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Esta é a segunda reportagem da série Viagem ao país do futuro, na qual a jornalista portuguesa Isabel Lucas pensa o Brasil a partir da literatura e da realidade que a ficção representa. O trabalho é publicado em parceria com o jornal português Público. Exceto em situações que criem ambiguidade em relação ao português brasileiro, a grafia mantém o original da autora, escrito de acordo com o português de Portugal. As citações de textos antigos mantêm a grafia da época. 

A primeira reportagem, que pensa o país a partir de Euclides da Cunha e Os sertões, você lê clicando aqui

 

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Miró da Muribeca é o nome de um poeta alegrista. Quem o conhece sabe que isso quer dizer. Faz poesia na rua, próxima da crónica social. Satírica, mordaz, às vezes triste, com raiva. Miró vive no Recife e é um poeta, “um preto filho de analfabetos”, como diz, que não cumpriu o sonho da bola, mas descobriu a arte com Carlos Drummond de Andrade. Solitário, sem casa, é um deslocado como os protagonistas de Vidas secas, romance do alagoense Graciliano Ramos que nos leva para um território de secura e mudez. Dos que fogem pelos sertões. Para sobreviver ou à procura das palavras da cidade.

 

“Minha mãe era alinhada, gostava de vestidos coloridos, era boa dançarina. Meu pai era o maior dançarino de todos. Viu ela, ela viu ele. Eu fui uma transa de Carnaval. Meu pai transou com minha mãe e eu nasci, por isso sou assim um pouco alegre.” Ao dizer isto João Flávio quer reforçar a sua identidade marcada pelo acaso, ou, como diz, “pelo sem querer”. Tem 58 anos, nasceu no Recife, uma das maiores cidades do Nordeste do Brasil, é poeta de rua, dos mais celebrados do país, dos que mais vendem; improvisador, fazedor de uma linguagem que se tem ajustado ao desajuste da sua vida. Nunca conheceu o pai, é filho único, foi um menino negro da periferia que sonhou ser jogador de futebol capaz de passes como os de Mirobaldo, o sertanejo de Aracaju que jogou em Portugal na década de 1970. Falhou no teste da bola, ainda quis ser jornalista, mas não passou no vestibular. Decidiu ser poeta. Nunca mais se soube de João Flávio Cordeiro da Silva. Ficou Miró — em homenagem a Mirobaldo — e Muribeca, o nome de um aglomerado de edifícios para pobres onde cresceu, hoje cidade-fantasma junto a uma lixeira nos arredores do Recife.

“Quando eu era menino, negro pobre e branco classe média morava tudo perto e todo o mundo jogava futebol na rua. Um dia, um cara se machucou, e eles, os brancos, perguntaram: ‘Quer entrar aqui, neguinho?’ Entrei”, diz, dicção perfeita, pausado, como a declamar a própria vida que saiu dos eixos do anonimato e do trabalho braçal, caminho dos pobres, negros, filhos de analfabetos, como ele. Miró é conhecido em toda a cidade do Recife. Caminhar com ele cinco minutos pelas ruas do centro é uma demora. Acenos, pessoas que gritam “Ei, Miró” do outro lado da rua, que sorriem ao vê-lo. Ele é uma celebridade sem casa e na terceira cura de desintoxicação de álcool. Nesse dia teve licença para sair da clínica onde está há três meses. Um lugar para dependentes com dinheiro. Fica no Sítio dos Pintos, bairro de gente de baixo rendimento, pontuado por moradias de luxo, com água potável, mas sem rede de esgotos, onde 14% da população é analfabeta.

Miró transfigura-se quando o portão se fecha. “Estou tão feliz! Preciso de rua, sou da rua.” Conta que não bebe cachaça há 70 dias. “Antes, às sete e meia da manhã pedia uma cerveja e um copo de cachaça.” Não conta nenhum segredo. Todos sabem quem é Miró. Começou a beber em excesso há seis anos quando a mãe morreu. Esteve 45 dias só a beber, “sem comer nem uma azeitona”, e quando o encontraram acharam que ia morrer. A informação é despachada em cinco minutos enquanto tira um bloco e uma caneta do saco que leva ao ombro, por cima da túnica africana. Segura-o como se lá dentro estivesse tudo o que tem na vida. “Drummond me ensinou que não há poeta sem caneta.”

A caneta vai na mão. Parece ajudá-lo a pôr ordem no discurso que tende a dispersar-se. Diz que é da medicação. “Quando eu era menino, na década de 1970, trabalhava em casa de um pessoal de classe média alta. Lavava o carro deles, comprava o jornal para eles, os cigarros. Era uma casa em que só tinha artistas e eu não sabia o que era um artista. Eu era o escravo amoroso deles. Quando digo que era um escravo amoroso, é porque eles gostavam de mim. Nunca fui tratado como alguém que está ali para fazer coisas e depois vai embora. Eu ia andar de bicicleta com eles, me davam roupas, comia com eles. Eu era um filho preto da família. Dei alguma sorte aí. Todo o mundo lá era artista e eu fui crescendo no meio deles. Um dia, o poeta Maurício Silva, que é o meu irmão preto que eu não tive, moreninho como eu, disse para mim: ‘Miró, tu sabe o que é uma poesia?’ Poesia!? ‘Tu já leu um livro?’ Não, eu gosto é de Roberto Carlos. Ele: ‘Ai, meu deus. Vou-te dizer o que é uma poesia.’ E recitou: ‘Farda verde verde verde verde / Praça verde verde verde verde / e o coração bate continência a toda mulher que passa. Entendeste Miró?’ Sim. É um cara paquerando ela, não é? ‘É isso.’ Aí a poesia virou doidice. Eu queria imitar, pus-me a imitar. A minha mãe ouvia, vinha ao meu quarto perguntar: ‘Fumou maconha com a classe média?’ Que nada, eu sabia o que era, mas não tinha fumado, não. Passou o tempo e fiz o meu primeiro poema.”

Foi nessa casa “da classe média” que leu Carlos Drummond de Andrade, autor que põe nos píncaros da poesia e passa o tempo a citar. No entanto, foi o poema que ouviu de Maurício que ficou a ecoar. “Gostava do som”, explica. Seria preciso acontecer qualquer coisa na sua vida para conseguir fazer algo parecido.

Pede para parar no lugar onde isso aconteceu, a Ponte Duarte Coelho, que liga o velho edifício dos Correios e a sua torre com relógio ao cinema São Luiz, atravessando o Rio Capibaribe a que João Cabral de Melo Neto dedicou o longo poema O rio em 1986, de que fica o excerto: “Sou viajante calado, / para ouvir histórias bom,/ a quem podeis falar/ sem que eu tente me interpor,/ junto de quem podeis/ pensar alto, falar só/. Sempre em qualquer viagem/ o rio é o companheiro melhor.// Isso favorece a interferência de outros narradores./ Parece que ouço agora que vou deixando o Agreste:/ Rio Capibaribe, que mau caminho escolheste. /Vens de terra de sola,/ curtidas de tanta sede,/ vais para terra pior,/ que apodrece sob o verde./ Se aqui tudo secou até seu osso de pedra,/ se a terra é dura, o homem/ tem pedra para defender-se./ Na Mata, a febre, a fome/ até os ossos amolecem./ Penso: o rumo do mar/ sempre é o melhor para quem desce.”

A estátua de Melo Neto está na margem direita do rio, no passeio dos poetas, entre outras estátuas de poetas do Recife. Miró da Muribeca passeia entre elas antes de se debruçar num dos muros da ponte, e já se percebeu que há nele um performer.

“Eu vinha aqui andando, com uma bolsa nas costas e passou um policial arrastando uma criança negra pela orelha. Me deu raiva. Olhei para os Correios e estava dando quatro horas. Sentei ali na beira do rio e escrevi esse poema, o primeiro poema da minha vida. ‘Quatro horas / Quatro ônibus levando vinte e quatro pessoas / Tristonhas e solitárias / Quatro horas e um minuto / Acendi um cigarro e a cidade pegou fogo. / Cinco horas/ Cinco soldados espancando cinco pivetes / Filhos sem pai / E órfãos de pão / Cinco horas e um minuto / Urinei na ponte e inundei a cidade / Seis horas / O Recife reza / E eu voando pra ver Maria.’”

Saiu em 1985, no primeiro dos dez livros que publicou até agora, Quem descobriu o azul anil. “Gosto de títulos que tiram onda com o leitor. Na verdade, foi uma brincadeira com quem descobriu o Brasil, que é o mesmo que dizer quem foi que olhou para o céu primeiro.”

É uma poesia oral, com sátira, crítica social, que canta o amor e não poupa o poder. Escarnece dos poderosos. “Eu me considero mais um cronista do que um poeta”, salienta. “Escrevo muito o que acontece na rua. Escrevo para o cara que varre a rua; ele entende o que eu digo, o engenheiro entende o que eu digo, o psicólogo entende o que eu digo; não precisa ir ao dicionário, a minha poesia é totalmente fácil. São poucos os poemas que têm erudição, e dos que têm ela veio de Drummond. Foi o poeta que mais me pirou.”

Foi publicando sempre, com a ajuda de mecenas, empresas, vendendo os próprios livros. “Sou a minha própria livraria”, afirma. Leva-os em sacos pelas ruas, para as oficinas de poesia que dá em teatros, festas de empresas, clubes de leitura. Recentemente publicou um volume que reúne os seus dez livros, Miró até agora (Cepe Editora). Vai na terceira edição, três mil exemplares vendidos. “Quem diria que um preto, filho de analfabetos... E nunca impus um livro a ninguém, compra quem quer. A força das minhas vendas é a minha oralidade, como eu recito os poemas”, diz, entre expressões de alegria e uma sombra nos olhos, o homem que já sonhou ser como Djavan, que ainda canta como ele e que usou rastas como ele. “Eu era igual a ele. Um dia um policial me mandou parar na rua, perguntando se eu tinha baseado. Eu disse que não. Ele viu que não. Eu confrontei ele e ele deu em mim, uma surra de 20 minutos e mandou que tirasse a roupa na rua. A minha poesia mudou. Passei a ter alguma raiva. Mas sou um alegrista. Miró, o alegrista. Se perguntar, toda a gente sabe quem é.”


A PARÁBOLA DO DESAJUSTE

Miró da Muribeca vive 81 anos depois da publicação de Vidas secas, o livro mais canónico de Graciliano Ramos, mas podia ser personagem do escritor que nasceu em Quebrangulo, estado do Alagoas, também no Nordeste, em 1892. Como os protagonistas de Vidas secas, Miró não tem casa, vive à margem, é um eterno deslocado, um retirante na sua própria cidade. Miró também podia viver na utopia de Fabiano, a personagem de Vidas secas que, no fim do livro, sonha ou delira com um futuro de maior sabedoria para os filhos, um futuro de acesso à linguagem dos homens. Um futuro na cidade grande. “Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinhá Vitória e os dois meninos.”

Fabiano e Sinhá Vitória, os dois protagonistas de Vidas secas, caminham pelo sertão de Alagoas, com os dois filhos de quem nunca é dito o nome e com a cadela Baleia. Para eles toda a terra parece igual, sem identificarem fronteira com outros sertões no Nordeste imenso. O Norte, a cada jornada, será sempre aquele onde a chuva ou o inverno se anunciarem até que a seca volte e eles continuem numa permanente fuga da miséria.

Na cidade nordestina de Miró é quase inverno e será inverno durante o caminho inverso ao do percurso do livro e do rio Capibaribe. A direcção é o interior, seguindo o céu que, de negro, anuncia abundância; caminho contrário à história de todos os homens, mulheres, crianças e bichos obrigados a deixarem o seu lugar para sobreviver. “A história de Vidas secas é uma história de retirantes que pode acontecer em qualquer lugar do mundo; em qualquer lugar onde exista gente forçada a sair da sua terra. E é actual no Brasil. A realidade brasileira de 1938 para cá não mudou assim tanto. Continuam a existir Fabianos, Vitórias, retirantes”, diz Ricardo Ramos Filho, escritor com mestrado e doutoramento na obra de Graciliano Ramos, conhecedor da geografia onde o avô nasceu, viveu e foi prefeito. “Há dois anos, em Palmeira dos Índios, a seca foi tão forte que os lagos secaram e os sapos morreram. Como o sapo é predador do gafanhoto, houve uma praga e Palmeira dos Índios foi tomada por gafanhotos. A prefeitura local começou a oferecer às crianças um real por cada saco de gafanhotos que apanhassem, e as crianças encheram os seus sacos, levaram-nos à prefeitura e ganharam um real.”

Palmeira dos Índios fica entre o sertão e o agreste alagoano, paisagem menos árida do que a do Sertão profundo, entre juazeiros, a caatinga, ladeiras de terra vermelha, vedações de paus sem cor. É numa espécie de morro de ruas estreitas onde carros, carroças e motorizadas fazem gincana e razias a quem passa. Fica a 350 quilómetros do Recife, onde vive Miró, e a 2400 de São Paulo, onde mora Ricardo. Maceió, a capital do estado de Alagoas, é mais perto, 130 quilómetros e duas horas de carro. Mas cada uma das três cidades representa a mesma lonjura em relação à grande parábola universal dos que se deslocam lentamente, na mudez, no mesmo silêncio dos que caminham como Fabiano, Sinhá Vitória e os meninos.

Parar numa dessas ruas, numa praça, ficar num banco de café é escutar solilóquios apressados, diálogos em que duas ou três palavras servem para dizer o necessário a uma acção prática, ou então esperar; uma espera que pode parecer eterna, dormente, pela palavra seguinte de alguém a contar uma história. Tudo tem um tempo próprio, uma lógica que não encaixa na linguagem dos homens e das mulheres da cidade grande. É a secura de que falava Graciliano em 1938, e não se limita à escassez de água de um território, mas ao que isso impõe a quem nele vive. Mas o que nos diz Vidas secas sobre o Brasil actual?

“O que Graciliano Ramos retrata ficcionalmente é uma crítica às mazelas, principalmente do interior do país. Ele trata criticamente uma região que ainda padece de muitos dos problemas ali colocados. Essa autoridade de Graciliano acaba se mantendo”, refere Thiago Mio Salla, especialista na obra de Graciliano Ramos, autor do livro Graciliano Ramos e a cultura política, antes de avançar para a contemporaneidade literária do autor que se estreou na ficção com Caetés, em 1933, aos 42 anos, e se destacou com os romances S. Bernardo (1934), Angústia (1936), Vidas secas (1938), o livro de crónicas Viagem (1954) e Memórias do cárcere, publicado postumamente, sobre o período em que esteve preso sem acusação formada num processo considerado kafkiano. “Ele tem uma contenção formal, uma precisão na escolha lexical e ao mesmo tempo uma espécie de revolta, um posicionamento crítico em relação àquilo que retrata. Como se fosse uma contenção formal e uma revolta temática.”

O lugar de Vidas secas não está situado precisamente no mapa. É por ali. Por lugares onde animais e homens partilham o mesmo espaço. Vacas, cabras, cães, urubus — sempre os urubus —, cobras, preás, gatos, burros e éguas. Uns pastam, outros escondem-se, outros ainda passeiam-se ou deitam-se ao sol, competindo todos pela escassez de alimento no verão, sem saber bem qual é o predador de qual. É nesse terreno que Fabiano e Sinhá Vitória se movimentam ao longo do livro narrado na terceira pessoa, dividido em 14 partes pensadas para poderem ser lidas de modo autónomo, cada uma seguindo a perspectiva de uma das personagens. “... ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se uma cabra.” É Fabiano. Que diz a si mesmo: “Você é um bicho, Fabiano.” Aquele que na fuga encontra uma casa e que entra nela, porque já chove, mas sabendo que enquanto ali estiver será um servidor do senhor dessa casa que está longe. “A sina dele era correr mundo, andar para cima e para baixo, à toa, como judeu errante. Um vagabundo empurrado pela seca. [...] Às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos — exclamações, onomatopeias. Na verdade, falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas.” Do confronto da obra com um dos locais que a terá inspirado sobressai uma espécie de mudez, o silêncio que está na constituição daquelas personagens. É a tal mudez de desajuste, como se não houvesse linguagem verbal que sirva. E é preciso estar atento aos gestos, às expressões, à interacção de cada elemento com a paisagem, os animais, o céu e os sinais que ele vai dando de sol ou de chuva, de serenidade ou prenúncio de tempestade. Céu e chão forçados a um diálogo permanente e dramático, do qual o último está sempre dependente do primeiro de forma derradeira.

“Ele está retratando um conjunto de personagens aos quais a fala, ou a comunicação, é de alguma forma vetada; ela é muito restrita, muito limitada. A impossibilidade de comunicar, a dificuldade em falar, ou o lugar de fala completamente tolhido, não só pelas condições mesológicas dali, se pensarmos na seca, mas por uma conjuntura económica, política e social que acaba levando essas pessoas a não terem voz, ou a ter a voz interditada. Em parte, essa contenção formal é um esforço de verosimilhança”, sublinha Thiago Mio Salla, referindo-se também ao modo como forma e conteúdo trabalham no mesmo sentido. “Graciliano vai retratar um sertanejo que tem parcos recursos comunicativos, representando-o de modo verossímil...”, continua, numa comparação entre o escritor de Alagoas e outros autores. “Uma das críticas que Graciliano fez à literatura romântica brasileira era de aparecerem sempre uns sertanejos bem-falantes, que começavam a filosofar. Nessa perspectiva, ele é completamente outro; quer produzir um retrato realista dessa parcela da população que praticamente não fala, ou fala muito pouco, porque tem poucos recursos para se expressar.”

Vidas secas foi o único livro que o meu pai não me deixou rever com ele”, afirma Luiza Ramos Amado na sala da sua casa em São Paulo. Dos oito filhos de Graciliano é a única viva. Aos 89 anos, está rodeada de objectos que lembram a vida e a obra do pai. Há nela e nele traços físicos comuns: o nariz fino, o rosto comprido. “Ele achava que o livro não era para a minha idade, que era muito pesado.”

Luiza tinha 22 anos quando o pai morreu, em 1953, e reviu com ele muitos dos seus livros. “Ele lia as provas mandadas pela editora e eu cotejava com o original, enquanto ele ia sempre fazendo alterações, com uma pena na mão. Ele modificava muito”, conta, comentando a exigência, confirmando o lado austero, mas rindo com o sentido de ironia ou humor que está em alguns dos relatórios que escreveu enquanto prefeito de Palmeira dos Índios, para onde foi viver depois de uma tragédia familiar para ajudar o pai, um comerciante, e acabou por se casar pela primeira vez.

Eram relatórios enviados ao governador de Alagoas. Num, de 1930, ano do segundo mandato, escreve: “Possuímos uma teia de aranha de veredas muito pitorescas, que se torcem em curvas caprichosas, sobem montes e descem valles de maneira incrível. O caminho que vai de Quebrangulo, por exemplo, original produto de engenharia tupi, tem lugares que só podem ser transitados por automóvel Ford e por lagartixa. Sempre me pareceu lamentável desperdício consertar semelhante porcaria.”

Muito do que Graciliano Ramos viu e ouviu nestas paragens terá servido para compor o cenário de Vidas secas. Mas não há um lastro de sarcasmo no texto literário. Nisso os relatórios são um deleite: “Encontrei em decadência regiões outr’ora prósperas; terras aráveis entregues a animaes, que nellas viviam quase em estado selvagem. A população, minguada, ou emigrava para o Sul do paiz ou se fixava nos municípios vizinhos, nos povoados que nasciam perto das fronteiras e eram para nós umas sanguesugas. Vegetavam em lastimável abandono alguns agregados humanos. (...) E o palmeirense afirmava, convicto, que isto era a princeza do sertão. Uma princeza, vá lá, mas princeza muito nua, muito madraça, muito suja e escavacada.”

O que fica é aquilo a que Lourival Holanda chama “sensibilidade social”. O professor de literatura comparada da Universidade Federal de Pernambuco perde-se numa conversa sobre os sertões, ou o Sertão enquanto lugar concreto e mitificado ou simbólico que a literatura ajudou a construir e o cinema foi fixando no imaginário. O Sertão não é apenas estranho a estrangeiros porque em relação ao Sertão, o litoral leste, o centro e o sul do imenso país que é o Brasil só o conhece de longe, do que ouve falar, do que lê, do que viu no grande e no pequeno ecrã; ou dos que de lá foram chegando aos milhares, numa longa diáspora, desde o final do século XIX, fugidos da pobreza e das secas para trabalhar no que há. À Amazónia, São Paulo, Rio de Janeiro. Por todo o mundo há um nordestino à procura do sonho de Fabiano.

“Mas ele não dá recados nos livros”, continua Lourival Holanda, referindo-se a Graciliano Ramos. “O recado está dado de maneira muito subtil. Ele não é militante”, acrescenta sobre o facto de Graciliano Ramos se ter inscrito no Partido Comunista, já na década de 1940, depois de ter escrito os seus romances mais notáveis. “Ele desconstrói com as imagens que se prestam a muitas interpretações.”

O SILÊNCIO E A FESTA

A entrada para Palmeira dos Índios continua a ser uma das mais confusas das cidades do Nordeste. Há palmeiras ao longe. Tudo certo. Muitos placards à beira da estrada. O melhor hotel anuncia uma diária de 39 reais — pouco mais de nove euros —, o que levanta suspeitas. Depois das três da tarde não há um restaurante aberto e ao jantar apenas uma pizzaria. Sim, é inverno, ou seja, tempo de abundância, de festa. Os arraiais de juninos estão montados e há sempre música. Cantores sertanejos numa desgarrada de desafino, aparelhagens a anunciar saldos. O Sertão é uno nesse festejar. No caminho, não havia uma única cidade ou vilarejo sem fitas coloridas a cobrir o céu sem sol. Por ali, as nuvens não são ameaça.

Em Caruaru, a segunda maior cidade do estado de Pernambuco, no caminho para Palmeira dos Índios, as notícias anunciaram mais de 80 mil pessoas no arraial de domingo, 9 de Junho. Vê-las aglomeradas em meia dúzia de ruas do Alto do Moura, o mais antigo e popular bairro da periferia da cidade, é ter a percepção de um festim sem regra. Uma massa de gente que se desloca, dança, come, bebe, ri, sem espaço entre um corpo e outro. Vai passar o trem do forró. É em frente à casa de mestre Vitalino, um dos mais cotados ceramistas do Nordeste, que ao longo de anos compôs miniaturas de vaqueiros, cactos, burros, tudo o que fosse representativo daquele chão que parece escasso para tanta festa e onde num dos cantos do arraial se anuncia o maior cuscuz do mundo, para acompanhar com bode assado, linguiça, franguinho. E sempre o som de uma banda sertaneja.

No silêncio de Vidas secas também há lugar para a festa. Faz parte do ciclo de quem vive no Nordeste. Foi quando Fabiano se deu conta de que havia muita gente no mundo. Ele desconfortável na fatiota nova, lutando com o colarinho por apertar, e Sinhá Vitória tentando equilibrar-se nos sapatos novos. “Supunham que existiam mundos diferentes da fazenda, mundos maravilhosos na serra azulada. Aquilo, porém, era esquisito. Como podia haver tantas casas e tanta gente? Com certeza os homens iriam brigar.” Havia o espanto. “Não conheciam altares, mas presumiam que aqueles objectos deviam ser preciosos.” E o desconforto. “A multidão apertava-o mais do que a roupa, embaraçava-o.” E a conclusão. “Comparando-se aos tipos da cidade, Fabiano reconhecia-se inferior.” No entanto, a contradição, sempre. “Estava convencido de que todos os habitantes da cidade eram ruins.” E os meninos, os filhos? Deslumbrados com a quantidade de coisas. “Provavelmente aquelas coisas tinham nomes. O menino mais novo interrogou-o com os olhos. Sim, com certeza as preciosidades que exibiam nos altares da igreja e nas prateleiras das lojas tinham nomes. Puseram-se a discutir a questão intrincada. Como podiam os homens guardar tantos nomes? Era impossível, ninguém conservaria tão grande soma de conhecimentos. Livres dos nomes, as coisas ficavam distantes, misteriosas.”

 

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O plano da falta de linguagem é necessariamente político em Graciliano Ramos. Além de escritor, foi prefeito numa cidade complicada, ciente da quase impossibilidade de representação política dos que têm pouca voz, porque a linguagem que uns falam não é a mesma que falam os outros. Na literatura, ele revela essa impossibilidade de comunicação. Voltamos a Thiago Mio Salla. “É verdade. Se formos para outro livro como S. Bernardo, há ali uma figura um tanto ou quanto diferente. S. Bernardo já está numa região mais viçosa, é mais no agreste, não é o semi-árido, a fazenda é próspera depois da acção interventiva do ambicioso Paulo Honório (que se casa com a professora para legitimar um poder que quer ter), mas ele também é uma personagem à qual faltam recursos formais literários. Ele põe-se a falar, só que a fala dele é toda entrecortada; é uma personagem que veio de baixo e ascendeu socialmente, capitalista voraz, um modelo sertanejo de capitalista, que toma o poder daquele espaço através de subterfúgios; mas a fala dele é emperrada.”

Em Vidas secas e em S. Bernardo há silêncios, mas são silêncios distintos. Graciliano conhece um e outro da própria experiência. “Nos relatórios da prefeitura há um momento em que conta o que acontecia com parte dessa população. Ela migrava. Porquê? Porque não tinha condições económicas para se manter naquele lugar. Há uma relação directa entre a experiência dele como prefeito, como homem público, como um sertanejo que pensa a realidade local e o que ele traz para a obra. Os relatórios procuram jogar um foco de luz sobre essa população; ou pelo menos ela é mencionada, passa a existir. É uma preocupação recorrente nele: olhar para esse lugar que ele chama arruinado, miserável, essa figuração do Sertão como um espaço no qual essa situação se dá não exclusivamente por uma questão geográfica, mesológica, que tem que ver com o clima: ela tem que ver maioritariamente com a exploração de que as pessoas são alvo”, conclui Thiago Mio Salla.

Nos relatórios, Graciliano Ramos fala da política, da “politicalha”, refere que a primeira medida que tomou foi um saneamento na prefeitura para afastar funcionários que não trabalhavam ou só viviam para fazer política e não a função que lhes cabia. “Ele teve uma vida pública muito actuante. Mas a história deu mais atenção ao desempenho em Palmeira dos Índios, talvez por ser um cargo executivo. É o antípoda do que a gente sabe dos políticos tradicionais. Desde medidas elementares de limpeza. Era muito comum nas cidades ver animal pastando e praça, porco correndo no meio da rua, cachorros...”, diz ainda Thiago.

Numa segunda-feira de manhã, vende-se de tudo no mercado de rua, sobretudo fruta, legumes, vegetais. Uma mulher tem para vender apenas feijão descascado; noutra banca improvisada, dois rapazes tiram a maçaroca de milho da palha como as que Nil vende numa rua de Euclides da Cunha, já no sertão baiano. Assa-as num fogareiro e vende-as a dois reais cada. Tem 15 anos, não está na escola. Diz que vai estar. Mas não diz porque não está nem porque irá estar. Simplesmente cruza as mãos em cima do boné que traz na cabeça.

Fora da prefeitura e na prefeitura, Graciliano Ramos dedicou a maior parte da vida à educação — como inspector, secretário estadual e municipal. A preocupação com a educação está também no início do Vidas secas. Fabiano admira e ao mesmo tempo desconfia da figura de Tomás da bolandeira. “Seu Tomás da bolandeira falava bem, estragava os olhos em cima de jornais e livros, mas não sabia mandar: pedia. Esquisitice um homem remediado ser cortês. Até o povo censurava aquelas maneiras. Mas todos obedeciam a ele: ‘Ah! Quem disse que não obedeciam?’”

Fabiano teme pelos filhos perguntadeiros; sabedoria é capaz de dar num vício e não dar em nada. Só que seu Tomás pode não ter muito, mas tem uma cama de verdade, como aquela com que Sinhá Vitória sonha. Tomás voltará no fim, já que este é um romance circular. No último capítulo, quando vislumbram a continuidade da fuga para lá do grande Sertão e a possibilidade de ir para um grande centro urbano, o pai vê a educação como elemento importante para os filhos. “Tomás da bolandeira é um personagem estudado”, lembra Thiago. “Só que não desfruta de uma condição económica superior. Ele usa algumas palavras que deixam Fabiano atordoado. Ele escuta, acha aquela palavra bonita, quer usar, mas não tem o repertório para conseguir aplicar aquele termo com a devida exactidão, com a devida coerência e fica um termo solto. Ele não sabe, mas admira. Gostaria de ter aquilo, mas não tem. Tomás da bolandeira, na medida em que está mais para esse pólo da educação, é mais feminino; não é tão másculo. Não é cabra macho, é mais frouxo.”

Thiago ri-se, e quem leu Vidas secas sorri com vontade, pensando no homem a quem chamavam o Velho Graça, que morreu novo, aos 62 anos, mas era o mais velho da Geração de 1930, a que deu grandes nomes à literatura brasileira do século XX. Muitos encontraram-se em Maceió. Caso do grande amigo José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, o dicionarista Aurélio Buarque de Holanda, o pintor Santa Rosa.

José Lins do Rego e Rachel de Queiroz foram, aliás, autores de alguns dos livros mais notáveis sobre o Nordeste. Casos de Menino de engenho e Fogo morto, de Zé Lins, em que relata o declínio do universo dos engenhos de cana do açúcar com a mão-de-obra esclavagista e a denúncia do papel dos negros nessa produção, valorizando a linguagem popular.

Menino de engenho é história simples de um órfão, Carlinhos, que vai da cidade para a fazenda do avô na Paraíba e se confronta com um mundo oposto ao que conhecia. “Eu acreditava em tudo isto, e muitas vezes fui dormir com o susto destes bichos infernais. Na minha sensibilidade ia crescendo este terror pelo desconhecido, pelas matas escuras, pelos homens amarelos que comiam fígado de menino. E até grande, rapaz de colégio, quando passava pelos sombrios recantos dos lobisomens, era assoviando ou cantando alto para afugentar o medo que ia por mim. Os zumbis também existiam no engenho. Os bois que morriam não se enterravam. Arrastava-se para o cemitério dos animais, à beira do rio, debaixo dos marizeiros, onde eles ficavam para o repasto dos urubus. De longe sentia-se o hálito podre da carniça, e a gente via os comensais disputando os pedaços de carne e tripas do defunto. O zumbi, que era a alma dos animais, ficava por ali rondando. Não tinha o poder maligno dos lobisomens. Não bebia sangue, nem dava surras como as caiporas. Encarnava-se em porcos e bois, que corriam pela frente da gente. E quando se procurava pegá-los, desapareciam por encanto.” Carlinhos irá para a cidade estudar, ter educação, e é de lá que conta as memórias.

Quanto mais se viaja pelo Sertão, ou pelos sertões, mais estas imagens se fixam, com todos os odores, luzes e sombras. Os caudais dos rios vão agora altos. Os cemitérios de animais não se avistam, mas o resto parece plausível, e muitas vezes visível. Numa das margens do rio S. Francisco, na fronteira entre Alagoas e Sergipe, uma vaca é apanhada pela maré cheia e não consegue atravessar o vasto mar de água. Parece condenada entre a corrente e os penhascos à volta. Tem chocalho, tem dono, tem medo. Os olhos numa aflição. Até que mergulha e nada, então, cambaleante, arriba acima, perdida entre a vegetação. Parece milagre sertanejo dado a ver a quem poderia desconfiar das coisas se contam por ali.

E Rachel de Queiroz foi a primeira mulher a merecer o respeito dos literatos nestas paragens com O quinze. O título marca o ano de uma das secas mais dramáticas da história do Nordeste, 1915. Escreveu-o tinha 19 anos e poucos acreditaram quando leram. Na idade e que vinha de uma mulher. Sobre esse livro o escritor Mário de Andrade afirmou: “É mais do que uma conversão da seca à realidade, é uma conversão à humanidade.” Em O quinze, uma jovem de 22 anos, professora, passa as férias grandes na fazenda com a avó e esse quotidiano, o modo como a velha senhora olha o céu a partir de março é a marca do romance que integra os grandes do Sertão.

O Sertão da seca e da fortuna, da morte e da celebração, do silêncio e da música estridente, dos desesperados, dos que cantam, das procissões e das vaquejadas, dos banquetes e da míngua. Dá para pensar em tudo isto nas horas entre Caruaru e Palmeira dos Índios e perceber que de todos os palcos de festa, passando por Caetés, Piranhas, Euclides da Cunha, o mais caótico é mesmo o de Palmeira do Índios, de tal forma que a festa parece esparsa, dispersando-se por cada viela, vereda, sem um semblante de felicidade nas ruas. Só gente de um lado para o outro, apressada, e os únicos quartos vagos nos três pequenos hotéis ou têm baratas ou pombos a voar.

Num deles está Maria. Fica na rua onde foi instalado o Museu Graciliano Ramos, moradia branca com três grandes janelas de madeira azuis, persianas fechadas e o anúncio de que se encontra fechado. E sem data para abrir, sabe-se mais tarde.

Maria quer saber dos estranhos que chegam. Mora naquele que deve ter sido um pequeno hotel colonial, paredes brancas, portas e janelas de um verde-água, buganvílias encarnadas, todas as portas a dar para num pátio, uma mansarda e um coro de pássaros que ao fim de tarde acaba com qualquer conversa. Ela passeia-se por ali de camisa de dormir e saco plástico na mão. Vive num dos quartos destinados a mensalistas. É a sua casa. De manhã, sai do quarto, a mesma roupa, e monta uma banca colorida com chupa-chupas, rebuçados, gomas. Parece numa feira imaginária onde hão-de chegar clientes imaginários. “Já tá indo? Vige Maria, não tem parança, não?!” Foi o maior conjunto de palavras que lhe saiu em dois dias. De resto, olhava pelos óculos embaciados. E foi a olhar que ficou quando a chuva deixou de cair, acenando num adeus que caberia na grande literatura nordestina de Graciliano Ramos, José Lins do Rego ou Rachel de Queiroz.

Cosme aparece; é hora de jantar. Veio de dar aulas numa cidade próxima e tem fome. Não há escolha a uma segunda-feira. No meio do ruído brinca com a fama da cidade, citando alguém. “Palmeira dos Índios é um desses ajuntamentos infelizes que tem um padre, um juiz, um promotor e a pacatez mais apaixonante de um turbilhão.” Outra pacatez, a do remanso, parece estar toda em Cosme Rogério, o jovem estudioso de Graciliano Ramos, poeta, professor, performer, que voltou ao lugar de origem dos pais.

“Nasci retirante. Nasci no Rio de Janeiro, os meus pais são naturais daqui, foram trabalhar para o Sudeste. A minha mãe trabalhava como empregada doméstica, balconista; o meu pai tornou-se sargento da polícia do Rio. E depois fui morar em Francisco Morato, no interior de São Paulo. Fiquei lá até 1988, tinha cinco anos e meio, e cá estou desde então.”

Tem 36 anos e passou a maior parte da vida em Palmeira dos Índios. Formou-se em Filosofia numa das quatro universidades da terra. “Estudei aqui por pressão da minha mãe que não queria que eu fosse para Maceió. Fez chantagem emocional. Historicamente, Palmeira sempre concentrou boas escolas e continua a receber alunos de várias cidades.” Mesmo sem uma livraria? Cosme ri-se. “Quando me perguntam sobre Palmeira ser uma espécie de berço literário, com muitos escritores, digo que tem mais escritores do que leitores.” Cosme deixa de se rir. “Palmeira é uma cidade marcada pela loucura. Ela é louca até na geografia. São dois relevos. A parte plana da cidade que dá até ao Sertão é a grande depressão sertaneja. Olha o nome! A esquizofrenia já começa na paisagem e tem muito doido aqui. Eu sou um dos loucos dessa cidade. A cidade nos enlouquece um pouco, não é?”, diz para o empregado de mesa. “Com certeza”, responde o rapaz. “Se bem que eu não sou daqui, sou de São Paulo”, precisa. E Cosme: “Como quase todo o mundo aqui é forasteiro. Como Graciliano!”

A primeira vez que Cosme teve contacto com Graciliano foi através de um antigo Atlas de Educação Moral e Cívica que reunia as grandes figuras da História do Brasil. Tinha 9 anos. Era uma herança da ditadura. “Eu estava cá em 1992, quando Graciliano completaria 100 anos e o município fez uma mobilização. Eu ia fazer 10 e Graciliano ia fazer 100. E a escola adoptou o livro A terra dos meninos pelados. Foi a primeira obra que li dele”, refere sobre um dos quatro volumes de contos infantis do autor de Vidas secas. “Foi marcante, porque percebi que havia alguém importante na minha cidade que merecia a minha atenção. E descobri uma biblioteca — o que para um menino pobre sem acesso a livros... Me enfurnei na biblioteca e na biblioteca cresci.”

Aos 22 anos foi convidado para ser secretário da Cultura de Palmeira dos Índios. Já tinha estudado, já era formado. Continuou a estudar, Sociologia, e estuda Linguística e Literatura. Nesse estudo parte de uma premissa: Fabiano é o sonho de João Valério (Caetés), Paulo Honório (S. Bernardo) e Luís da Silva (Angústia), os quatro grandes protagonistas de Graciliano Ramos. “Quero demostrar que há uma unidade estética nos quatro romances. Cada romance é uma experimentação mediada pelas categorias de insatisfação e sonho. Fabiano e sua família parecem a concretização daquilo que os outros queriam ser e não tiveram competência, foram medíocres. Digo que é uma loucura, porque é ousado.”

Ou um devaneio como de Fabiano. Cosme pede socorro à psicanálise para fazer esse trabalho. Fabiano limitou-se a seguir o olhar de Sinhá Vitória em direcção ao céu. “No céu azul as últimas arribações tinham desaparecido.” A fuga voltava a ser urgente. Nós pedimos ajuda a Carlinhos, o protagonista de Menino de engenho, para deslindar tal urgência. “Chamavam arribações as rolas sertanejas que desciam, batidas pela seca, para o litoral. Vinham em bando como uma nuvem, muito no alto, a espreitar um poço de água para a sede de seus dias de travessia. E quando o avistavam, faziam a aterrissagem em magote, escurecendo a areia branca do rio.”

Já não havia rolas, já não havia pinga de água. Fabiano e a família escusavam de esperar o milagre. Faziam-se ao sonho ou ao delírio.

Por agora, chove e ouve-se o canto dos pássaros.

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