Noroes dez.18 KarinaFreitas

 

 

Entreleitura, em vez de entrevista. No dicionário, palavra inexistente. O neologismo brota da "conversa" com Nuno Félix da Costa, poeta, fotógrafo, psiquiatra. E autor de Pequena voz. Anotações sobre poesia (Cepe Editora, 2018). Navega-se neste livro em que cada página é um porto. Ou ponto interrogador a estimular a busca de uma melhor habitação do mundo. É essa a exigência da poesia. Levar a paragens que acodem quando a tempestade tange do fundo de nós e a palavra pede cais.

A arte do momento, como a fotografia, que também é sua oficina, exige a paciência no aguardar o acontecimento inusitado. O que permite domar o instantâneo da fotografia ou o penoso fabrico do poema?

N.F.C.: Ficamos à espera do poema. Sabemos que surgirá. Mastigar a boca vazia: a palavra não se configura. Sabemos que é assim: partir de uma hipótese ou da extrema necessidade de “nada” se explicitar. Por vezes, a construção é muito difícil. Exige uma solidez que não pertence à vida, mas a uma muralha, a um palácio ou ao júbilo, até, mas que não garante o preenchimento da vida, o fecho da muralha, o fausto de um palácio nem uma razão para o júbilo sequer. É o que se pode dizer do nada de onde surge a poesia.

Nenhuma imagem, pela sua veemência realista, possui o espaço de significações da palavra, como se a própria imprecisão do significar dilatasse como na poesia, a concisão da expressão, como se o desejo frutificasse na sua própria construção e morresse por antecipação quando são explícitas as condições que o saciam.

Digo a poesia ser a boca de Deus – um silêncio intransponível feito de momentos a que nenhuma palavra se aplica, em que tudo pode acontecer e existir ou nada acontecer nem existir além do que o poema invoca.

Então, como para Elias Canetti, são os poetas os guardiães das metamorfoses?

N.F.C.: O poeta ouve com atenção, desdiz e refaz as ataduras das coisas, assim comanda a estabilidade do mundo; porque a poesia garante uma ordem última que nunca se consumará, donde o requisito de limpidez, uma limpidez intransigente, violenta, se necessário.

A poesia, antes de ser um produto cultural, é um processo de alargamento da expressão pela linguagem e, antes, é uma manifestação do homem transcendendo a sua rotina e as suas necessidades, refletindo sobre as questões gerais do sentido e do absurdo, não na perspectiva de um sistema geral como filosofia, mas do valor afetivo e emocional que as coisas tomam dentro de um articulado prático e vivencial implícito.

Onde é possível encontrar a poesia num texto ou como pressentir a sua natureza, quando a escrita se desvela não como ornamento, mas como o “hieróglifo necessário”?

N.F.C.: A natureza da poesia é evidente, mas não explícita: detetamo-la tão nitidamente como a língua em que o poeta se exprime. Num discurso narrativo ou argumentativo ou científico podem existir inclusões poéticas e percebemo-las pelo ritmo, pelas metáforas, pelas figuras; são uma qualidade retórica que não transformam o texto num texto poético (as pregações do padre António Vieira).

A escrita poética é musical e não sequencial, usa preferencialmente os mecanismos do hemisfério direito, e não dos do esquerdo, na fase anterior à coordenação verbal – uma ultrarracionalidade capaz de espreitar o suporte da linguagem, mas não de o expressar fora da poesia.

O romance ou a novela são uma narrativa de entretantos, de vicissitudes da ação em que cada elemento da história se articula numa sequência que tem uma forma naturalista surpreendente ou pouco plausível que seja – a vida no seu natural devir, também nos enche de surpresas. A linguagem da poesia livrou-se do constrangimento naturalista e, sem essa função referencial, projeta-se para uma expressividade focada em zonas inatingíveis.

Tem tido vida longa a expressão de Fernando Pessoa: “Nossa pátria é a língua portuguesa”. A língua é mesmo uma pátria ou a poesia a transcende?

N.F.C.: A poesia é o país do poeta. Não tanto a língua portuguesa como para Fernando Pessoa, nem a literatura portuguesa como para Jorge de Sena, mas o espaço que mais viver promete, onde poderíamos morrer. É uma paisagem placentária, proteomorfa a de uma linguagem ideal, uma valsa visionária que leva o pensamento pelo tempo adentro. Não o Português, em particular – estimável, mas qualquer poeta escreveria em muitas outras línguas se as dominasse desde que lhe trouxesse um país desregulado, com as fronteiras espaciais dos conceitos também abertas de diversos ângulos, de tal modo que a poesia atingiria qualquer lugar cósmico onde a paisagem de uma humanidade ultrapassada existiria, os seus tempos, a sua surdina, as suas vistas largas. O Português, ainda assim, permite muito.

Antes, a poesia carecia do suporte da voz para transmitir epopeias e os movimentos líricos, até que as formas tradicionais se transformaram em prisões e o poeta viu-se obrigado a descobrir novos edifícios onde hospedar seu poema.

N.F.C.: Antes era importante o poema ser memorizável numa cultura de muitos iletrados, a melodia acompanhar o movimento da pessoa, a marcha, o sono, o orgasmo; e seguir a cadência da respiração. Hoje, esses recursos parecem cultismos obsoletos e constrangedores, mas persiste o propósito de a escrita poética ser mais imediatamente persuasiva e mais sedutora que a prosa, já não pela rima, mas pela dança das imagens ou das ideias. Antes a história, o mito, a cultura, a tragédia residiam na poesia – um território onde a linguagem deveria estabilizar; hoje, não é o mundo adquirido que conta; a poesia canta novos mundos que precisam de novas linguagens para serem ditos e são, ainda, belos na sua inexistência.

Uma poesia: cada autor é uma forma própria de fazer as mesmas perguntas.

Como observar o poeta cercado pelos emaranhados do mercado, que tende a expelir muitos textos de qualidade, mas sem apelo para um público cada vez menor de verdadeiros leitores?

N.F.C.: Alguns escritores são produtores de objetos literários. A sua qualidade artística não conflitua necessariamente com a sedução que exerce, mas um propósito de entretenimento conflitua, já que este se define pelo consumo passivo de um produto e se enquadra dentro de uma lógica de indústria cultural com os seus produtores, o seu mercado e os seus consumidores. Esta subordinação ao entretenimento significa o risco de passar ao lado das questões relevantes das artes e da poesia.

 

>> Everardo Norões é escritor, poeta e cronista. É autor de, entre outros, Retábulo de Jerônimo Bosch

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