Noroes A garrafa de anis de Juan Gris 1914 Reproducao

 

 

Para W. J. Solha, artista, escritor, decifrador de enigmas


A

Avisou que chegaria de Madri às 18h30 da sexta-feira.

Às 18h, ele estacionou na estação de Sants.

Decidiu chegar mais cedo. Tinha receio de não ser reconhecido anos depois daquela despedida numa cidadezinha de interior, enquanto esperavam o comboio e, de repente, tudo havia sido varrido por uma frase.

Na estação, fez o que todo o mundo faz para passar o tempo. Tomou um expresso, comprou um jornal e sentou num banco fingindo ler. De vez em quando, cravava o olho no painel de avisos, a impaciência da espera traduzida no vai e vem das luzinhas vermelhas.

Às 18h20 aproximou-se do portão de saída.

Ansioso, julgou avistá-la numa das plataformas. Logo deu-se conta do ridículo ao tê-la confundido com aquela jovem de jeans e casaco azul marinho, saída de um trem chegado de sabe Deus onde. Além disso, faltavam ainda alguns minutos para o trem de Madri. Mas a passante bem que parecia com ela, a de antigamente, num tempo em que para uma mulher sozinha aventurar-se Espanha adentro era mesmo algo inusitado.

Ouviu o anúncio do alto-falante. O relógio que cravava 18h30.

Ele a havia alertado: estaria de blazer cinza escuro e cachecol bege. Na mão, o livro de contos do escritor favorito, o que também havia varado a Espanha para nunca mais conseguir livrar-se do fantasma daquele lugar. O livro, mais do que uma identificação, era uma espécie de teste. Precisava confirmar se ela ainda guardava vestígios de quando, mochila às costas, eles haviam percorrido durante dias e dias um país devastado. Até que tudo encerrou-se debaixo de um sol implacável e num botequim vagabundo, com copos de cerveja e a dose daquele anis adocicado que ficou pela metade quando ela desatou no choro e se foi.

Olhou de novo o quadro de letrinhas vermelhas piscando feito vaga-lumes.

O trem Madri-Barcelona das 18h30 acabara de chegar.


B

Entraram num barzinho da Carrer Casanova, hora em que homens maduros bebem querendo se convencer que a morte não existe.

Em vez de ocuparem uma mesinha ao fundo, sentaram em tamboretes altos ao lado do balcão. O ambiente era simpático, embora o incomodasse o brilho de espelhos e garrafas. Durante algum tempo permaneceram calados, observando o homenzinho sacolejar a coqueteleira. A bebida estava sendo preparada para os três homens de terno e gravata ao pé do balcão, com ar de terem terminado expediente em alguma repartição pública. Por algumas palavras soltas, percebeu que conversavam sobre as manifestações de rua, a falta de caráter dos políticos, as repercussões da queda da bolsa sobre os negócios na Catalunha.

Pediu dois Anís del Toro, a mesma bebida que haviam provado antigamente, na despedida.

O barman, surpreso, perguntou-lhe que marca era aquela. Respondeu que era um anis produzido em Saragossa. Havia provado tempos atrás.

O barman comentou nunca ter ouvido falar do anis em 15 anos de ofício, mas no bar havia outro, o Anís del mono.

¿Vale la pena cambiar un toro por un mono? (“Será que vale a pena trocar um touro por um macaco?”) — perguntou rindo.
Por si acaso, te traigo el mono. Si no les gusta, ¡no pagan!
(“Por via das dúvidas, trago-lhe o macaco. Se não gostarem, não pagam!”)

Voltou com uma garrafa de formato extravagante, rótulo com o desenho de um macaco sentado, segurando uma bandeja na mão direita; na outra uma garrafa da bebida.

Ela ouvia tudo calada. Ele pressentiu, então, nada ter mudado após o desencontro naquele lugar cercado de montes e árvores tão iguais, onde o vento quente ofegava como um bicho no respirar da agonia. E ela havia tomado a decisão de enfrentar sozinha a circunstância que os havia tornado cúmplices.

Notou-a meio entorpecida, talvez pela bebida ou algum barbitúrico. Lembrou que era assim que ela estava antes de entrar porta adentro naquele barzinho de beira de estrada, abrindo a cortina de bambu, afastando moscas. Tomada por um tipo de embriaguez que somente cessa diante da catástrofe.

De repente, como se ela tivesse despertado, virou--se para ele e comentou com menosprezo:
— Você sempre me dá a impressão de querer fazer parte de algum conto das Mil e uma noites!

Ele olhou a garrafa. Imaginou que o rótulo do anis bem poderia ter sugerido, pela fulguração do cristal, a metamorfose do macaco em gênio da lâmpada. E o líquido viscoso, com jeito de absinto, estaria se transformando no soneto de Baudelaire que ela gostava de recitar.

Irritada, confessou estar cansada de poetas, de bêbados, e se perguntava qual o sentido de ter feito aquela viagem ao inverso. Quem sabe, motivada pela mesma pulsão que a havia levado a perambular tanto tempo, como um camelo perdido no deserto, bancos de areia mudando de lugar, Norte revirando Sul. No olho do ciclone. Murmurou algo tão baixinho que ele não conseguiu perceber.

De repente, ela levantou-se e partiu rumo à escadinha que desembocava no W.C.
Ele chamou o barman e pediu a conta.


C

Enquanto a levava de volta à estação de Sants, através da Gran Via de les Corts Catalanes, voltou mentalmente ao salão da estaçãozinha de outrora, cheia de gente. Havia uma fila de malas com etiquetas de hotéis. Uma loura alta, com jeito de nórdica, puxava um galgo inglês que chamava a atenção por ter uns olhos de ágata. Foi lá que ele avistou na parede do bar, do outro lado dos trilhos, o grande cartaz do Anís del toro. No mesmo instante, ela gritou-lhe, com veemência, pedindo que calasse a boca. Ele rumou em direção ao rio que ia passando devagar, como uma grande serpente engolindo a paisagem semeada de colinas brancas.

Domingo à noite as avenidas ficam quase desertas.
Mantiveram-se em silêncio.
Como se estivesse sozinho, ele ligou o som do automóvel.
Ao estacionar, abriu o porta-malas e fez menção de retirar a valise, mas ela antecipou-se com um gesto brusco.
Entraram na estação de Sants.
Ela despediu-se com formalidade. Depois, rumou para a plataforma do trem Barcelona-Madri, das 20h.
Ele saiu com pressa.
Nem sequer olhou o painel com o anúncio da partida.

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