Noroes Filipe Aca junho2020

 

Um cantar precioso se escuta durante dois minutos do filme Ligações perigosas.

É um pequeno trecho da ópera Xerxes, de Haendel.

A voz nos provoca estranhamento. Não é de homem, nem de mulher.

Como se tivesse sido feita para louvar o mistério que se entranha no coração das coisas.

O filme é inspirado no livro homônimo de Choderlos de Laclos, general de Napoleão, autor da obra-prima da literatura erótica. Trama amorosa, o romance é escrito sob a forma de troca de cartas, recurso literário que permite a multiplicação das opiniões e ideias dos personagens através do fio de suas narrativas.

Numa das cenas, nem mesmo a peruca branca e a indumentária de época escondem a origem nordestina do intérprete, mistura de raças em que a componente indígena predomina. No filme, o cantor se apresenta a um pequeno grupo de nobres franceses no salão de um palacete iluminado por candelabros. A personagem encarnada por Glenn Close sugere estar apreciando o desempenho do cantor. Ao mesmo tempo, ela troca olhares equívocos com John Malkovich e Michelle Pfeiffer. Traduzem traições e ambiguidades, motores do enredo.

A música permeia a intricada novela do escritor francês, na qual encontros eróticos e perfídias amorosas desvelam o lado perverso da esfera dos poderosos de então. Ombra ma fui. Sombra nunca foi, é o que diz a letra. O artista “anônimo” parece traduzir o que um futuro bem próximo lhe reserva. Ou a sugerir que não o tornem a sombra do que é.

Está em Paris, vindo de muito longe, do interior do Ceará.

Percorreu um trajeto penoso até seu canto findar reconhecido pelo mundo da música erudita. Num dos centros culturais mais exigentes, ele acaba escolhido, entre 73 candidatos, para cantar na película que ganhará três prêmios no Oscar de 1989, entre eles o de direção de arte.

A amiga Violeta Arraes é um de seus contatos na capital francesa. Depois nomeada secretária de cultura do Ceará, no governo Tasso Jereissati, ela o convidará para a reinauguração do Theatro José de Alencar. Um edifício art nouveau do início do século XX, cujo jardim antes das reformas foi ocupado pelo Quartel da Cavalaria. Fato significativo e curioso de uma mudança de política cultural: o lugar que antes abrigava cavalos, de repente oferece espaço a artistas de todo o mundo, entre eles a conhecida dançarina e coreógrafa Pina Bausch.

O dono da estranha voz do Ligações perigosas também se apresenta na estreia.

É sua consagração na terra natal. E, ao mesmo tempo, seu canto do cisne. Pouco tempo depois de voltar à Europa, ele se esvai, consumido pela Aids, na trilha de tantos que foram tragados pela peste negra dos meados do século XX. É o ano 1992. Tem apenas 35 anos. Seu último gesto, antes de receber a extrema-unção, contam, é o de entoar para o padre a Ave Maria de Schubert. Último ora pro nobis pecatoribus desfiado pela voz de uma sombra.

Dele, restaram gravados dois raros CDs, além de uns poucos registros no Youtube. Na primeira das gravações, interpretações de cantatas e sonatas de Scarlatti.

Na segunda, algumas melodias brasileiras compostas por Ernani Braga, Alberto Nepomuceno, Waldemar Henrique, Marlos Nobre.

Os serviços de streaming de música ainda hoje não o descobriram. É como se a vibração de um timbre tão especial acabasse por ser tão fugidia quanto seu eco quase clandestino no filme de Stephen Frears.

Os dois minutos e meio de cena são sua glória fugaz.

 

 

Busco na Internet algo que o relembre.

Descubro o blog intitulado Cinemaeartes, assinado por Gabriel Petter. Trocamos informações. Ele confirma estar em andamento projeto de livro e documentário sobre o cantor. Conta detalhes do itinerário do 15º filho e um dos sete sobreviventes de uma família sertaneja extremamente pobre, depois emigrada para a capital.

A voz do menino, esculpida pela ausência de testosterona, e sua força de vontade condicionarão o seu futuro. Sem a mudança vocal, característica da adolescência masculina, guardará uma fala infantil. Sua inteligência arguta e o gosto pela música o levam a trabalhar aquela estranheza. E o que poderia ser um estigma a mais, torna-se seu principal trunfo. Logo se dá conta de que o desregramento hormonal pode torná-lo um castrato natural.

Em meio às agressões e preconceitos de uma sociedade machista e inculta, encara o desafio de tornar a diferença instrumento de superação. Enfrenta os reveses para burilar a formação musical que o faz chegar aos altos lugares do canto. Vê-se como um daqueles adolescentes da época do grande Barroco, quando as mulheres eram interditas de cantar em igrejas e meninos eram emasculados para servirem à música.

 

 

Quando ainda pensava em debutar como cantor, escolhia cantigas simples de pescadores de sua terra:

Minha jangada de vela
Que vento queres levar?

Sé à liberdade suspiro,
Vens liberdade me dar,
Se fome tenho, ligeira,
Me trazes para pescar!

Até parece que o vento de Aracati do poema de Joaquim Cardozo, ao deixar o Congresso Internacional dos Ventos “cantando e dançando pela estrada”, havia lançado no ouvido daquele menino a semente do poema.

A semente que o levaria mais tarde a executar peças do repertório clássico e de óperas famosas. E uma das belas modinhas do repertório brasileiro, assinada por outros dois poetas, Manuel Bandeira e Jaime Ovalle: a cantiga Azulão, destaque de seu segundo e último CD, Mélodies populaires brésiliennes.

A canção-poema refere-se a um pássaro que nunca vive em bando.

Sozinho e triste, é um lamento em quase despedida:

Vai Azulão
Azulão companheiro vai
Vai ver minha ingrata
Diz que sem ela
O sertão não é mais…

***

Isolado pelo vírus que semeia uma nova peste, sem ouvir o barulho das ruas ou a algazarra dos meninos de uma escola à frente do edifício onde estou, a voz do cantor me chega como a de alguém a clamar no deserto de nossa cultura.

(Paulo Abel do Nascimento,
seu nome.
Nascido em Quixeramobim, Ceará, 1957.
Desaparecido em Paris, 1992.)

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