Castello Filipe Aca

 

A melhor maneira de enfrentar o pessimismo é pensar o pessimismo. Disfarçá-lo, ou negá-lo, é sempre a pior solução. Trato então de procurar em minha biblioteca um livro que me ajude a pensar o pessimismo que nos devasta. Logo esbarro em As palavras de Saramago, organizado por Fernando Gómez Aguilera e editado pela Companhia das Letras em 2010. Uma seleção de trechos de entrevistas concedidas pelo escritor ao longo da vida. Nele, encontro o que busco: na página 137, há um capítulo que se chama justamente Pessimismo. Um caminho, pedregoso, mas longo, se abre à minha frente.

José Saramago se declarava, sem nenhum pudor, um pessimista. “Eu sou um pessimista, creio que nasci em má hora, porque pode-se dizer que sou um pessimista desde sempre.” Contudo, e como todos sabem, Saramago foi, também, um intelectual que nunca se esquivou de enfrentar a dor de seu tempo. Alguns, perplexos, talvez possam perguntar: – Mas ele não era um pessimista? Creio que as duas coisas, pessimismo e amor à vida, não se excluem. Talvez até – contrariando nossos mais arraigados preconceitos – ambas se fortaleçam. 

“Eu sou tão pessimista, que acho que a humanidade não tem remédio. Vamos de desastre em desastre e não aprendemos com os erros”, Saramago disse, em outra entrevista. Ainda assim, esta compulsão ao desastre, ele admite, pode ser enfrentada. Basta o que? Basta agarrar-se à vida. Lamenta Saramago na mesma entrevista: “Para solucionar alguns dos problemas da humanidade, os meios existem e, contudo, não são utilizados”. E por que, se existem, se estão disponíveis, eles não são utilizados? Ao ler as palavras de Saramago, penso imediatamente no filósofo camaronês Achille Mbembe, o mais enfático crítico do que ele chama de “necropolítica”. Mas o que é isto, “necropolítica”? Trata-se de uma política baseada não nos recursos da vida, mas na manipulação abjeta do extermínio e da morte. Uma política que, em nossas circunstâncias sombrias e invertendo as coisas, acredita que só a morte é capaz produzir vida.

A “necropolítica” também é pessimista – também ela considera, como Saramago, que a humanidade não tem remédio. Só que, em vez de investir na vida, ela aposta na morte. Segundo seus defensores e praticantes – que hoje se multiplicam em todo o mundo –, a sociedade está dividida entre “cidadãos” e “vagabundos”. Os “cidadãos” seriam produtivos e propositivos, enquanto os “vagabundos”, em vez disso, não passariam de pilantras e imprestáveis. Para esses defensores da morte, a solução não estaria na construção de caminhos de vida, mas, ao contrário, no extermínio daqueles que eles veem como dejetos. Assim, propagam-se pelo planeta, cada vez mais, “zonas de morte”, nas quais a aniquilação se torna o último recurso da dominação.

Apesar de seu pessimismo crônico, José Saramago, ao contrário, sempre apostou na vida. Na vida e nas soluções que ela é capaz de nos oferecer. “O mal e o remédio estão em nós”, disse Saramago. “A própria espécie humana, que agora nos indigna, se indignou antes e se indignará amanhã.” Não há outra saída senão transformar o pessimismo – que é devastador e é irreversível – em apego à vida. Em vida, e não em destruição. Os indignados continuam a ser pessimistas; contudo, em vez de aceitar a morte como um destino, erguem-se para enfrentá-la. Como? Voltando-se para a vida e apostando tudo na tarefa de existir. 

“Agora vivemos um tempo em que o egoísmo pessoal tapa todos os horizontes”, disse Saramago, o pessimista. “Como podemos ser otimistas diante de um planeta onde as pessoas vivem tão mal, a natureza está sendo destruída e o império dominante é o do dinheiro?” Acontece que, só porque aceitamos o pessimismo e a visão de mundo dolorosa que ele descortina, só por isso, temos a chance de avistar um mundo que se expande e que se encorpa. Pessimista utópico, Saramago disse ainda: “Meu olhar é pessimista, mas esse é o olhar que quer mudar o mundo”. Os conformados e os razoáveis nada querem mudar.

 Reconhece Saramago que, muitas vezes, tudo é uma questão de perspectiva, ou de posição. “Sou dos que dizem este copo está meio vazio, e não este copo está cheio pela metade”. Mesmo com essa visão deprimida do mundo, é possível, ainda assim, reconhecer que existe um copo a ser completado. E é este reconhecimento, mesmo penoso, que pode nos fortalecer. “Este mundo não tem solução. Não merecemos a vida”, ele disse em outra entrevista; contudo, sua vida e seus livros desmentem essas palavras. Desmentem, ou as reviram? Saramago parece nos dizer que, muitas vezes, o reconhecimento da miséria é o único caminho para enfrentá-la. 

Em outra entrevista antiga, ele insiste: “Como se pode ser otimista quando tudo isto é um estendal de sangue e lágrimas? Nem sequer vale a pena que nos ameacem com o inferno, porque inferno já o temos. O inferno é isto”. Contudo, romances fabulosos como Ensaio sobre a cegueira ou O evangelho segundo Jesus Cristo bastam como provas de que, da constatação do inferno, desta compulsão feroz à tristeza e ao desastre, e só porque a aceitou e a encarou, Saramago conseguiu divisar a vida. A morte ficou do lado dos zelosos “cidadãos” que, centrados em si próprios, se agarram a um otimismo de salão, que é incapaz de ver além das janelas de seus quartos. Este otimismo de fachada é, na verdade, a morte que, traiçoeira, se disfarça. Ele é o verdadeiro desastre.

Disse ainda Saramago em outra entrevista: “Gostaria de me encontrar com Voltaire e lhe dizer que ele tinha razão ao ter sua cética e pessimista opinião sobre o gênero humano”. Nunca negou seu desânimo e sua tristeza. Nunca maquiou sua desolação. Entretanto, em vez de a eles se entregar, soube transformá-los em trabalho. Tornou-se, desse modo, um inimigo da resignação e do conformismo. Vista nessa perspectiva, da criação e da superação, a compulsão ao desastre não se torna tão maléfica. A vida anda muito difícil, o mundo parece enlouquecido, a maioria das pessoas guarda a aparência de sonâmbulos. Mas é, ao encarar o desastre, que temos alguma chance de despertar. 

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