Noroes Hana Luzia novembro.20

 

Eu o estava “vendo”, mas ele já havia seguido viagem. Uma espécie de presença na ausência. Olhei-o no caixão que mal lhe cabia. O paletó de sempre. A barba arranhando nossa impotência. Algo de solene, como o próprio personagem. Perguntei-me com quem parecia naquele estado. Lembrei de uma fotografia clássica, um chiaroscuro de Félix Nadar, o foco na face direita do poeta Victor Hugo no seu leito de morte. Nadar parecia ilustrar a frase do mestre francês a despedir-se:

— Veio uma luz escura!.

Era a “luz escura” percebida por Nadar, focando a face direita do poeta. O relâmpago da câmera acentuando a fulguração do instante final.

Nossa imagem mental pode ser mais incisiva do que o registro de uma câmera. O instantâneo captado pelo nosso imaginário torna-se uma transfiguração do vivido.

Esse gênero de foto, quase reminiscência arqueológica, às vezes retocada com tinta, ainda pode ser visto em casebres do interior nordestino. Bem no Sertão, “país” de onde ele também veio, nosso poeta.

No retrato colhido pela minha “câmera”, algo diferente. Vestígio de uma personificação da poesia. De quem a compunha e tinha o dom de transformar coisas simples em alegorias. O de fazer com que sua “presença” fosse aquilo que outro de seu ofício, Yves Bonnefoy, definiu como a imortalidade sentida no próprio coração da finitude.


Tenho uma sensação estranha quando vejo um morto. Como se estivesse frente a um objeto que nada mais diz. Para o qual já não importa coroa de flores, nem comentários ou missas. Mas, alguma coisa de quem parte permanece conosco. E ressurge, numa forma qualquer, incorporando-se ao que chamamos “nossa história”.

Ao vê-lo naquela última postura, veio-me o episódio de quando, um dia, no centro do Recife Antigo, tentou atravessar a rua sem observar o sinal fechado. Alguém que nunca o havia visto o impediu de passar e quando o semáforo vomitou verde, dirigiu-se a ele, rindo:

— Pode passar, Castro Alves!

É que sua “imagem” de poeta prescindia do verso. No dia de seu final (ou de seu princípio), em meio a comentários sobre ele, recitei para mim mesmo, baixinho, um poema de sua autoria. Melhor do que uma oração, pensei, do que um padre-nosso repetido como uma pobre lição de cinzas. Murmurei o mesmo poema que ousei lhe dizer num de nossos encontros e ele me advertira que eu o havia alterado. De fato, na minha “versão”, a primeira estrofe começava assim

A aranha esquiva
do meu poema
se indociliza
na tua mão.
Morna e lasciva,

Pétala, flanco,
Sabem teus dedos
tangê-la, mansos? […]

Eu havia inventado pronomes que não cabiam, introduzindo uma “conversação” sensualizada. O original era um diálogo do autor com sua própria criação. O poema “indociliza-se” na mão do poeta, não de uma outra pessoa. E, para ele, poema era algo que devia prescindir de retoques. Natural como a aranha navegando a seda. Mas tão incontornável quanto uma escritura passada em cartório.

Naquele instante de despedida, seu Arte poética saiu do jeito que ele compôs.

Traçava com régua milimétrica as coisas da língua. Das línguas. Descobria minúcias que passariam despercebidas a um incauto. Cada letra, vírgula, rima eram materiais importantes de suas construções. A busca da perfeição era freio à prolixidade.

Certa vez, pedi-lhe que traduzisse para o inglês um poema que terminava com a palavra “terra”, repetida três vezes no final, num crescendo. Um texto que escrevi para ser recitado num vídeo de Sônia, intitulado Danças pernambucanas. Combinamos que ficaria bem deixar a palavra “terra” em português. A entonação repetida daquele land, land, land não seria um bom desfecho. Além disso, a palavra “terra”, por ser escrita da mesma forma em latim e em português, no contexto do poema poderia ser facilmente percebida por um leitor inglês.

Meses passaram. Ele me liga num tom de voz anunciadora de catástrofes. Queria fazer ressalvas à tal versão. Se o texto fosse lido, e não recitado, ponderou, o resultado seria perfeito. Mas se fosse declamado em inglês, a homofonia inviabilizaria a solução. A pronúncia da palavra “terra”, em inglês seria percebida como “terror”.

Destruiria o poema.


No dia em que sobre ele baixou a “luz escura”, imaginei por onde prosseguiria sua viagem, em que estranho território desembarcaria. Nunca o Paraíso, onde não deve haver algumas coisas das quais gostava. Entre elas, um bom vinho cuja alma canta na garrafa, segundo Baudelaire. Teria preferido o Purgatório, onde o autor da Divina comédia se despediu de Virgílio. Mesmo à custa de alguns castigos seria, afinal, a oportunidade de relembrar a conversa entre os dois Mestres, em dialeto toscano.

Imagino que sua viagem final deve ter sido uma imitação das que costumava fazer em vida, quando se tratava de coisas da Literatura. Como sua ida a Ouro Preto para visitar Elizabeth Bishop (ele sempre me corrigia a pronúncia do “Bishop”). Ninguém ficou sabendo ao certo que conversa deve ter havido entre os dois, ambos tão perfeccionistas em matéria poética. Por certo, copiou o poema manuscrito que a autora de Questions of travel deixou exposto no quadro de uma pousada da cidade. Diz que os amantes dormem como duas páginas fechadas de um livro que o outro leu no escuro.

Na última visita que fiz ao apartamento do poeta, uma lua cheia parecia desabar sobre uma legião de livros na mais perfeita desordem. Iluminava os poetas Orley Mesquita e Geraldo Markan, em cuja companhia, ele, Esman Dias, agora deve estar prosseguindo uma longa conversa que principiamos num barzinho da Rua do Paissandú, em torno da Sibila e sua penosa imortalidade.

Voltássemos hoje ao tema, o comentário de Esman talvez fosse assim:

“A verdade da literatura é a Literatura”.

Ou, simplesmente, recitaria os versos de um de seus poemas, voz de barítono:

Falo do que não falo quando falo:
Falo do meu silêncio,
Bem mais claro
Que as vozes incessantes dos que falam.
[…]
Falo com a voz alheia que me toca.
Falo e regresso — ileso — à minha toca.

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