noroes nov17

 

Numa sexta-feira de março, um amigo lhe trouxe a notícia: um avião Douglas DC-6B, que havia decolado do aeroporto de Arica, no Chile, com destino à Bolívia, despencara nos Andes com 39 pessoas a bordo. O desastre se dera nos lados do Peru, nas proximidades do vulcão Tacora, o mais setentrional do Chile, quase 6 mil metros de altitude. Entre os desaparecidos, um jornalista e escritor brasileiro. Fazia um périplo pela América do Sul, recolhendo informações para uma série de reportagens. A viagem o obrigara a adiar o lançamento de um livro quase pronto, faltava a última revisão. O continente estava em efervescência. As mudanças havidas na ilha de Cuba atraíam a atenção de todos, mesmo de Sartre e Simone de Beauvoir, os intelectuais mais discutidos da época e Kennedy, presidente dos Estados Unidos, lançava programas de “ajuda” como o Aliança para o progresso. No Brasil, o IBAD financiava políticos conservadores para frear mudanças propostas pelo governo Goulart. Colhido pela notícia do acidente, o estudante respirou fundo. Lembrou-se do final do poema de Drummond, A morte no avião. Declamou para si mesmo a última estrofe, que sabia de cor:

(...) Ó brancura, serenidade sob a violência
da morte sem aviso prévio,
cautelosa, não obstante irreprimível aproximação de
um perigo atmosférico,
golpe vibrado no ar, lâmina de vento
no pescoço, raio
choque estrondo fulguração
rolamos pulverizados
caio verticalmente e me transformo em notícia.

Se tivesse recitado em voz alta, com emoção, ninguém teria compreendido. Quem saberia que, poucos meses antes, ele havia conversado com o jornalista e escritor?

O encontro entre os dois não foi no Chile, na Bolívia, ou no Peru, mas no sertão do Nordeste brasileiro. A montanha que os cercava no dia em que se conheceram era bem diferente dos Andes. Uma serra com menos de mil metros de altitude, ferradura azulada dividindo o Ceará e Pernambuco. Em vez do frio dos altiplanos, o calor de quando o tempo adivinha carcarás.

O jornalista e escritor estava de passagem, fazia estudos na região, entrevistando pessoas para desencavar histórias, esmiuçar as bactérias que haviam fermentado naquelas velhas missões de índios, muito antigamente já defendidos por frei Martinho de Nantes. Lugar onde terço e batina conviviam com punhal e bacamarte. Juntava material para o livro que queria publicar antes do fim do ano. Assinava com frequência matérias publicadas em jornais e revistas que o estudante costumava ler, na tentativa de compreender melhor o que a escola não ensinava: as engrenagens perversas que moviam as sociedades.

A casa onde o escritor estava hospedado era modesta, de porta e janela, vizinha à ladeira que romeiros subiam de joelhos pagando promessas ao santo do Juazeiro. O jornalista e escritor estava sentado ao lado do dono da casa, caneta e caderninho à mão. Em torno dele, umas 10 pessoas, as mesmas que eram sempre levadas presas quando alguma coisa contrariava os homens de poder. Como de costume, uma reunião daquelas começava com um “informe”. O estudante estranhou quando o jornalista e escritor contou ter nascido no Ceará. Tinha mais a aparência de um personagem dos contos de Maupassant: magro, elegante, chapéu de massa para driblar o sol e disfarçar a calva que avançava sem pena, bigode, nariz aquilino, olhos claros. E um jeito arguto de quem é capaz de ler o discurso no silêncio do outro. Além disso, a fala mansa, “bem explicada”, entre timbre de professor e locutor de rádio.

Sua carreira começou cedo. Aos 16 anos, no jornal Unitário, em Fortaleza. De família pobre, o pai o orientou a se agarrar aos estudos para não findar como os tios, que tiveram que emigrar para o Amazonas, sina do povo da região. Na capital, fez amizade com intelectuais, Rachel de Queiroz entre eles, escritora premiada pelo O quinze, ela mesma imigrou para o Rio de Janeiro. Quanto partiu para Salvador, Rio de Janeiro, União Soviética. E voltou para o Rio.

A terra era seu laboratório. A questão agrária o levara a afinar os instrumentos da dialética para fortalecer os argumentos do trabalho que estava quase no fim. Não era fácil o que pretendia: desfazer a tese de que o homem era moldado pelo meio, pela geografia. Desmontar a opinião de gente respeitada, como Euclides da Cunha. Afirmar que a chave para decifrar o DNA social da área rural brasileira estava na posse da terra e na maneira como era explorada pelos proprietários.

No caderninho, apontamentos feitos durante a viagem pelo sertão afora mostravam, em letra miúda, cálculos sobre o quanto de uma arroba de algodão cultivada em “meia” cabia ao agricultor: metade da produção para quem fazia o cultivo, a outra para o dono da terra. E o dono da terra, também ele era “obrigado” a vender o algodão à norte-americana Anderson Clayton, empresa detentora do monopólio do mercado exportador do “ouro branco”.

O estudante escutou atento sua descrição sobre a visita ao antigo Sítio Caldeirão, na aba da serra, onde o beato Zé Lourenço implantou uma espécie de comuna primitiva e o trabalho coletivo produziu milagres. Um sistema de irrigação garantia a perenidade das colheitas, o trabalho permanente tirava os trabalhadores da obrigação de cortar a cana para fabrico de rapadura, quase de graça. E também os livrava da aguardente, o anestesiante dos que ficavam sem ter o que fazer na entressafra. Tudo foi destruído por bombas saídas de aviões enviados pelos governantes de então.

Depois do encontro, o estudante regressa à capital. Recorta os jornais amontoados num canto do quarto de pensão. As matérias assinadas pelo jornalista e escritor são colocadas numa pasta, classificadas por data, assunto. Vez por outra, ele passa pela Livraria Imperatriz e pede notícias do livro.

***

No mês de dezembro, o estudante avista na livraria Cangaceiros e fanáticos, a obra póstuma do escritor e jornalista Rui Facó.

Abre ao acaso e lê:

“Num meio em que tudo lhe é adverso podia o homem do campo permanecer inerte, passivo, cruzar os braços diante de uma ordem que se esboroa sobre ele?”

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