Reportagem Isabel Lucas 3 Karina Freitas maio2020.1

 

Esta é a nona reportagem da série Viagem ao país do futuro, na qual Isabel Lucas pensa o Brasil a partir da literatura e da realidade que a ficção representa. O trabalho é publicado em parceria com o jornal português Público. Exceto em situações que criem ambiguidade em relação ao português brasileiro, a grafia mantém o original da autora, escrito de acordo com o português de Portugal.

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Ao longe os dois homens parecem suspensos sobre um azul intenso, contornos bem definidos, um sentado o outro de pé. O sol está alto, não há sombras e o horizonte não é bem uma linha, mas qualquer coisa indefinida entre mar e céu que magoa os olhos de tão brilhante, espécie de névoa prateada que cega quem a tenta fixar. Tudo é amplo, aberto, vivo, mas sem som, um recolhimento de calor do meio dia, sem o canto das gaivotas nem o ronco dos motores dos barcos. Os dois homens estão virados para Norte, à entrada da Baía de Todos-os-Santos, em Salvador, a Ilha de Itaparica à esquerda e um pontuado de 72 ilhas e ilhotas. Cada um dos homens segura uma cana de pesca e há um cão deitado aos seus pés. São pai e filho, Carlos e Vagner, e só deixaram de ser uma miragem quando percorrida a grande passadeira de betão que entra pela água na ponta de Humaitá, junto ao Farol de São Filipe, também conhecido por Monte Serrat. Eles estão no limite entre terra e mar.


“Deus abençoe. As pessoas vêm aqui, olham, tiram foto e nem bom dia, como se a gente fosse só paisagem”, diz o mais velho. “A gente é real, tira peixe do mar e tudo, ó”, o mais novo a apontar para um cesto cheio e, ao lado, um saco de camarão para isca. “Tem peixe vermelho, tem caramuru...”, continua Carlos. Nada dos “grandes bichos marinhos que todo mês de junho vinham galhardear os corpanzis no meio das ondas verdes da Baía de Todos-os-Santos”, como escreveu João Ubaldo Ribeiro em Viva o povo brasileiro, uma imagem que vem ao acaso, a paisagem a interpor-se no diálogo com as suas referências literárias “Não tem nada melhor do que peixe vermelho frito. Tou só esperando que ele tire a cana prá gente caminhar até ao almoço. Hoje vai ter”, diz ainda Carlos. Vivem ali perto, na Cidade Baixa, e sempre que o bom tempo coincide com uma folga do filho as silhuetas de Carlos e Vagner ajudam a ilusão, ao longe, de que há dois homens suspensos nas águas calmas da Baía de Todos-os-Santos.

Em qualquer ponto da Bahia, real e ficção estão separados pela mesma linha ténue — por vezes, ofuscante — que separa céu e mar à luz do meio-dia. Por isso, quem conta uma história tem o imenso poder de a eternizar com a sua visão do mundo. O poder é das palavras e de quem as profere conduzindo o ouvinte — ou leitor — para uma ideia de verdade. Como escreveu João Ubaldo Ribeiro em epígrafe a Viva o povo brasileiro, “O segredo da Verdade é o seguinte: não existem fatos, só existem histórias”.

Estamos na Bahia e “muitos são os riscadores de milagres na Bahia”, escreveu, por sua vez, Jorge Amado em Tenda dos Milagres, frase que sublinha a tal fronteira ilusória entre ficção e realidade enquanto traço constitutivo da identidade baiana, materializada nesse romance pela tenda de Lídio Corró, tipógrafo, personagem do livro em que Amado elaborou acerca da miscigenação, ou melhor, da mestiçagem — racial, cultural, religiosa, linguística — enquanto marca estrutural do território brasileiro e faz dessa ideia uma utopia, mais do que da Bahia, do Brasil. “Na Tenda dos Milagres, Ladeira do Tabuão, 60, fica a reitoria dessa universidade popular (nome que o narrador dá à zona do pelourinho no centro histórico de Salvador). Lá está mestre Lídio Corró riscando milagres, movendo sombras mágicas, cavando tosca gravura na madeira; lá se encontra Pedro Archanjo, o reitor, quem sabe? Curvados sobre velhos tipos gastos e caprichosa impressora, na oficina arcaica e paupérrima, compõem e imprimem um livro sobre o viver baiano.”

Publicado em 1969, tinha Jorge Amado 57 anos, Tenda dos Milagres tem como protagonista Pedro Archanjo, “preto, pobre, paisano”, habitante da cidade de Salvador na passagem do século XIX para o XX, um herói popular que encarna o cruzamento dos saberes arcaicos com a erudição numa altura em que a Bahia rural está em decadência e a cidade se apresenta como ideal de futuro. “A Tenda dos Milagres é uma espécie de Senado, a reunir os notáveis da pobreza, assembleia numerosa e essencial. Ali se encontram e dialogam iyalorixás, babalaôs, letrados, santeiros, cantadores, passistas, mestres de capoeira, mestres de arte e ofícios, cada qual com seu merecimento”, escreve Jorge Amado, antes de situar Archanjo nesse cenário. “Foi a partir desse tempo, moço de vinte e poucos anos, que Pedro Archanjo deu na mania de anotar histórias, acontecidos, notícias, casos, nomes, datas, detalhes insignificantes, tudo quanto se referisse à vida popular. Para quê? Quem sabe lá.”

O bilhete de identidade descreve-o assim:

“Pedro Archanjo.

Data e local de nascimento:

18 de dezembro de 1868, na cidade do Salvador, estado da Bahia.

Filiação:

Filho de Antônio Archanjo e de Noêmia de Tal, mais conhecida por Noca de Logunedê. Do pai sabe-se apenas ter sido recruta na Guerra do Paraguai na qual morreu durante a travessia do Chaco, deixando a companheira grávida de Pedro, primeiro e único filho.
Estudos:

Tendo aprendido sozinho a ler, frequentou o Liceu de Artes e Ofícios onde adquiriu noções de diversas matérias e da arte tipográfica. Distinguiu-se em português e desde cedo foi dado à leitura. Já homem maduro aprofundou-se no estudo da antropologia, da etnologia e da sociologia. Para fazê-lo aprendeu francês, inglês e espanhol. Seus conhecimentos da vida e dos costumes do povo eram praticamente ilimitados.

[...]

Outros dados:

Mulato, pobre, autodidata. Ainda rapazola engajou-se grumete em navio de carga. Viveu alguns anos no Rio de Janeiro. Ao voltar à Bahia, exerceu o oficio de tipógrafo e ensinou primeiras letras, antes de empregar-se na Faculdade de Medicina, emprego que veio a perder, após tê-lo exercido durante cerca de trinta anos, devido à repercussão de um de seus livros. Músico amador, tocava violão e cavaquinho. Participou intensamente da vida popular. Tendo permanecido solteiro, atribuem-lhe muitos amores, inclusive bela escandinava, sueca ou finlandesa, não se sabe ao certo.

Data da morte:

Faleceu em 1943, aos setenta e cinco anos de idade. Grande massa popular acompanhou seu enterro, ao qual estiveram presentes o professor Azevedo e o poeta Hélio Simões.

No exemplo de sua vida, Pedro Archanjo mostra-nos como um homem nascido paupérrimo, órfão de pai, em ambiente pouco propício à cultura, exercendo misteres humildes, pôde superar todas as dificuldades e elevar-se aos cumes do saber, igualando-se e até sobrepondo-se às mais ilustres sumidades da época.”

Era o vigésimo terceiro livro de Jorge Amado, e o décimo sétimo romance depois de sucessos como Jubiabá — de que é uma espécie de reescrita —, Capitães da areia, Gabriela, cravo e canela ou Dona Flor e seus dois maridos. Já militara no Partido Comunista Brasileiro e saíra, estivera exilado na Europa, viveu no Rio, tinha sido o primeiro escritor brasileiro a publicar na Gallimard, era membro da Academia Brasileira de Letras. O filho de um coronel do cacau, natural de Itabuna, próximo de Ilhéus, no Sul da Bahia, fazia da sua geografia de contornos meio mágicos um modo de escrita e afirmou várias vezes que Tenda dos Milagres era o seu romance preferido, talvez por simbolizar a complexidade do mundo em que o formara. Em Jorge Amado, uma biografia, Joselia Aguiar fala de um encontro histórico que sintetiza esse modo de ser e de se ver na literatura quando saiu Tenda dos Milagres. “A escritora Clarice Lispector, que naqueles dias colaborava com a imprensa, foi ter com ele a mando da revista Manchete. Jorge lhe explicou a quantas andava sua relação com o candomblé, que, se despertava desconfiança entre comunistas, causava estranheza entre a intelectualidade laica: ‘Não sou religioso, não possuo crença religiosa alguma, sou materialista. Não tive experiências místicas, mas tenho assistido à muita mágica, sou supersticioso e acredito em milagres, a vida é feita de acontecimentos comuns e de milagres. Não sendo religioso, detenho um alto título no candomblé baiano, sou um Obá Otum Arolu, distinção que meus amigos do candomblé me conferiram e que muito me honra’.”

BAHIA, MODO DE SER

Voltamos ao livro. Em 1900, Archanjo tinha 30 anos, “foi nomeado bedel da Faculdade de Medicina e assumiu seu posto no terreiro. Logo popular entre os estudantes, em breve lhes ensinava rudimentos das matérias. O lugar fora obtido graças à intervenção de Majé Bassan, multipotente em suas relações e amizades, temida até por graúdos do governo. Com frequência, ao ouvir a citação do nome de um bambambã da política, do comércio, de um potentado, até mesmo de sacerdotes da igreja, mãe Bassan murmura: ‘Esse é dos meus’. Entre todos, moços, velhos ou novos, pobres ou ricos, Pedro Archanjo era o preferido, o corifeu”. Ou seja, era consagrado Ojuobá, palavra de origem iorubá que significa olhos de Deus, um título honorífico para os altos sacerdotes do culto de Xangô, em África e nos terreiros de candomblé — a religião dos orixás — da Bahia.

O candomblé funcionou como um elemento de união entre povos de diversas origens étnicas de África que foram habitar a Bahia à força, e havia de ser também um elemento agregador, de grande simbologia para a vida comunitária, juntando nos seus terreiros gente de outras crenças ou sem crença alguma. Caso de Jorge Amado que teve funções idênticas às de Pedro Archanjo enquanto Obá de Xangô, sendo mesmo a personagem apontada como um dos alter egos do escritor que dizia que não era religioso, mas tal não o impedia de acreditar em milagres. A sua literatura, e em particular Tenda dos Milagres, resulta desse modo de olhar o mundo.

“Aqui há gente de todas as cores, de todas as crenças, de muitos ritmos”, diz Cláudio. Apresenta-se com um aperto de mão, no final da ladeira que leva ao Pelourinho, à Fundação Jorge Amado — diligentemente dirigida por Ângela Fraga e de onde se avistam torres de igrejas, telhados e a Baía de Todos-os-Santos —, à Igreja de Nossa Senhora dos Pretos, de onde saiu o funeral de Archanjo. Tem 28 anos, é moreno, magro, natural de Salvador. Procura freguesia para o seu táxi numa das sombras raras àquela hora. Tem um discurso preparado para sossegar o eventual medo dos recém-chegados diante de estatísticas que põem Salvador entre as cidades mais violentas do Brasil: quinto lugar entre as capitais, com uma taxa de homicídios de 63,5 para cada 100 mil habitantes, em 2017. Fortaleza, capital do Ceará, era a primeira com 87. Salvador ocupa outro lugar tristemente cimeiro entre grandes cidades do Brasil. O da desigualdade salarial, índice que parece ligado à condição maioritariamente negra da sua população. A média de rendimentos em 2018 entre os que se afirmavam negros era de 1650 reais, ou seja, um terço dos que se designavam brancos, que quase chegava aos 5 mil, a maior diferença salarial entre negros e brancos de todas as capitais brasileiras, de acordo com o IBGE. Mais um dado: em 2019, a Bahia era o segundo estado brasileiro em número de desempregados: 11,9 por cento. Salvador ajudou a elevar a média com 15,2 por cento.

Para escrever a biografia de Jorge Amado, Joselia Aguiar fez uma pesquisa exaustiva sobre o estado onde também nasceu e agora refere: “Não é um estado bem-aventurado na comparação com outros estados. Tem a ver com a história da cidade, até do estado, em termos de desenvolvimento económico. Desde o final do século XIX houve uma dificuldade da Bahia de, por exemplo, se industrializar, de se tornar um estado mais rico do ponto de vista económico. Era um estado cujas fortunas eram baseadas em terras que tinham perdido a sua produtividade. As grandes fortunas foram-se perdendo. Em Ilhéus, no começo do século XX, as pessoas começam a enriquecer, muito por causa do cacau, mas foi uma coisa muito localizada no sul da Bahia. E nos anos 1970, com a implantação de um polo petroquímico na região metropolitana, houve uma possibilidade maior de desenvolvimento económico, inclusive de a população negra também ascender socialmente, pessoas formadas em universidades com cargos mais elevados no funcionalismo público ou na carreira jurídica. Mas o estado perdeu um pouco o contacto económico, já no século XIX para o XX. Somado a isso, a cidade que teve uma proporção de escravizados muito maior na comparação com outras. O professor João José Reis (UFBA) refere que, no final do século XIX, a população da Bahia cresceu três vezes com a vinda massiva de escravizados. Depois há a pobreza e as suas decorrências. Grande parte da população vive em favelas (31 por cento), situadas em lugares íngremes. Quando chove as casas desabam, há soterramento. E há violência urbana decorrente, assaltos, furtos”.

Cláudio diz o mesmo de outra maneira, e acrescenta um jeito de viver o melhor possível com isso. “Há muita pobreza e pode haver violência.” É Cláudio quem fala. “Mas sem medo, não; é preciso saber chegar e saber sair, um pouco de simpatia. Claro que há decepção, que a gente não pode ser inocente sempre, mas é deixar a vida levar. Com um pouco de carisma, você chega em qualquer lugar. Mas há muito pobre, carece de educação. Creio que primeiro falta educação, segundo a questão de drogas, e o convívio. Mas o foco de tudo é a educação.” As palavras arrastam-se como num canto lento, melodia de quem não se deixa alterar, nem quando as coisas correm mal. Pelo contrário, adoça-se mais quando há o pressentir de um prazer: “Que inhame bonito!” Aponta para a banca de uma das muitas vendedoras de rua de lenço na cabeça ao longo do mercado cheio de gente de sacos na mão, blusas coloridas, um ruído de pregões, buzinas, música. “Gosto no café da manhã como no Sertão, inhame ou mandioca mais carne seca; é alimentação garantida”, e o “i” prolonga-se, ganha corpo na frase que marca outra das características do baiano: a comida é muito mais do que alimento. O pernambucano Manuel Bandeira chamou a Bahia “a grande sala de jantar do Brasil”, como lembra Joselia Aguiar na biografia de Jorge Amado, para referir a mescla entre bem receber, comida e natureza que faz com que o viajante se sinta a entrar na intimidade de alguém, de uma região.

Pedro Archanjo foi um intérprete dessa condição, dessa sabedoria, da “mesa” enquanto um todo. “Quitutes e iguarias, além dos livros, uniam o mulato baiano e o escuro peninsular, ambos de forte apetite e gosto apurado, ambos cozinheiros de mão-cheia. Archanjo não tinha rival em certos pratos baianos, sua moqueca de arraia era sublime. Bonfanti preparava uma pasta sciuta-ai-funghi-secchi de se lamber os dedos, reclamando contra a inexistência na Bahia de ingredientes indispensáveis. Das conversas e de almoços dominicais, nasceu a ideia de um manual de culinária baiana, reunindo receitas até então transmitidas oralmente ou anotadas em cadernos de cozinha”. Amado, que destinava com a famosa cozinheira Dadá o que se comia na casa do Rio Vermelho onde viveu seus últimos quarenta anos, sabia do que falava ao convocar a gastronomia para a sua literatura. A parco com a mestiçagem, a espiritualidade, a política ou a paisagem diversa da Bahia, desde o litoral ao Recôncavo, do Sertão ao Agreste. “Ele dizia que para uma personagem ser um ser vivo tinha de comer. Comer ou passar fome, a relação com a comida ajuda a formar o carácter, também da personagem”, diz Maria João Amado, neta, filha de João Jorge, o primogénito de Jorge Amado com Zélia Gattai, que, com o irmão Jonga, está à frente da Casa Vermelha, hoje transformada em museu, que durante anos funcionou como um núcleo da cultura baiana, agregando escritores, poetas, músicos, pintores. Dorival Caymmi, Vinicius de Moraes, Carybé.

Do número 33 da Rua Alagoinhas dá para notar a exuberância da natureza da Bahia, mesmo na cidade, a geografia que a alimentou culturalmente, literariamente. O silvo do vento nas copas das árvores, o coaxar das rãs, os cágados silenciosos, e a zoada dos insectos que não deixa ouvir o som do mar, não muito longe e corta o ruído do trânsito nas vias rápidas que atravessam a cidade. A Casa do Rio Vermelho, como é conhecida em toda a cidade, fica no topo de uma colina e é um testemunho de como Amado nunca escapou à Bahia apesar de ter andado pelo Brasil e pelo mundo, e a partir dela chegou ao mais universal ou, pelo menos, a uma ideia de Brasil. Num texto chamado O artista da mestiçagem, Lilia Moritz Schwarcz, escreveu: “Jorge Amado nunca pretendeu ser intérprete do Brasil, mas sempre o foi. Suas personagens são pessoas retiradas das ruas de Salvador; a Bahia que descreveu foi aquela dos costumes misturados, dos credos cruzados e das gentes de muitas cores e mistérios. Sua ficção é sempre repleta de atores tão reais como imaginados e seu mundo de romance é povoado de um universo a um só tempo pessoal e partilhado socialmente. Por isso, em se tratando da obra de Jorge Amado, é sempre difícil dizer onde começa a ficção e quando termina a realidade. Seus amigos se destacam como personagens principais nas histórias; seu convívio familiar vira matéria de romance; sua visão da história parece metáfora; sua experiência social escorrega para o enredo e ganha vida na trama de cada obra”.

Tenda dos Milagres reflecte essa atenção ao social numa altura em que o apartheid ganhava força e visibilidade na África do Sul, com a prisão de Nelson Mandela, o movimento antissegregacionista não conseguira terminar com as desigualdades raciais nos Estados Unidos, o Brasil vivia de modo velado uma escravatura que se mantinha já não no papel, mas num modo de ser. Joselia Aguiar contextualiza o livro de Amado nesse movimento social global antes de sintetizar, de modo bastante esclarecedor, o enredo de Tenda dos Milagres em Jorge Amado, uma biografia. “... tudo começa quando chega à cidade James D. Levenson, um Prêmio Nobel em busca de obras escritas por um tal Pedro Archanjo (...) cujo centenário do nascimento é comemorado por aqueles dias. Enquanto a elite local pouco o valorizava, havia um estrangeiro para enaltecê-lo. Archanjo fora idealizador de um centro de candomblé, capoeira e folhetos e literatura popular. Viveu em conflito com Nilo Argolo, erudito de ideias eugenistas e representante da elite baiana no começo do século XX. O enredo transcorre em dois tempos. Primeiro, entre 1895 e 1943, quando morre Archanjo aos 75 anos. Vivera toda a virada para o século XX, quando as teorias racistas dominavam grande parte da intelectualidade brasileira. O centro dessas ideias era o Instituto Geográfico e Histórico e a Faculdade de Medicina baianos, repletos de ‘doutores verbosos, literatos, retóricos, dissimulando uma pseudociência reacionária’. Depois chega-se a 1968, quando a Bahia prepara os festejos para seu centenário de nascimento.”

 

Reportagem Isabel Lucas 3 Karina Freitas maio2020.2

 

FERIDAS

A história de Pedro Archanjo contém, em parte, a história da Bahia e, necessariamente, a história do Brasil desde a chegada de portugueses e dos seus escravizados africanos, e o encontro — e confronto — com os indígenas como de todos quantos vieram juntar-se a uma colonização cheia de feridas, muitas ainda por sarar, mas que originou uma mescla única. Esse tem sido tema literário, não apenas em Jorge Amado, mas no baiano de Itaparica, João Ubaldo Ribeiro, por exemplo, no seu romance maior, Viva o povo brasileiro (1984), em que ficcionaliza e complexifica a história do Brasil a partir da Bahia, como — outro exemplo — em Um defeito de cor (2006) da mineira Ana Maria Gonçalves, uma história da escravatura — também na Bahia e no Maranhão — com o foco na vida de Kehinde, uma africana capturada por portugueses no reino de Daomé [no actual Benim], levada para o Brasil e aí escravizada.

“Eu me senti feliz ao avistar a Ilha dos Frades. Uma felicidade que talvez pudesse ter sido chamada de alívio, como aconteceria várias outras vezes em minha vida. Por causa da beleza da ilha, fiquei impressionada com as cores, com o ar, com as novas sensações, com a esperança de tudo nem ser tão ruim assim. Ao subir as escadas do porão e ver primeiro o céu azul, depois a luz do sol quase me cegando, fazendo com que os outros sentidos ficassem mais atentos. Tive vontade de nascer de novo naquele lugar e ter comigo os amigos de Uidá. Havia um murmúrio do mar, um cantaréu de passarinhos, homens gritando numa língua estranha e melodiosa. Nascer de novo e deixar na vida passada o riozinho de sangue de Kokumo e da minha mãe, os meus olhos cegos de Taiwo, o sono da minha avó. O mar era azul e nos levava além das árvores e da pequena faixa de areia branca. Algumas pessoas festejavam, deslumbradas, esquecendo-se de que iam virar carneiros, mesmo que fossem carneiros do paraíso.”

A voz é de Kehinde, protagonista e narradora de Um defeito de cor. Tinha oito anos quando entrou no barco negreiro, com a avó que morreu na viagem. Ele viveu uma existência violenta na Bahia, uma fuga para o Maranhão, comprou sua liberdade, voltou a África, tornou-se empresária e regressou ao Brasil. São 80 anos em mais de 900 páginas que passaram, na génese, na concepção, na essência, pela Baía de Todos-os-Santos, a paisagem que está ali e ninguém pode dizer que não foi tão construída pelas personagens da ficção quanto pelas vidas que a habitam e a habitaram. Como Kehinde ou o Cego Faustino, Carlos, Vagner — as duas silhuetas das águas da Baía de Todos-os-Santos — João Ubaldo ou Jorge Amado. É o centro da cidade de Salvador, a mais negra entre as cidades fora do continente africano, capital do estado da Bahia, Nordeste do Brasil, quarta cidade mais populosa do país, atrás de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Tem 2,9 milhões de habitantes, dos quais 2,4 milhões são negros. Ou seja, mais de 80 por cento da população. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística referiam que em 2017 oito em cada dez habitantes de Salvador diziam-se negros ou pardos. Quantos inspiraram personagens literárias? Contam uma história com cinco séculos. Carregam-na no corpo, na fala. “Quem é aquele que lá vem lá longe, todo serelepe, lépido e fagueiro? Ora se não é Nego Leléu muito bem fatiotado, chapeirão de couro mole, burjaca toda catita, pantalonas mais que galhardas, gravata tipo plastrão, alcobaça repolhada, camisa de batista fino, ceroulas do melhor algodãozinho, um par de chapins lustrosos pendurados nos dedos, embotadeiras com ligas de cadarço jogadas no ombro — e as piores intenções!”

Vem no livro de João Ubaldo. Num prefácio a uma edição recente, o escritor carioca Rodrigo Lacerda descreve-o como “um inventário das matrizes literárias praticadas no Brasil”, e acrescenta: “Viva o povo reúne todas as formas brasileiras de expressão”.

Nesse sentido, todos os livros brasileiros são herdeiros da Bahia porque há ali uma génese mestiça que é transversal. Está tanto em Lelé, como em Cláudio, quanto em Pedro Archanjo como na ficção ou Itamar Vieira Junior, escritor de 41 anos, autor do romance Torto arado (2018), que se diz herdeiro de toda a mestiçagem de que é feita a Bahia, mas também da literatura de João Ubaldo e, sobretudo, das de Jorge Amado e de Ana Maria Gonçalves. Todos elementos formadores de identidade. “Ser baiano é difícil de definir, mas é quase um estado de espírito; uma disposição para a vida, para iluminar o que está à volta; também para superar as adversidades. Isso me faz sentir baiano, essa história, essa trajectória tão peculiar, esse caldeirão de culturas que se misturou aqui. Tenho trisavós camponeses do norte de Portugal, da região do Minho. Vieram para a Bahia e a filha casou com um negro. Por outro lado, a família de meu pai tem ascendência indígena, do Recôncavo baiano. Eu sou essa mistura. Essa miscigenação — nada romântica, porque esse processo não foi romântico, a colonização não foi romântica — é a minha família; camponeses pobres que chegaram de Portugal não para explorar as pessoas, os ascendentes negros e os indígenas formaram uma família tão multicultural e tão brasileira, tão baiana. Isso para mim é a Bahia. É ser baiano.”

João Ubaldo pôs essa ancestralidade na boca de uma das suas personagens, mais implacável na leitura desse passado. “Você veja que os únicos lugares em que há algum progresso no Brasil são exatamente onde entrou o sangue estrangeiro, o alemão, o italiano, o japonês. Aqui na Bahia, o que é que nós temos? Os negros e o rebotalho da Europa, portugueses e espanhóis, e é isso que se vê. O Nordeste inteiro é assim. Pode se querer tapar o sol com uma peneira? A verdade é dura, mas tem de ser dita. Se tivéssemos sido colonizados pelos holandeses...”

Os holandeses permaneceram apenas um ano na Bahia. Foram atraídos pela riqueza vinda do açúcar, mas seriam expulsos pelos portugueses nada dispostos a perder o seu privilégio nesse novo ouro e nunca chegaram a ficar instalados em Salvador, a cidade fundada em 1549, construída para ser a capital com o nome de São Salvador da Bahia de Todos-os-Santos e substituída nessas funções em 1763 pelo Rio de Janeiro. Seria ainda chamada de cidade da Bahia, São Salvador, Cidade de São Salvador e, por fim, Salvador. “Cidade mestiça”, como a descreveu Pedro Archanjo, desprezada muito por isso por Bonifácio Odulfo, poeta que exotizou o povo no romance de João Ubaldo Ribeiro: “Cidade imunda e desconfortável, conversas destituídas de interesse e uma mestiçagem generalizada, que não podia deixar de chocar uma pessoa bem-acostumada.” A cidade vislumbrada por Kehinde a partir do porto em Um defeito de cor. “Do barco já era possível vê-la quase inteira, fazendo uma suave curva para abraçar o mar, como um colar de contas em volta do pescoço. Contas que brilhavam ao sol, contas verdes da vegetação que descia pelas encostas, contas brancas das grandes casas construídas em cima do morro, contas coloridas das construções que se espalhavam ao pé das encostas e que se misturavam com o verde e o azul do colo do mar. [...] Quando o barco ancorou, muitas pessoas se aproximaram falando a língua do Brasil, que, para mim, continuava parecendo mais música do que qualquer outra língua que eu já tinha ouvido.”

OS ROSÁRIOS

A cidade cresceu, mas é possível vislumbrar essas contas. Nos telhados ainda vermelhos de algumas casas, nas cores das paredes, no verde do mato, mas há uma aguarela desbotada a cair dos morros de que fala Kehinde, e torres a dar outros contornos ao horizonte, quando se está de cestas para o mar, e artérias a contorcerem-se como veias a bombear carros, um formigueiro permanente. E gente que parece ter pouca pressa quando comparada com as ruas de São Paulo, do Rio, de todas as grandes cidades do mundo. “Quando chego a Salvador tenho uma sensação de muita vitalidade. Não sei se tem a ver com a luz da cidade, luz mais forte, uma luz ampla, um céu diferente (do de São Paulo, onde vive). Provavelmente tem a ver com uma certa vibração da cidade, a uma vibração das pessoas.” Mais alegria? “Sim e não. No estereótipo a gente sempre imagina que a Bahia é mais alegre, ou que a Bahia está em festa, quando na verdade há muita tristeza, há muito sofrimento, há muita dor, há muita pobreza. Mas eu diria que é a palavra vitalidade, que acho que tem a ver com a obra de Jorge Amado. Não é alegria, é vitalidade. Em Salvador tem muito a coisa da rua, das pessoas se falarem, de rirem, de dançarem, de debocharem uns dos outros. É uma vitalidade que acho que tem a ver com as culturas africanas que chegaram; é uma vitalidade corpórea da dança, da musicalidade”, refere Joselia Aguiar, baiana de Salvador há 20 anos a viver em São Paulo onde dirige a Biblioteca Mário de Andrade, a segunda maior do país.

No discurso de Joselia sobre a o sentimento de baianidade partilhado por Jorge Amado, ou por Itamar, lê-se a contradição, ou uma das muitas contradições, de que é a feita a Bahia. Cor e sombra, alegria e tristeza, abundância e miséria. Voltando aos números, importa referir que a Bahia também é o estado em que a miséria teve o crescimento mais rápido nos últimos anos. O jornal Valor econômico divulgava que a proporção de famílias a viver abaixo do nível de pobreza dobrou em quatro anos, de 4,8% em 2014 para 9,8% em 2017. “Com isso, o estado, que tem a maior população do Nordeste e a quarta maior do país, pulou da 12ª para a terceira posição no ranking”, publicava.

Esses dados ecoam quando se olham as pessoas nas ruas. Fumam, bebem cerveja em esplanadas, caminham enquanto conversam, param nas vendas de fruta, de água, apanham sol nos areais da maior orla costeira do Brasil que tem como centro a maior baía tropical do Oceano Atlântico: a Baía de Todos-os-Santos. Só aí o mar é manso. No resto, os 1,1 mil quilómetros entre Mangue Seco, a norte, na fronteira com o estado de Sergipe, com Mucuri, a sul, no limite com o Espírito Santo, o mar é quase sempre batido, ondas baixas de espuma branca a rebentar perto de palmeiras. Paraíso, disse Kehinde. Será?

Na diversidade e nas suas possibilidades. “É uma utopia, né? Acho que é a miscigenação como uma utopia, mesmo. Como a escreveu Jorge Amado. Não aquilo que de facto aconteceu. A gente sabe que essa história foi muito forte aqui no Brasil; uma colonização baseada em violência logo no começo. Mas há uma miscigenação com utopia, de que nós somos os mesmos, estamos juntos, não faz diferença. Embora a Bahia padeça de muitos problemas.” Itamar Vieira Júnior mora junto a esse Atlântico, paredes meias com a Praça Dorival Caymmi, em Itapuã, 25 quilómetros a norte de Salvador, depois de ter crescido e vivido na cidade. Fala de uma realidade que conhece e do modo como a vive. “O racismo é muito forte ainda aqui. O Brasil é muito anacrónico. Quando falamos de estrutura social, vemos que o país parou no tempo. A nossa elite é extremamente colonizadora e racista, e a Bahia não foge a isso. Vivo num estado onde é difícil ir a um restaurante e não encontrar pessoas negras servindo e há poucos negros à volta consumindo. Tudo isso é muito marcante. Têm profissões que demandam pouca escolaridade; o racismo estrutural está muito marcado nisso.” Há mais países racistas, não serão quase todos? Fazem-se comparações Portugal, os Estados Unidos. “O nosso racismo é velado e se uma coisa é velada não é um inimigo muito claro. O nosso racismo é perverso porque está apenas baseado no colorismo. Você pode ter antepassados negros e ter passabilidade. Eu consigo ter passabilidade em vários locais por conta da minha tez, da minha cor mais clara. Mas isso é perverso, você se sente parte de um todo, mas sabe que as pessoas que têm mais cor, mais melanina, vão sofrer mais para conseguir transpor barreiras. Isso é muito cruel.”

O seu romance de estreia, Torto arado, passa-se numa das zonas mais pobres do estado, o Recôncavo baiano, e tem como protagonistas Bibiana e Belonísia, filhas de trabalhadores agrícolas numa comunidade em tudo herdeira da tradição esclavagista, num tempo posterior ao da Abolição da Escravatura, um tempo que se eterniza em muitas regiões do interior do Nordeste. “Em Um defeito de cor a história acaba com a Abolição da Escravatura. Mas o problema é que a escravatura no Brasil não acabou aí. A escravidão permanece, só que ganhou outros nomes”, diz Itamar Vieira Junior, afirmando que Torto arado é tributário da obra de Ana Maria Gonçalves, uma “continuidade meio que involuntária daquela história”, precisa, “a exploração do trabalho do homem negro, da mulher negra, permaneceu e o livro vai tratar essa realidade pós-Abolição. Se Ana Maria fala da escravatura no período bruto que foi vigente no Brasil, Torto arado vai falar do pós-Abolição e a gente percebe que a Abolição não aconteceu de facto. Não foi acompanhada de uma reforma agrária, aquelas pessoas foram abandonadas à própria sorte e para sobreviver tiveram de aceitar trabalhos que não era remunerados ou que não garantiam uma vida digna”.

Itamar nasceu dez anos depois da publicação de Tenda dos Milagres, mas sente-se herdeiro da mesma mensagem utópica, como, muito antes, da poesia do poeta abolicionista Castro Alves, também baiano, de Salvador, que morreu aos 24 anos, em 1871, vítima de tuberculose. “Oh! Bendito o que semeia/ Livros à mão cheia/ E manda o povo pensar!/ O livro, caindo n’alma/ É germe — que faz a palma,/ É chuva — que faz o mar!” Podia ser Cláudio, o taxista, a falar, século e meio depois, da necessidade de educação.

Andar por Salvador e pelo litoral em redor é como fazer uma viagem de reconhecimento histórico e cultural, mas com a emoção só possível quando à memória da música, a escrita, das imagens do cinema e da televisão se juntam os sons, os cheiros e todos os sentidos se unem para criar uma sensação única, é pertencer, é estar num mundo tridimensional. O Paulista será o próximo cicerone. É conhecido assim entre os comunheiros de praça de táxi. Costuma parar no Rio Vermelho. É de São Paulo — do estado — e aos 25 anos foi trabalhar para a Bahia, apaixonou-se casou, e aos 55 vive em Amaralina, a famosa praia, também de uma canção de Caeteno Veloso “No Raso da Catarina/ Nas águas de Amaralina/ Na calma da calmaria/ Longe do mar da Bahia,/ Limite da minha vida,/ Vou voltando pra você”. O Paulista tem um jeito de malandro, uma história a contra a propósito de todos os lugares e, se estamos na Bahia, não tem mal juntar a liberdade criativa de quem conta a história. Ocorre a frase de João Ubaldo, e aqui é útil fazer dela mandamento: “O segredo da Verdade é o seguinte: não existem fatos, só existem histórias”. E é essa a origem do nome Amaralina na história do Paulista: “Há muitos anos, o filho de um coronel arrumou uma namorada chamada Lina , quando perguntava por ele respondiam que foi a amar a Lina.”

Amaralina fica ao lado do Rio Vermelho, no caminho para Norte. Outra vez o Paulista: “É Rio Vermelho porque houve uma época em que tinha um matadouro e de madrugada eles soltavam o sangue dos animais que matavam de madrugada e o rio ficava vermelho e o pessoal não ia na praia”. Feita uma pesquisa breve, confirma-se que em 1861 foi inaugurado um matadouro público em Rio Vermelho, e o Paulista vai ganhando créditos como cicerone tão criativo quanto fiável, enquanto Itapuã fica cada vez mais perto. Passa-se a banda com acarajé da Cinha, um dos mais famosos de Salvador. Às cinco da tarde, lá estão as baianas de turbante e vestes brancas a vender os bolinhos de feijão fradinho e cebola fritos em óleo de dendê, uma especialidade afro-brasileira que pode ser enriquecida com camarão. Não vale não experimentar. Depois vem a praia de Pituba, o jardim dos namorados. Há um barco a chegar ao areal, redes a serem puxadas por tratores e muitos homens. “Esses pescadores têm uma visão de águia. Ficam todos aqui, começam a olhar, notam os peixes, pegam os barcos seguem até lá e fecham a rede”, conta o Paulista. Mais à frente há uma colónia de pescadores onde se vende peixe todos os dias, o ano todo.

A estrada segue junto ao mar, uma marginal que intercala bairros ricos, de classe média, edifícios abandonados, restaurantes decadentes, hotéis velhos sem portas nem janelas, paredes grafitadas e outra vez torres de edifícios cuidados, mansões escondidas, boates, restaurantes da moda. E o mar com as ondas de maré baixa, rapazes a vender coco, a alugar cadeiras de praia. Assim, até Itapuã.

Já não está escondida como quando Jorge Amado alugou ali uma casa, mais precisamente num lugar chamado Pedra do Sal, para se refugiar do corrupio do Rio Vermelho e escrever sossegado, de quando Vinicius de Moraes ali casou com a actriz Gessy Gesse numa cerimónia cigana em 1970. A casa onde viveram está transformada em hotel e há uma estátua do poeta numa pequena taça asfaltada em frente. Um lugar turístico numa manhã de chuvisco, a trair a memória da música. As palavras da canção saem melancólicas: “Um velho calção de banho/ O dia pra vadiar/ O mar que não tem tamanho / E um arco-íris no ar/ Depois, na Praça Caymmi/ Sentir preguiça no corpo/ E numa esteira de vime/ Beber uma água de coco/ É bom!”. Há letras de canções junto à estátua de um homem sentado que tenta replicar a pose de Vinicius. Não se percebe se é verde se cinzenta. É escura. O Paulista olha para outra casa, para outro lugar que não o da estátua. “Essa é linda demais!” É uma casa grande, virada para o mar. “Isso aqui não tem muita segurança, se olhar à sua volta não vê um polícia.” Enumera os famosos que têm casa ali. Mas passa para uma conversa sobre tempero. “E se eu lhe disser que antes de morar aqui eu não podia ouvir falar em farinha nem em pimenta!” É o seu atestado de baianidade. “Farofa com moqueca de camarão não há melhor no mundo do que aqui.” Manuel Bandeira sabia o que que dizia. Nunca se sai da casa de jantar em qualquer lugar da Bahia.

Amado, Caymmi, os rebeldes da Bahia, os líricos da Bahia escolheram Itapuã e convidaram amigos. João Gilberto, Toquinho, e tornaram-na lugar literário, de sonho. Depois veio a cobiça, um dos males dos homens, como escreveu também Amado, referindo-se, no caso, aos homens do Brasil. É um território onírico. Um rapaz abre cocos com uma catana no areal quase vazio. O voo das gaivotas é baixo, debicam algas. Lá está o farol, um cão passeia na praça, passa um menino a fazer malabarismo numa bicicleta. O Paulista faz um desvio no regresso. Mete por uma ladeira de casas baixas até chegar a umas dunas, “lugar de filme de bang-bang”. O vento é mais forte, compete com o canto de um pássaro. “Essa água é traiçoeira”, diz o Paulista. Não se acredita diante de uma lagoa de água escura rodeada de areia branca. É a da canção de Dorival Caymmi. O verde escuro da mata, ao fundo, realça a claridade das dunas, e o filtro das nuvens baixas ajuda a definir cada traço da paisagem. Há homens a pescar numa das bermas, um cavalo que entra na praia, solto. Alado? É a Lagoa do Abaeté. Contam-se histórias trágicas. “Se mergulhar, a areia pode comer você”, diz o Paulista, assustado ou para assustar. “Há gente que desapareceu para sempre”, assegura, num assombro que o nome mitifica. Abaeté é uma palavra que vem do tupi e significa horror. O cavalo corre nas dunas, não ganhou asas, relincha atrás da mãe que o espera na outra ponta da baía.

“Pense num absurdo: na Bahia tem precedente”, terá dito Otávio Mangabeira (1886-1960), antigo governador da Bahia e membro da Academia Brasileira de Letras. A frase ficou célebre por se ajustar ao que vai acontecendo, aos que se vai narrando sobre a Bahia. Em O povo brasileiro, Darcy Ribeiro, o escritor e antropólogo mineiro, escreveu: “Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos”.

O regresso faz-se do Abaeté, faz-se pela marginal, dá-se a volta à cidade, contorna-se a Colina Sagrada com as promessas na Igreja do Bonfim, milhares de fitas coloridas ao vento, e outra vez a Baía de Todos-os-Santos, ao “silêncio religioso” que Amado ouvia nela e às palavras de João Ubaldo Ribeiro em Viva o povo brasileiro sobre coisas que se passavam ali. “As baleias, das grandes e das pequenas, de qualquer das muitas famílias e raças que todo ano aqui passeiam e são caçadas, não casam como os outros peixes. Os outros peixes, pelo pouco que se vê de seu amor, numa boca de rio parada, numa loca, num viveiro, numa poça dos recifes, se espadanam pela água, muitos dançam, uns poucos arrastam as fêmeas para os cantos, mas não se tocam, não se conhecem, têm filhos como grãos de areia, que às vezes comem com indiferença. Mas não o peixe baleia, que quando se enamora primeiro canta e assovia, subindo e descendo as ondas como se quisesse encapelar o mar sozinho.”

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