Noroes Eduardo Azeredo out19

 

Trago a marca dos dois primeiros LPs de João Gilberto: Chega de saudade e O amor, o sorriso e a flor, editados nos meados dos anos 1960. Na capa do primeiro, o artista nos encara com jeito desconfiado, mão no queixo, como se estivesse a nos provocar um “Decifre-me!”. A sofisticação do design é confirmada pelo segundo: capa preto e branco, em negativo, meio corpo do artista com o violão a tiracolo. Mais sua assinatura do próprio punho.

Tanto as imagens quanto aquela cantiga de sertanejo vindo da beira do São Francisco traziam algo de insólito. Mais tarde, os críticos escavacaram as transfigurações provocadas por João Gilberto em matéria de harmonia e tantas outras facetas da composição ou da batida do violão, o que daria para construir um tratado. Acrescento um aspecto singular e singelo de sua arte: ter demonstrado que todos somos capazes de cantar.

Antes dele, o padrão dos intérpretes costumava ser ditado pelos programas de calouros. Tinham como referência o de Ary Barroso, que marcou época na Radio Nacional do Rio de Janeiro. Ali, quem não tivesse registro próximo ao da voz de um Nelson Gonçalves ou de um Orlando Silva, os ídolos da época, escutaria troar o fim definitivo de um projeto musical. O candidato era obrigado a abandonar o palco, após ter seu nome cuspido pelos alto-falantes dos rádios de todo o país. Programa de calouros era uma espécie de Tribunal do Santo Ofício da MPB.

Aí apareceu João Gilberto a chutar o gongo. Depois de ter demonstrado que possuía registro de voz capaz de enfrentar qualquer concurso, escolheu cantar com um timbre esquisito, a soar como se estivesse a pedir um ouvido pertinho. Uma voz diferente do gosto tradicional, que mais se assemelhava à de um padre no confessionário recomendando a sagrada penitência. E o Desafinado detonou baixinho, numa espécie de libelo pela democratização da música. Desafinado “também tem coração”, diz a letra. Traduzindo: quem tem coração chora tristeza ou semeia alegria, sem precisar de voz de tenor ou falsete. O cânon implodido, João Gilberto abriu veredas às novas formas de tocar, de interpretar. E de ouvir.

Aquela sua música era mesmo a confissão de todos os nossos pecados. Despedia-nos dos padrões importados de vozes e músicas que vinham desde um México de Agustín Lara (Granada era uma das canções preferidas dos concursos de auditório) ou de uma Argentina do tango traduzido El día que me quieras. Inaugurava um gênero que misturava o indizível – ou o “incantável” – com um procedimento musical até então nunca ecoado em nossos auditórios.

A mudança, hoje em dia, pode parecer singela. Cantores e compositores que se identificaram com João Gilberto tornaram-se clássicos de nossa música. Mas para quem o escutou pela primeira vez, nos meados dos anos 1960, foi um choque. O vagar daquelas notas contrastava com o clima dos anos frenéticos de JK, marcados pela construção de Brasília e a mudança da capital federal, além da efervescência política que acabou por despencar no Golpe de 1964.

 

Tornar simples coisas difíceis é tarefa de gênio. Fico a pensar em algum advogado conseguindo despir-se de todo o “juridiquês” e de fórmulas latinas – copiadas da Internet, por quem às vezes nem domina o idioma –, para escrever num linguajar susceptível de ser compreendido por todo o mundo. Foi o que fez João Gilberto na esfera da música popular brasileira.

Na sua forma de quase sussurro, a pedir silêncio em vez de aplauso, música e letra eram tratadas por ele como se contivessem algo de sagrado. João Gilberto paralisava o espetáculo se alguém fizesse algum ruído ou saísse da sala por motivo imprevisto. Sua música era uma espécie de planta reencontrando raízes, entre lamento e afirmação. Uma música dialética, difícil de ser absorvida por quem não estivesse disposto a repensar caminhos. Ponte entre o som e o silêncio dos cumes que antecede o mergulho no absoluto.

E foi ainda mais longe. Após cantar o novo, interpretou os clássicos de um jeito diferente, num reinventar da grande tradição. Até reincorporou ao seu repertório Ary Barroso, o inventor do “gongo”. Ao ouvir No rancho fundo, cantado por João Gilberto – que o autor de Aquarela do Brasil compôs em parceria com Lamartine Babo –, é como se um edifício tivesse sido reconstruído de forma diferente com os mesmos artefatos. São inúmeras as gravações desse samba-canção, entre elas as clássicas de Elizeth Cardozo e de Nelson Gonçalves. Porém, nenhuma têm aquele carimbo de originalidade do intérprete de Samba de uma nota só.

João Gilberto, o duende da música, o antigo e o novo sem descaracterizar a tradição. É uma operação que requer domínio e maestria: o arqueólogo a seguir pistas à procura da essência, seguro de que o contemporâneo não é apenas o que é. Pode ser o passado a fazer-se presente. Ou o inverso.

 

Violeta Arraes contou sobre encontro que teve com João Gilberto.

No meio da conversa ele perguntou de onde ela era:

– Do Crato, Ceará. – respondeu.

E ele, de repente, começou a cantarolar baixinho o hino da cidade:

Flor da terra do sol
Ó berço esplêndido
Dos guerreiros da tribo Cariri.
Sou teu filho e ao teu calor
Cresci, amei, sonhei, vivi...
(...)
Grande e forte como nosso verde mar
Bendita sejas, ó terra de Alencar!

Ela ficou surpresa por ele conhecer aquele hino por inteiro. Afinal, embora nordestino como ela, quase 400 quilômetros separavam Juazeiro da Bahia do Vale do Cariri. Quando ele era menino, explicou João Gilberto, trabalhava na casa de seus pais uma moça do Crato. Às vezes, os dois ficavam sozinhos e, em vez de cantiga de ninar, ela costumava adormecê-lo cantando aquele hino que falava de guerreiros índios e do escritor da terra de Iracema.

(Enquanto escrevo, escuto No rancho fundo, interpretada por João Gilberto. Embora esteja bem pra lá do fim do mundo, ele continua a vagar entre nós. E como diz a letra: Quando bate um coração, “sem um aceno/ ele pega na viola/ e a lua por esmola/ vem pro quintal desse moreno”).

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