Noroes Eduardo Azeredo setembro.20

 

13 de julho de 2020.

Um século atrás, um rapaz de 26 anos lança num diário o que vivencia na frente de batalha de uma guerra sangrenta.

Terça-feira, dia de seu aniversário. Sente uma angústia desesperada. Em contrapartida, vislumbra que seu diário poderá ser transformado num documento interessante.

Vive em Odessa, a grande cidade portuária do Mar Negro. É um reduto de judeus. Seu pai, vendedor de roupas usadas. Os pogroms são memória viva na sua comunidade. Faz poucos anos do último dos massacres. Desde 1821 até o início do século XX, cinco vagas repressivas do governo czarista desencadeiam
correntes emigratórias. Ele tem notícia de que muitos sobreviventes desembarcaram em terras brasileiras.

Começa a escrever aos 15. Quando se muda para São Petersburgo, centro intelectual do país, troca de nome, pois ali não é permitido a entrada de judeus. Tem intenção de publicar seus relatos, mas seu jeito de escrever é extravagante demais para editores ainda habituados aos grandes românticos e amores impossíveis herdados do século que termina. Os críticos muitas vezes desconfiam dos que caminham à frente do rebanho.

Algumas de suas histórias são julgadas pornográficas. Enredos em torno da aristocracia decadente ou de lugares onde vegeta a pobreza são temas que assustam burocratas. Tem como modelo Guy de Maupassant e para aprimorar suas ferramentas literárias começa escrevendo no idioma do escritor francês.
Mais tarde, autor reconhecido, emite opiniões que se assemelham às de Maupassant referindo-se a Flaubert, quando este diz encarar a escrita como uma espécie de sucessão de moldes dando contornos à ideia, “matéria na qual os livros são lapidados”.

É máxima a admiração do jovem: dá o título de Guy de Maupassant a um de seus contos, no qual um rapaz pobre, seu alter ego, ajuda uma bela mulher da nobreza, casada e mais velha do que ele, a revisar a tradução de um conto do mestre. Trata-se de uma espécie de subtexto e, ao mesmo tempo, uma alusão poética à narrativa L’aveu (A confissão), de Maupassant. Uma história, com detalhes picantes, de um cocheiro que seduz e engravida uma jovem camponesa. Quando a tarefa dos “tradutores” chega ao fim, o conto de Guy de Maupassant é elemento detonador de uma libidinosa relação entre o jovem e a casada infiel.

Durante sua estada em São Petersburgo, ele encontra, finalmente, o escritor Máximo Gorki. A conversa acaba lhe valendo a publicação de alguns contos na
revista dirigida pelo autor de A mãe. E um conselho que seguirá à risca: arregimentar experiências que possam transformá-lo num escritor de verdade.

Engaja-se no Primeiro Batalhão de Cavalaria cossaco e assume a função de repórter militar na desastrosa campanha que se desenrola nas fronteiras da Polônia. Vai registrando na sua caderneta operações de guerra, estupros, fuzilarias, mortes. Sem esquecer os cavalos. Naquelas circunstâncias, tão importantes quanto os homens.

Nos lugarejos por onde passa, aponta, de modo quase telegráfico, tudo o que observa: a vida cotidiana dos judeus, a sífilis grassando na tropa, as investidas sexuais da soldadesca, personagens bizarros dos mercados, sinagogas, tavernas. Tudo assinalado com síntese e crueza. Abre janelas para nos fazer enxergar
o quanto a palavra é tão importante quanto uma bala na agulha. Seu olhar de míope opera como um raio X.

Penetra o núcleo mais obscuro dos acontecimentos. Curiosamente, o dia de seu aniversário é um dos menos interessantes e, ao mesmo tempo, um dos mais sombrios de seu diário. Entristecido, confessa estar pensando na casa, no trabalho, na vida que desembesta naqueles sertões da Rússia. Mal tem o tempo de alinhavar suas experiências. É um “repórter” sem máquina de escrever ou gravador. Alinhava anotações com cuidado. Mais tarde, elas serão trabalhadas à exaustão. Por enquanto, está tomado pela urgência de quem afronta o permanente convívio com a ruína e a morte. Tem o sentimento de que o vivido, ao ser transferido para o território do papel, é algo que pode ser tão surpreendente quanto o incerto desfecho da guerra.

Naquele dia de seu aniversário, enfrenta duas batalhas.

A primeira, as das peripécias da História, na qual é ator e, ao mesmo tempo, o narrador. A outra, a que irrompe da tensão de quem se obriga a dar forma e estilo a páginas forjadas numa experiência marcada pela crueldade. Plantado no mais aceso núcleo da trama, é como se estivesse aferrado a uma alça de mira, pronto para o tiro fatal. Projeta os lances incisivos de seu diário na empresa de compor seu futuro livro.

É interessante cotejar as páginas de seu diário às do livro, a exemplo de passagens como a do conto A travessia de Zbrutch, quando compara um sol cor de
laranja, em meio a um desfiladeiro de nuvens, “rolando como uma cabeça decapitada”. Ou a página do episódio intitulado O caminho de Brody, em que combatentes famintos ateiam fogo com farrapos sujos para resgatar o mel da “sagrada república das abelhas”. A cena tocante: colmeias destroçadas abrindo o conto e a frase do arremate: “Não há mais abelhas em Volin”.

É a batalha para cativar o leitor e convocá-lo a aderir a uma guerrilha de palavras que anuncia o desastre ou a redenção.

Contudo, ao contrário de seus autores mais admirados, Guy de Maupassant e Gustave Flaubert, o jovem, depois de sua experiência no chão da guerra, não se ocupará de modos e trejeitos provincianos. Com ele é o novo século que desembarca e todas as suas engrenagens de violência e desassossego. Tem a premonição de que um dia seria triturado por elas.


No conto Guy de Maupassant, entre beijos e taças de vinho moscatel, ele explica à bela aristocrata como deve ser o trabalho literário. Um combate. Um exér-
cito que pode usar quaisquer tipos de armas.

E acrescenta a frase, que define a trajetória de sua escrita:

“Nenhum ferro é capaz de penetrar o coração humano de forma tão contundente quanto um ponto colocado no momento exato”.

O jovem escritor: Isaac Babel (1894-1941).
Os livros: Diário de 1920 e O exército de cavalaria.

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