculto. Tem uma hora em que a Francesca compara o tempo da floresta com o tempo dos humanos. Somos nada e ainda perdemos horas preciosas de felicidade.

— Mas vem cá: o que é que tem a ver o rio de meandros com isso tudo?

— No final eles estão passeando de barco, em um rio de meandros. Ele pede pro barqueiro parar e ficar em silêncio um pouco, ouvindo o rio. No dia seguinte, bem cedo, eles iriam embora para apresentar o trabalho, porque deu tudo certo, o mundo começou a entender. O Giorgio disse que essas curvas foram batizadas de meandros por causa de um rio na Turquia, explica como água esculpe a terra e faz uma analogia com as histórias de amor, vê o rio como metáfora do tempo.

— UAU.

— Cita Shakespeare, inclusive, dizendo algo sobre como as grandes histórias de amor não são as normais, as equilibradas, mas as que se espalham no tempo, as incompreensíveis.

— Eles terminam juntos?

— O final é aberto. O livro é justamente sobre não existir essa resposta fechada para as coisas. E sobre como não sabemos absolutamente nada. Sequer sabemos nos comunicar direito. A floresta é mais antiga que nós todos, perto dela somos um exército de tolos.

— Posso ver o cardápio agora?

— Mais duas cervejas na cabeça e eu pediria D’yer mak’er, mas acho que seria jogo baixo.

— Seria. Mas o que vou fazer também não é muito diferente. Amigo, queremos essa sobremesa aqui e mais duas cervejas.

— Eu pulei algumas coisas do livro, tem muita confusão pelo meio. As pessoas começam a dar depoimentos sobre a conversa das árvores, ela tem uns sonhos sobre colocar o ouvido no chão e ouvir palavras saindo de umas raízes para as outras.

— Perguntei isso no começo, se a comunicação era com palavras.

— Mais uma vez você foi direto ao ponto, sem saber. Foi o que me impressionou no livro. O que a gente diria um ao outro se pudéssemos falar por dentro, sem palavras, de alma para alma?

— Então foi para isso que você me chamou. Pra me fazer essa pergunta.

— Para responder, também.

— Eu acho que o Rio de meandros é uma novela, não um romance.

— Concordo. E gosto dessa concisão. Acho que ele chegou pra mim no momento certo para revolucionar completamente minha ideia sobre a vida.

— E sobre o tempo das coisas.

— Está tocando Jokerman, moço. Combina com esse doce de leite. Boa escolha, ainda lembro muito bem. E você mudou de assunto na hora de responder à pergunta. E você está mais bonito assim, pensativo.

— É, tô pensando aqui que essa coisa de raiz é um pouco erótica, até, porque existe uma comunicação sexual secreta sob a terra. Eu gosto.

— Segundo a Francesca, quando abandonamos um lugar, a natureza cresce e faz o que precisa ser feito. Pode ser que o lugar seja totalmente anulado, dissolvido, mas pode ganhar mais vida.

— Concordo, mais uma vez. Lembra umas coisas que já escrevi.

— Você continua escrevendo?

— Parei. Mas nessa conversa aqui já tive umas três ideias.

— Não me espanta. Você é genial, sempre disse.

— Essa autora escreveu outros livros?

— Sim, escreveu. Fiquei com vontade de ler tudo. Há algo ali que parecia falar comigo, sabe? Parecia me dar um recado, me dizer que a vida humana é pequena demais para não ser feliz.

— Agora, sim.

— O que?

— Foi por isso que você me chamou. Pra a gente brincar de árvore.

— Quando o Giorgio está com a Francesca no barco ele diz uma frase que talvez seja a segunda mais marcante do livro: o amor é um rio de meandros.

— E quando as árvores sentem saudades? Elas saem andando igual filme de animação japonês, com as raízes expostas, tremendo a terra?

— Elas sentem saudades mesmo, a autora conta no posfácio que leu alguns tratados científicos falando isso. As árvores sentem amor, saudades, formam famílias. A samaúma, por exemplo, tem um comportamento maternal na floresta.

— Você leu algo sobre a repercussão do livro, se está fazendo sucesso, como tem sido aceito? A autora é de onde?

— Polonesa. Já foi publicado em vinte e três idiomas, vai virar filme em breve, chegou no Brasil agora mas nem foi lançado ainda, recebi a prova da editora para escrever uma resenha. Penso em dizer que o mais importante é compreender a chave do livro como manual de ensinamentos da floresta. A gente precisa voltar a entender como conduzir a vida. Estamos fazendo tudo errado.

— Fiquei imaginando aqui o que as árvores diriam se usassem palavras.

— Diriam “Eu te amo”, tenho certeza. Não ficariam um ano com saudades, nunca. Amor de árvores, sabe? Não essa burrice que a gente faz com as nossas vidas o tempo todo. Um jeito de amar que não encaixa nas regras humanas, nos enganos da gente.

— Olha pra mim, raiz com raiz: o que você quer me dizer com isso tudo?

— Entrelaçar as mãos é um bom começo de metáfora para raiz com raiz. Acho que estamos muito bêbados, sete cervejas pra cada, mas nos entendemos. Espero que você leia o livro, mesmo já sabendo de tudo.

— Claro que vou ler. Preciso saber mais sobre o amor secreto das árvores. Acho que agora entendi umas coisas.

— Obrigada por ter vindo. Já está tarde, vou pra casa.

— Vou com você. Não estou apressado. A noite é longa na floresta.

 

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* Socorro Acioli é escritora, autora do romance A cabeça do santo (Companhia das Letras) e doutora em literatura pela Universidade Federal Fluminense.

 

Esse conto é inspirado na pesquisa da professora Marina Hirota (UFSC) que, a partir de estudos interdisciplinares, investigou, com o apoio do Instituto Serrapilheira, como a floresta Amazônica cria uma comunicação própria para tentar preservar sua forma e identidade, mesmo diante de adversidades climáticas. Neste projeto, a proposta foi explorar como diferenças espaciais em fatores naturais e antrópicos podem atuar em potenciais reconfigurações da floresta, interrompendo processos ecológicos e minando a capacidade dessas florestas de funcionar. Dependendo de como cada um dos tipos florestais responde às ameaças, o colapso da Amazônia pode ser acelerado ou não. Por meio desse estudo, espera-se gerar informação que permitirá às sociedades manejar a resiliência sistêmica da Amazônia, com a manutenção de sua forma e identidade. Marina Hirota é doutora pelo CPTEC-INPE (2005-2010), fez pós-doutorado na Universidade de Wageningen (2010-2012) e faz parte hoje do Group for Interdisciplinary Environmental Studies (IpES).

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