Botao Vermelho 1 Flavio Pessoa outubro.20

 

Você lê aqui o segundo conto da série Botão Vermelho, uma parceria do Pernambuco com o Instituto Serrapilheira que une literatura e ciência para pensar novos mundos. Clique aqui e leia o editorial da série, escrito pela curadora e editora Carol Almeida. Para ler o primeiro conto, clique aqui.

No texto abaixo, assinado pelo escritor Antônio Xerxenesky, palavras em vermelho indicam informações científicas. Clique em cima delas para conhecer mais dados.


***

 

Às 22 horas apagavam as luzes e só assim eu sabia que horas eram. Gritos sempre vinham da minha direita, gritos que se alternavam com choros solitários e desesperados, e eu me perguntava se a pessoa que gritava era a mesma que chorava. O ruído tornava o período da noite — que só existia como uma abstração, pois não havia janelas que filtrassem a luz do sol, e tínhamos que supor que era noite porque as lâmpadas fluorescentes eram desligadas — o mais longo.

À minha esquerda só havia uma outra cela, e por alguns dias pensei que ninguém estava preso ali, pois tudo o que eu ouvia era o silêncio. Mas, certa noite, pouco depois de mergulharmos na escuridão, quando ninguém sentia sono, por mais que o tédio na cadeia fosse brutal, uma voz me chamou.

“Por que você está aqui?”, perguntou a voz feminina, num sussurro que mal conseguiu ultrapassar a parede que nos separava.

Demorei um tempo para reagir. Levantei-me do colchão sem lençóis, caminhei até a parede cinza e dei duas batidas nela. Aguardei. Duas batidas vieram de resposta.

“Por que você quer saber?”

“Passar o tempo. Conhecer os vizinhos.”

“Assassinato”, suspirei.

“Ah.”

“E você?”

“Também.”

“E você é culpada?”

“Ninguém aqui é culpado.” 

“No sentido de que nenhum preso admite a culpa”, perguntei, coçando a barba que tinha nascido nesses dias, “ou…”

“No sentido de que não matei ninguém, não cravei a faca nas costas de uma pessoa, não dei um tiro de espingarda na cabeça de outro ser humano, não envenenei, não estrangulei…”

“Ah. Eu também não. Senão teriam me botado em uma cela das cidades-presídios. Junto com a turma do dolo.”

O riso discreto dela ecoou pelo corredor.

“E o que foi que você fez?”, ela me perguntou.

“Troquei o aquecedor do banheiro. Você?”

“Contei uma piada.”

“É uma tecnologia e tanto”, eu disse, e no silêncio soube que ela concordava. Assim, comecei o relato de como tinha ido parar na cadeia.

***

Eu tinha saído feliz do banho matinal, contente com a temperatura perfeita da água, passei o desodorante, vesti uma calça e uma camiseta limpa, e enquanto tirava dois ovos da geladeira, escutei a campainha tocar. Abri a porta e em cinco segundos estava algemado. A primeira reação, instintiva, impressa nos nossos neurônios mais primitivos, é a de perguntar “O que foi que eu fiz?” Os guardas sorriram; estavam acostumados a perguntas bobas dessas.

Na delegacia, o comissário me conduziu a uma sala, onde uma tela de 70” oferecia a reconstrução do meu crime.

Querendo economizar um pouco de dinheiro, decidi trocar eu mesmo o aquecedor do banheiro. Usei um guia em vídeo na internet para fazer as ligações elétricas. Porém, devido à minha incompetência, alguns fios errados desencadearam uma queda de energia em todo o prédio. Cinco andares acima, na cobertura, uma senhora de setenta anos se preparava para descer as escadarias. Graças à falta de luz, a mulher rolou pelos degraus.

Ah, foi ela quem morreu?, perguntou a voz na cela ao lado.

Não. Os dispositivos instalados no cérebro e coração emitiram um alerta para o hospital mais próximo e também para o filho dela, que morava a cinco quilômetros dali. O filho entrou em pânico e dirigiu em alta velocidade pelas ruas. Acabou sofrendo um acidente quando chegava na quadra do prédio da mãe, o meu prédio.

Certo, então foi o filho da senhora que caiu da escada quem morreu?, perguntou a voz na cela ao lado.

Também não. Foi o motorista do outro carro no qual o filho da senhora colidiu. O filho sofreu ferimentos leves. A senhora fraturou o fêmur, mas a ambulância chegou lá e cuidou dela.

Ah, expirou a voz na cela ao lado.

Então o investigador do caso solicitou acesso aos dados do edifício, a todas as câmeras privadas, e também pediu as imagens de satélite da cena do acidente, o registro das últimas horas do filho da senhora… E de volta à delegacia, alimentou a máquina de computação quântica que o governo tinha comprado e distribuído para todas as capitais. Todas as variáveis foram calculadas. A minha incompetência com a instalação dos fios provocara a morte de um sujeito que dirigia tranquilamente pela noite. Pouco importava se a queda de luz tinha durado apenas cinco minutos, ou que na manhã seguinte o chuveiro tenha cuspido uma água quente que massageou minhas costas.

Pedi um advogado. Era meu direito. Os guardas que cuidavam de mim sorriram com o mesmo sorriso de quando fui algemado. Como se fosse possível provar minha inocência.

***

“Quanto tempo você pegou de cana?”, a voz me perguntou, e eu achei o termo “cana” fora do comum, como se fosse uma expressão que ela pegou emprestado de uma série de TV.

“Três anos. Homicídio culposo por imperícia. Você?”

“Só um.”

“Que inveja.”

“Foi só uma piada que eu contei no Twitter.”

“Espero que tenha sido boa.”

“Sim, deram muitas risadas”, ela bufou.

Voltei para meu colchão e deitei a cabeça sobre a ausência de travesseiro.

“Não é irônico?”, a voz voltou a falar.

“O quê?”

“Não é irônico”, ela disse, “que a tecnologia que nos prendeu — a que elaborou a ligação causal entre a sua incapacidade como eletricista e a morte desse motorista, entre a minha piada e o suicídio de um adolescente na Bulgária que nem fala a nossa língua —, a tecnologia que faz as engrenagens invisíveis dessa máquina girarem, ela foi desenvolvida graças à descoberta chocante de que causalidade não existe no cerne do universo? Porque uns cientistas malditos, analisando o comportamento de partículas que microscópio nenhum enxerga, que não conseguem ser representadas com desenhos ou gráficos, que meros mortais como eu e você nunca vamos entender, esses desgraçados viram ali que no mundo minúsculo ação e reação não estão ligados da mesma maneira, e chocados com essa descoberta, conseguiram instrumentalizar o conhecimento da natureza e montaram um sistema de processamento mais potente do que qualquer coisa já vista até então. E esse superprocessador, por sua vez, é capaz de refazer as ligações invisíveis do nosso mundo. Onde nós vemos pontos, a máquina enxerga constelações. Para você foi um fio errado, para a máquina, uma ligação direta entre esse acidente de carro e o seu banho quente…”

“A falta da lógica causal do comportamento das partículas foi transformada em motor para a máquina de enxergar causalidades na nossa sociedade. Esse é o seu argumento?”

“Um bom resumo. Eu já sei o que você vai me dizer. Você é novo aqui. Está só há seis dias. Você vai dizer que isso é besteira. Que os cientistas não sabiam de nada. Um cientista apenas descobre como funcionam as leis da natureza. A utilização das suas epifanias é coisa do governo, do exército. Quem descobriu a fissão nuclear não é responsável por Hiroshima. Quem descobriu a dinamite, o grande Nobel, não carrega o fantasma de milhares ou milhões de pessoas. E qual vai ser o seu argumento? Eu sei: seu argumento será ‘não há ligação causal entre a descoberta do cientista e a utilização.’ Ninguém sabe de nada nunca. O seu argumento esconde a pior mentira de todas. Ele insinua que somos todos inocentes. Não é? Que somos puros. E sabe o que essa máquina nos mostra? Que somos culpados. Que sempre somos culpados. Desde que nascemos. Todos nós carregamos essa culpa. Todos nós carregamos um genocídio nas costas. A máquina só nos mostrou isso. Estabeleceu as ligações que ninguém enxerga. Os cientistas devem ter calculado isso nos seus aceleradores de partículas. O mundo é assim, tanto microscópico quanto macroscópico. Hermes Trimegistus. O que está em cima é como o que está embaixo. O que está dentro é como o que está fora.”

Ela pausou o discurso para recuperar o fôlego. Tempo o suficiente para que eu interrompesse:

“Há quanto tempo você está aqui?”

“Nove meses.”

“Falta pouco para sair, então.”

“Sim. Mas do que adianta?”

Voltei a me sentar na cama. Em alguma cela à minha direita, o homem que varava a noite gritando dava seus primeiros berros.

“Viu só?”, ela perguntou.

“O quê?”

“O homem dos gritos. Ele entendeu. Eu passei por isso. É a crise dos seis meses. Você vai passar por isso também. Questão de tempo. Não se preocupe. Depois, você mal consegue se lembrar desse período. Parece que foi outra pessoa quem gritou. Você não reconhece a sua voz.”

“O que você vai fazer quando sair?”, perguntei, tentando desviar do assunto.

“Ser presa de novo.”

“Como assim?”

“O próximo estágio dessa tecnologia será detectar comportamentos perigosos. O Estado já tem todas as nossas informações. Nós somos obrigados a usar redes sociais para existir no mundo e nós alimentamos a nuvem com todos nossos pensamentos. Usamos relógios monitorando nossos sinais vitais, chips no cérebro para regular o fluxo de serotonina… Basta um computador potente o suficiente capaz de processar todos esses dados. E aí vão saber o que estamos pensando e tramando. E sabe o que vão descobrir de mim?”

“O quê?”

“Que eu quero estrangular todos os cientistas. Assim como nós fomos presos, eles também merecem arcar com a responsabilidade. Mas não. Eles têm imunidade, foro privilegiado nessa história.”

“Eu não consigo imaginar você matando alguém.”

“Você nem está me enxergando”, ela riu. “Você nunca me viu. Eu sou só uma voz vindo da parede.”

“Eu não consigo me imaginar matando alguém.”

“Eu nunca mataria ninguém. É só raiva. Mas logo a máquina vai interromper isso.”

Naquela noite morna, conseguia escutar a respiração acelerada do outro lado da parede. Olhei para os tijolos e tentei imaginar como era a pessoa com quem eu conversava. Uma mulher de que idade? A voz não fornecia pistas. Mas algo no discurso dela, sim (ela devia ser muito jovem). Com certeza nasceu após a chamada geração dos traumatizados, composta por pessoas que perderam algum ente querido durante a Primeira Grande Pandemia, devido ao desrespeito e ignorância científica que se tornaram regra não apenas entre os líderes mundiais como entre os cidadãos, que fabricavam notícias falsas a respeito de vacinas e medicamentos ineficazes. E os cientistas, antes tão poderosos, assistiram a tudo, e por mais que gritassem, suas vozes eram abafadas e engolidas pelo ruído violento da estupidez.

“Qual é a sua idade?”, perguntei.

“Do que importa?”

“Só queria confirmar uma suspeita. De que você é da geração pós-19.”

Ela ficou quieta.

“Você não vivenciou em primeira mão a tragédia que é um planeta inteiro rejeitando o método científico.”

“Bom, você não sabe a minha idade”, ela disse, “mas eu sei a sua.”

“Escuta. Ao invés de perseguir quem descobriu as regras da natureza que permitiram o desenvolvimento da computação quântica, não seria mais fácil atacar as empresas, os CEOs bilionários, os governantes? Aqueles que perverteram a máquina? Não seria interessante sonhar em cobrir de querosene essas celas e tocar fogo no sistema carcerário, até que todas as prisões virem ruínas com grades meio derretidas?”

“Eu sabia que você ia usar esse argumento…”, ela disse. “Nunca é fácil separar o que é obra do exército do que é obra da ciência. Sem guerras não teríamos avanços médicos. Sem espionagem não teríamos internet. Tudo é indissociável.”

“Mas não foque nas descobertas e avanços. É fácil saber quem lucra com isso. Os bilionários adoram se exibir nas capas de revistas para mostrar suas fortunas. Quando eu era jovem, lembro de ver todos esses CEOs de braços cruzados enquanto as redes sociais que pariram destruíam uma democracia por vez. E eu tentei me afastar disso, apagar meus perfis, viver à margem da estupidez, mas não adiantou nada, foi um só movimento individual de recusa. Hoje eu me pergunto por que não nos revoltamos de forma coletiva. Por que não incendiamos aquilo tudo.”

“É um pensamento bonito. Dá para ver que você também vai ser preso em breve. Logo que sair. Não tenha dúvida.”

“Eu não tenho raiva.”

“Ainda não.”

“Sabe, antes de eu ser um eletricista frustrado, fui professor de Física no colégio.”

“Um professor de Física que não sabe encaixar o fio amarelo no lugar certo?”

“Eu sempre tentava convencer meus alunos da beleza da ciência.”

“Ah, por isso você ainda se presta a defender essa gente.”

“Você fala como meus alunos. Um monte de adolescentes perdidos, que não faziam ideia do que cursar na faculdade. E na maior parte do tempo que trabalhava de professor, é claro, eu semeava no deserto.”

“Não é sua culpa. Na verdade, um adolescente mal sabe quem ele é.”

“Isso. Mas eu tinha sido contratado para dar aulas e queria fazer um bom trabalho. Pagava mal, mas era a função que me cabia. E os alunos em geral acham mecânica clássica um saco. Mas quando chegamos na mecânica quântica, alguns poucos se empolgam, mesmo sem entender quase nada. Eu conto aos alunos de Heisenberg, da ideia de que só é possível saber a posição de um elétron quando o observador está presente em cena… E sabe o que um aluno me perguntou um dia?”, falei, e sem esperar a resposta, prossegui: “Que isso era prova de que os seres humanos são especiais, que nós temos um papel no universo, que nem tudo é vazio de significado. Que há um sentido por trás do absurdo.”

“Ele chegou a essa conclusão em uma aula de Física?”

“Sim. Disse que era prova de que se o observador é capaz de influenciar o cerne da matéria, nós temos um poder especial, uma centelha de divindade.”

“Caramba. E esse aluno desistiu da faculdade e entrou para a Igreja?”

 

Botao Vermelho 2 Flavio Pessoa outubro.20

 

***

Coisas que eu não disse à voz do outro lado do muro: que, para mim, a humanidade vive em um movimento pendular que vai do absoluto desencanto com o mundo, quando negamos toda metafísica, toda religiosidade, toda magia, toda superstição, quando olhamos para uma mesa e dizemos: isto é uma mesa; quando olhamos para o céu e dizemos: podemos calcular a distância que as estrelas se encontram de nós para concluir que se trata de uma distância intransponível; quando olhamos para outro ser humano e sabemos que não passa de um amontado de carbono, hidrogênio, nitrogênio, oxigênio, cálcio e fósforo; quando nos perguntamos por que estamos na Terra, por que somos o que somos, por que nascemos neste corpo, por que estamos acordados e controlando este ser humano, e a resposta é: por um acidente biológico; a resposta para a consciência se encontra na química peculiar do cérebro; nesse momento habitamos o mundo em pleno desencanto, e isso ocorre mais ou menos de cinquenta em cinquenta anos, e agora, nessa cadeia, vivenciamos esse momento da história, e parece absolutamente lógico para os líderes da sociedade que estejamos presos. A máquina ordenou; a máquina não mente.

Mas é quando o pêndulo está nessa posição que ele começa a ganhar momentum, e logo será atirado pela força da gravidade para o lado oposto. Pensamentos irracionais começam a fermentar; alguém, em algum lugar do globo, começa a praticar magia, enfrentando todas as barreiras de ceticismo que impomos a nós mesmos; alguém, em algum outro lugar, insiste que as teorias da neurociência não dão conta de explicar por que estamos vivos e por que morremos e o que acontece depois que nosso coração para de pulsar; alguém contempla o que é vendido como lógico e tudo o que enxerga é a pobreza e a feiura do materialismo; o pêndulo começa a se deslocar.

O problema é quando chegar ao outro extremo, quando os cientistas são vistos com desconfiança, quando tudo parece teoria da conspiração porque não somos capazes de conectar as peças do quebra-cabeça às quais temos acesso, quando a ignorância vira um valor em si, quando os cadáveres começam a se acumular nas calçadas.

Esse aluno brilhante que tive entendeu tudo isso desde adolescente. Ele compreendeu o movimento pendular que nos condena enquanto sociedade e, graças ao seu talento prodigioso com conceitos abstratos e matemática, ele sonhou em romper o ciclo, em buscar os pontos de contato entre física e metafísica, ciência e filosofia. Não foi o primeiro, é óbvio, e não será o último. Mas não, ele não entrou para a igreja, querida voz que me faz companhia nesta noite longa e interminável. Não. O que o estudante fez foi o seguinte:

***

“Curiosamente, ele me escreveu alguns anos atrás. Estava fazendo um Doutorado em Mecânica Quântica e queria me agradecer. Disse que, se não fosse por mim, nunca teria seguido carreira na área. Que era uma tragédia o fato de que professores de Ensino Médio nunca recebiam crédito pelo papel prestado à sociedade. Enfim. Uma mensagem de agradecimento muito bonita.”

A voz pigarreou do outro lado da cela e me deixou em silêncio por minutos. Pensei que tinha dormido. Até que ela ressurgiu, num tom irritado, quase furioso.

“Você percebe o que você fez?”

“O quê?”

“Talvez ao levar esse menino para estudar Física, você tenha ajudado a construir a máquina que agora nos prendeu.”

“Não… Extremamente improvável…”

“Ah é? Improvável como uma instalação ruim de um aquecedor gerar a morte de um desconhecido que talvez nem morasse na mesma cidade? Você não compreende as lógicas da causalidade. Nenhum ser humano entende. Só a máquina.”

“Isso é absurdo.”

“Toda lógica vista por um elemento de fora parece ilógico. Para mim é óbvio e, como se dizia antigamente, está escrito nas estrelas: ao ser professor desse aluno, você mesmo se jogou dentro dessa cela. O labirinto é circular.”

Senti um formigamento nos dedos das mãos e me apoiei contra a parede. Depois, fui tomado por uma pressão no peito e pensei que pudesse desmaiar. Resolvi me deitar no chão. Meu coração surrava as minhas costelas.

“Computação quântica… esse é o motor da máquina…”, prosseguia a voz, “deveriam chamar de computação paranoica…”, e a voz dela vinha em espasmos e suspiros, “a máquina encontra o sentido… nós a moldamos… nós a alimentamos… nós vemos um mundo sem sentido… ela enxerga a lógica por trás de tudo… eis a paranoia… eis a gratificação da paranoia… encontrar que tudo está ligado… que existe uma ordem…”

O barulho de um cassetete golpeando as grades me fez levantar em um salto.

“Silêncio aí!”, gritou o guarda, e ele caminhou até a minha cela. Eu tinha conseguido me apoiar nos cotovelos e estava recostado contra o colchão. O guarda colocou o braço entre as grades e abriu a mão, revelando um comprimido em formato de losango.

“O que é isso?”

“Seu monitor de sinais cerebrais indicou possível crise de pânico. Trouxe um ansiolítico. Por favor, ingira em seco na minha frente. Ordens lá de cima.”
Engoli o medicamento. O guarda desapareceu silenciosamente. Em poucos minutos, sentia a escuridão ganhar contornos brumosos, como se eu afundasse em uma nuvem arroxeada.

“Boa noite”, a voz do outro lado disse num tom apaziguador. “Desculpe ter deixado você nervoso.”

“Está tudo bem, não se preocupe”, consegui responder, pouco antes do sono me dominar. “Afinal de contas, todos somos culpados, não é?”

Talvez eu já estivesse dormindo, mas juro que escutei-a chorando.

 

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* Antônio Xerxenesky é escritor e tradutor, autor, dentre outros, de As perguntas e F, este último finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e primeira seleção do Prix Médicis Étranger.

 

A pesquisa científica que inspirou essa história é do professor Rafael Chaves, físico e pesquisador do Instituto Internacional de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Sua pesquisa se insere na interface entre a Mecânica Quântica e Teoria da Informação, causalidade e aprendizagem de máquina. Com apoio do Instituto Serrapilheira, seus trabalhos mais recentes buscam entender como e por que nossa intuição sobre relações de causa e efeito deixam de valer no mundo microscópico, regido por efeitos quânticos. Além de seu aspecto fundamental, essa nova forma de entender a causalidade tem aplicações práticas, por exemplo, na criptografia quântica, na qual a segurança da nossa informação é garantida, a menos que um hacker possa violar as próprias leis da física. A partir destes trabalhos, seu grupo de pesquisa iniciou um novo projeto que busca entender as propriedades da internet quântica, uma rede ainda fictícia, mas que promete revolucionar a forma como nos comunicamos.

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