noroes

 


el centro

de un poema
es otro poema
en el centro del centro
es la ausencia

en el centro de la ausencia
mi sombra es el centro
del centro del poema
(Alejandra Pizarnik)

Rimbaud chega ao Recife.

Ele e os dois poetas atravessam pontes à procura da Abissínia ou das vogais coloridas. Navios à deriva, desembocam no ateliê do pintor Anquises Azevedo, Cais de Santa Rita. Ele estranha as telas abstratas, num lugar onde o figurativo dos pintores ainda namora engenhos, mulatas e palmas de coqueiros. Sente que ali medra um antídoto contra tudo o que é novo. Mas, no sobrado de Anquises, germe de modernidade, entre paredes grossas e forradas de carvalho, Kandinsky teria refúgio certo.

Junto ao último degrau da escadaria, um prumo registra alterações no respirar da casa à beira do infarto. Se o pêndulo oscila, descem às pressas para algum porto. O Texas Bar, com suas frequentes discussões entre gringos. Ou o Bar Savoy, onde um garçom inventou de uma bebida excêntrica, pernod com mate, espécie de tropicalização do absinto. Como se Baudelaire ali houvesse pousado para pedir sua dose, incrementada com matizes tropicais. Ou talvez o Bar do Grego, outro ponto de fuga, música acompanhada do tilintar da quebra de pratos, lançados pelos navegantes do país de Ulisses. Assim homenageiam suas penélopes, abandonadas nas ilhas a urdirem os teares da espera.

O centro da cidade tem ares grã-finos, alguns prédios sem quinas, a Rosa e Silva nas suas butiques de luxo, a calçada do Quem Me Quer florida. Da galeria de arte envidraçada sobre o Capibaribe desfilam as baronesas, nome dos jacintos d’água ou aguapés. “Baronesas”, que um tradutor francês se surpreendeu ao imaginá-las damas em vestimentas de época, "baronnes", a flutuarem sobre as escamas do rio.

No sobrado de Anquises, Rimbaud escuta a leitura do Arte poética, de Esman Dias. O recitante subverte a ordem dos pronomes, sexualizando os versos, à revelia do autor. A aranha esquiva do meu poema se indociliza na minha mão/ dócil e lasciva/ pétala, flanco… Prefere dizer “na tua mão”, e de tanto recitá-lo assim, não mais consegue desfazer-se do formato do verso tornado seu por usucapião. E, a seu modo, convoca a aranha do belíssimo poema. Então, ela chega devagarzinho do telhado, nas suas tramas e teias, confirmando o dizer de Carlos Drummond de Andrade a respeito do Nuvem Carolina, de Joaquim Cardozo: o grande poema é o que tornamos nosso pelo uso. E aí a aranha foge das mãos de Esman, constrói um orbe imaginário, num passe de mágica que somente poemas assim são capazes de tal atrevimento.

Pela janela, uma lua imensa, geométrica, chega do cais do porto. Dá-lhes o boa-noite, aclarando telas, cavaletes e livros fora do lugar. Achega-se para trocar opiniões com Esman sobre a importância dela, a lua, na escrita de Federico García Lorca. Ou na de Alphonsus de Guimaraens, com sua Ismália enlouquecida, que nos seus transes a via em dose dupla, uma lua no céu, outra no mar. Até que se jogou na profundeza das águas para o desencontro final.

Então, Esman estende uma daquelas conversas com início no verde que te quiero verde e o finalmente em comentários sobre o sonido de mau jeito em alguma tradução de um poema em inglês. Porque um verso, diz, se proferido de forma incorreta, é como cisco no olho a ferir a integridade do poema.

Do andar de cima, Rimbaud vê subir alguém a passos felinos. É O Leopardo, o de Orley Mesquita: já não me serve o príncipe/ o galgo que nela habita/ este, sim, ladra em meu convívio./ Posso não ter a fera,/ mas tenho o amigo(...). Alusão ao livro do príncipe de Lampedusa, tornado filme por Luchino Visconti.

No fundo, é o próprio, Orley, tornado príncipe. Porque é sempre assim quando a paixão por algum livro ou uma música ou uma tela o acomete no seu cotidiano de funcionário público.

E com a crença de que a poesia pode transformar o mundo, levam Rimbaud, no sábado pela manhã, para o encontro com Audálio Alves. O advogado e poeta os aguarda, terno e gravata, acompanhado do sócio em poesia e processos, Carlos Moreira, sonetista daquela tarde que “durou uma açucena”.
Os visitantes se despejam do elevador do Santo Albino, após a ressaca da semana. Empurram a porta do escritório. Petições e escrituras cedem lugar a textos dos espanhóis da Geração de 27 (García Lorca, Miguel Hernandez, Rafael Alberti...) ou ao rigor construtivo da escrita de João Cabral de Melo Neto ou de Joaquim Cardozo. Métrica e som a substituírem o palavreado dos juristas.

Audálio Alves é o mestre do poema. Um dos raros a buscar um escrever vinculado às coisas do chão nordestino, timbrado por um tom moderno, revolucionário. Com sua caneta de tinta autografa para o francês seu Princípio áspero de uma canção sem terra.

Depois da passagem do poeta das vogais desvairadas, tudo é desconstruído. Ou demolido. Avenidas, casario, igrejas. Onde havia moradas seculares, acocora-se um mercado inútil, que logo foi batizado de “camelódromo”. Espécie de marco a comemorar o início do extenso obituário arquitetônico da cidade pensada por Pelópidas Silveira, Burle Marx, Antônio Baltar, Miguel Arraes.

No rastro do furacão político e imobiliário jaz a Igreja do Bom Jesus dos Martírios dos Homens de Cor. Dos Homens de Cor. Talvez a menos sutil manifestação do racismo ancestral, disfarçado em teorias sociológicas sobre o “brasileiro cordial”.

Do episódio da Igreja do Bom Jesus, o registro é de outro poeta, Mauro Mota. A dizer que naquele chão continua “a igreja, os querubins, a música dos sinos, os defuntos, 200 anos de procissão na 6ª-feira da 4ª. Semana da Quaresma”.

Da sala da repartição de Orley Mesquita, na Casa da Cultura, observam o poema de Audálio Alves plantado no mural de azulejos, celebrando o martírio de Frei Joaquim do Amor Divino Caneca.

Uma pergunta ocorre:
– Qual o sentido da poesia?

No que era a antiga Casa de Detenção, à beira do rio Capibaribe,
onde antes desaguavam vozes de torturados,
pressentem
o centro do poema.

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