Castello Filipe Aca novembro.20

 

Abril de 2020. O horror da pandemia apenas começa. Em meio a ele, me chega pelos correios um livro: Entre ontem e amanhã, romance de Lucas Storni. Dias antes, Lucas me enviara um e-mail muito sincero, muito forte, falando de seu livro. Encarcerado no presente perpétuo da pandemia, emociono-me com suas palavras, mas, logo depois — sou franco — eu as esqueço. A cegueira. A pandemia nos prendeu e nos deixou cegos. Assim eu estava também.

Agora, enfim, abro o livro. Em sua dedicatória, com a aflição de um prisioneiro, Lucas Storni me diz: “Obrigado por receber minhas palavras”. Pois é: encarcerado no presente, eu as recebi, mas não cheguei a elas. Eu as recebi, mas as perdi. Nas grades da pandemia, o mundo me escapa. Neste cárcere — que agora parece perpétuo — minha relação com a realidade se esfarela. Todos somos Leonardo, o protagonista de Entre ontem e amanhã. Todos afundamos em um intervalo. Um abismo.

Só agora, em um impulso, volto ao romance de Lucas. Aos trancos, eu o leio. E está tudo ali. Conforme leio, entendo por que não suportei o livro. Entre ontem e amanhã é a história de um rapaz, Leonardo, que, depois de um acidente, passa a sofrer de uma rara amnésia dupla. Nada mais consegue recordar do passado. Quanto ao futuro, sua mente é incapaz de armazenar informações por mais de um dia. Sem o passado e sem o futuro, resta-lhe um presente contínuo. O presente como cela. Calabouço, gaiola, masmorra. O presente como uma prisão.

Começo a entender por que larguei o livro em alguma de minhas estantes. Eu o tinha folheado. Nesse voo transversal, entendi o suficiente. Ele devassa o que, neste momento, ainda não estou preparado para suportar. Assim é Leonardo: “Vivendo em um hiato, preso em um limbo onde o tempo consegue aparentar não ter qualquer relevância”. Um rapaz para quem a passagem do tempo se apagou. Com um amor abnegado, a avó Vivian o ajuda a registrar seus dias em um caderno. Oferece-se ao neto como a memória que ele já não tem. Mas e quanto ao futuro?

Com paciência, Vivian o leva também para passear pelo condomínio em que vivem. Ajudada por Daniel, seu irmão, ela lhe reapresenta o real — o seu real, agora tremendamente irreal. Nesta viagem através do presente perpétuo, Leonardo anota suas impressões. “Todo mundo que passava naquela rua, que esperava pelos ônibus, todos sabiam o que acontecia e o que iria acontecer, menos eu e o mendigo”, ele escreve. Posso acrescentar: não só Leonardo, eu também. Todos nós, presos nesse presente que não termina, suplicando por alguma luz.

Ainda algemado ao real, Leonardo se aventura pelo presente, disposto a redescobrir o mundo, que agora parece imóvel. O que ele vê o surpreende e o choca. Deviam tê-lo preparado melhor para encarar o que o mundo virou. Mas quem está realmente preparado? O mundo virtual, em particular, o assombra. Descobre que, nesse universo de sombras, as pessoas carregam outras pessoas dentro de si e, conforme a situação que estão vivendo, escolhem qual delas precisam encenar. Um mundo de luzes, em que nos transformamos em atores. Um mundo que é só um palco.

Leonardo começa a entender que, na nova realidade em que vive, certezas se transformam em limitações. “Para o bem ou para o mal, ao se postarem convictas de algo, poucas vezes as pessoas se demonstram cientes do quão profundamente ficam seus pés em uma imutável estagnação”. Entende ainda que, hoje, dizer frases simples como “eu sei disso” ou “é assim que funciona” envolve um grande risco. Afirmar, seja o que for, se torna “uma arrogância insana”.

Sem o passado e sem o futuro, Leonardo precisa ainda lidar com um presente mascarado. Um presente que se ausenta. Diante de fotos antigas que a avó lhe mostra, brechas do passado reaparecem. Frações muito rápidas que lançam luz em pequenas partes do real. Agora, “o rapaz conseguia ter uma vaga noção da pessoa que já foi um dia, o que lhe era suficiente. Quem ocupava seu corpo antes, pelo menos”. O amor da avó, que se oferece como guia, porém, o inquieta. “Você não está presa aqui comigo, está?” A avó nega: “Viver com você é o que me faz acordar todo dia feliz”. Salvo por esse amor incondicional, Leonardo consegue seguir em frente.

O encontro com uma astróloga, Clarice, o leva a relativizar sua condição de prisioneiro. “As pessoas não valorizam o presente, não vivem suas vidas ali, no momento delas”, lhe diz. Diante dos cadernos em que Leonardo anota suas experiências, ela acrescenta: “Sua vida não está aí dentro, ela está aqui fora”. O conselho de Clarice talvez nos ajude, também, a relativizar nossa condição de condenados. Sim, como filhos do passado lançados em direção ao futuro, o presente é, no entanto, tudo o que temos. Todos estamos, sempre, um pouco presos. Mas talvez seja possível transformar esse cárcere em alguma coisa melhor. Ou, pelo menos, menos pior.

Aos poucos, Leonardo aprende a tirar vantagens de sua conexão exclusiva com o presente. “Eu permito as coisas me mudarem, permito o mundo vir e me adaptar àquilo que eu devo ser naquela hora”, diz. Entregue a essa esperança insuficiente, ele, porém, ainda é obrigado a renascer a cada dia. A partir do zero, como se a história, assim como também nós, estivesse emperrada ou quebrada como uma velha vitrola que repete sempre a mesma faixa do disco.

A avó não desiste de prepará-lo para o mundo. A seu lado ele luta e persegue. Do mesmo modo que Leonardo, continuamos a procurar um futuro que, no entanto, se esquiva sempre. Um futuro impenetrável. Ao nosso lado, muitos se dedicam a enxovalhar a história, a desacreditá-la, a negá-la — e, com isso, a apagar o que somos. Com leveza e habilidade, em um estilo quase juvenil, Lucas Storni captura o sentimento de nossos dias. Lançado em 2019, seu livro é uma premonição. Foi em boa hora que eu, enfim, o abri. Há mais de duzentos dias confinado em casa, vivendo em um país que sacoleja sem rumo e se desmonta, encontro no romance de Lucas Storni, como um náufrago em um oceano imenso, algo a que me agarrar.

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