Castello Filipe Aca maio2020

 

 

Estará o humano deixando, aos poucos, de ser humano? A desumanização se torna nosso destino inevitável? Mas, se já não somos humanos, em que nos transformamos? Em torno de nós, chocante, escandaloso, o mundo se deforma e se estraga. A cada fratura, a cada queda, a realidade se torna mais irreconhecível. Na esperança de entender melhor esse mundo que se desfigura, volto-me para a A desumanização, o romance que Valter Hugo Mãe publicou em 2013, lançado aqui pela editora Globo em 2017.

“A fealdade é a sentença e a condenação. Estamos a ela condenados. A sermos desfigurados em todos os sentidos”, medita o pai de Halla, uma garota de doze anos, protagonista do livro. Diante do desastre, a menina só pensa em fugir, embora não saiba para onde. Sente que precisa deixar a Islândia, seu país natal. A ilha vulcânica a que chama de “boca de deus”, mas que “pode ser apenas um ascoroso ralo”. Mas, alerta o pai, nem mesmo a fuga a livrará do desumano. “Quando fugires, minha querida Halla, terás de parecer menos uma pessoa, porque as pessoas estão a acabar.”

Em que monstro estamos nos transformando? Para além do humano, o que há? Poeta envergonhado, o pai entrega à filha, antes da partida, alguns de seus últimos livros. Também os livros tendem a desaparecer. Da poesia e do pensamento pouco restará. Já não percebemos sinais por todos os lados? Governados pela demência, não estamos, desde já, em processo acelerado de desumanização?

Halla tem um duplo, a falecida irmã Sigridur. A morte não chegou a separá-las: “metade viva-morta”, Halla está sempre a dialogar com Sigridur, sua “parte morta-viva”. Postam-se, assim, à beira do abismo. A própria Islândia, lhe diz a irmã morta, é temperamental e imatura, não passa de uma criança mimada. “Tem uma idade geológica pueril. É, no cômputo do mundo, infante.” Talvez por isso, por ser mais inconstante e estar mais exposta, na Islândia sente-se com mais intensidade a desfiguração que se aproxima. A Islândia é a infância do mundo — mas paradoxo: é ali, no nascimento, que as duas bordejam a morte.

Sem suportar a degradação do humano, e antecipando-se ao desastre, Gudmundur, a mãe de Halla, se corta com uma faca. Ao cortar-se, parece, deseja sangrar a tristeza, livrar-se de uma dor insuportável, desfigurar-se ela também. Cortar-se é uma forma de chorar. “Éramos suportáveis apenas pela dimensão espiritual do sofrimento”, medita Halla. Neste mundo que sangra, em que o humano se desmonta, só lhe resta o amor asqueroso de Einar, um rapaz “arrogante e feio, de boca desdentada e escura”. Apega-se, então, ao grande sonho de Sigridur, a morta-viva: “Quando eu for grande, […] quero ser longe”.

Quando escreve seus poemas, o pai de Halla deposita uma última esperança nas palavras. É com o coração já em pedaços que, enfim, constata: “As palavras não são nada. Deviam ser eliminadas. Nada do que possamos dizer alude ao que no mundo é”. Nessas horas, apega-se a uma ideia vaga de deus, “a única coisa que existe sem nome”. Fria e deserta, a Islândia neles acentua o sentimento do vazio das coisas. “Tudo perdera o conteúdo. Estava oco”, Halla constata. Sentimento que se agrava depois da morte da irmã.

A que se apegar em um mundo que perde a consistência e se desmancha? A pequena Islândia aparece nas telas de Jóhannes Kjarval, o grande pintor nacional, um filho de pescador que pintou paisagens distorcidas pela abstração. Aparece, ou desaparece? Uma grande nuvem encobre a realidade. Só nos resta caminhar — como os cegos — às apalpadelas. Deus não teve tempo para a Islândia e “o espetáculo pequenino de nossas vidas”, argumenta Halla. O próprio deus se tornou um conceito, uma noção formal, e também um censor, que já não sopra sua bondade. Retidos no grande vazio, sem referências ou paralelos, sem espelhos ainda que embaçados pelo sangue, perdemos toda a noção do humano. Mas, se já não somos humanos, nos transformamos em que?

Pensa Halla nos fiordes, acessos ao estômago fervente de deus — ao mundo primitivo onde tudo começou. Ovelhas, estúpidas e tontas, despencam pelas paredes dos fiordes, alimentando a fome da Terra. Um filho, que lhe nasceu morto, também será por eles tragado. Nessa Islândia, tudo se passa na esfera do instinto, e talvez essa seja a última linha de resistência. “Os poemas são instintivos. Uma natureza instintiva que quase nos redime.” Não importa a qualidade estética dos poemas que o pai escreve. “Às vezes, um poema acende-se como um candeeiro dentro da cabeça”, e essa luz — imitando a erupção dos vulcões que sustentam o país — deve bastar. Agarrar-se às origens é uma maneira de resistir à desumanização.

Cada vez mais, Halla pensa em fugir. “Era como sair de mim. Se eu não estiver aqui, eu não sou eu.” O desejo de fugir, portanto, é o desejo de se transfigurar. Encontrar novas formas que lhe permitam resistir ao desumano. Em pleno inverno, presos dentro de casa, ela e Einar se consolam com a leitura. Leem, mas não prestam atenção nas histórias, só nas palavras. “As palavras iluminam as coisas”, constata. Na escuridão do desumano, só a luz abre algum caminho. O pai lhe ensinou que os poemas podem ser lugares “nos quais passamos a viver”. Quando tudo se fragmenta e se desfigura, a poesia resta como lugar de salvação. Posto de resistência do humano. Torna-se, desse modo, um país no qual “as pessoas estão acostumadas a se calar”.

Há o momento em que o próprio Einar, apesar da tolice, decide enfrentar a desfiguração. “Somos matéria morrendo. Começarei morrendo pelo coração.” Pensa que, se perde o coração — se abdica do humano —, talvez esse coração possa, pelo menos, se transformar em música. “Talvez, depois de esquecido, sirva de ocarina e possa com ele tocar canções.” Instrumento de sopro, a ocarina fará com que o humano, pelo menos, sobreviva na música. “Quando não existíssemos, estaríamos suficientemente no som.” Pelo mesmo motivo, ao fugir, Halla planeja levar consigo os poemas do pai. Não precisa de muito, “uma única folha, um poema único, sem cópia, irrepetível”. Nele estará guardado – como em uma cápsula do tempo – tudo o que um dia fomos.

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