Castello jul19 por.Hana Luzia

 

Quando me engajei, no ano de 2008, em uma montagem teatral de Esperando Godot, de Samuel Beckett, dirigida por Flávio Stein, ouvi de alguns amigos sinceros uma advertência. Saberia eu, de fato, o que estava fazendo? Eles se espantavam com minha coragem de me envolver na leitura coletiva de um texto tão melancólico e depressivo, como diziam. Perguntavam-se se era o momento adequado para isso. “Beckett é triste demais, e nossos tempos já são bem duros”, um deles argumentou. As montagens anteriores de Esperando Godot teriam provado que não se pode montar Samuel Beckett sem tocar no insuportável e – para citar o próprio Beckett – no inominável. Por isso, esses amigos se preocupavam comigo. “O mundo de hoje exige ideias mais práticas e mais simples”, outro me disse. Ah, a amizade que, tantas vezes, se parece com a incompreensão!

Meus amigos não estavam sozinhos em sua aflição. Samuel Beckett (1906-1989) é sempre incluído no rol dos grandes pessimistas e dos incorrigíveis melancólicos. As provas disso começariam em sua biografia. Nascido em Dublin, Beckett passou, no fim dos anos 1920, uma temporada em Paris. Lá se fez amigo de James Joyce, de quem foi secretário. De volta à Irlanda, ele tentou uma carreira universitária, mas, com um temperamento introspectivo e disperso, não se adaptou à vida acadêmica. Estabeleceu-se em definitivo em Paris – como um fracassado, ou mesmo um fugitivo, em geral se pensa – no ano de 1938. Talvez ele mesmo, Samuel, pensasse assim. Mas o que isso importa?

Na grande trilogia narrativa que Beckett escreveu no início dos anos 1950 (Molloy e Malone morre, ambos de 1951, e O inominável, de 1953), diz-se ainda, evidenciou-se seu interesse (doentio, talvez) pelos monólogos, circulares e fechados, que ilustram o isolamento e o tédio do homem. De fato, os personagens de Beckett se movem dentro de limites estreitos e experimentam o abismo que separa o homem de seus semelhantes. E se asfixiam numa grande garganta de silêncio, na qual a linguagem se evapora. Daí afirmar que Beckett foi um pessimista vai outro abismo. Ver o mundo como ele é não significa desistir desse mundo. Muitas vezes, não ver é a forma mais rápida de fugir.

O gosto de Beckett pelo silêncio, e também pelas grandes falhas e hiatos, que marcam Esperando Godot, deve ser observado de outra forma. Tanto na prosa, como na dramaturgia, Beckett trata, de fato, do inominável – daquilo que nome algum consegue designar. É da falência das palavras e de seu fracasso primordial que ele faz sua arte. Mas seu olhar sobre o mundo não é pessimista, ou decadente. Ao contrário: se ele escreve para enfrentar impasses, tira disso uma força incomum. Uma irresistível – ainda que precária – vontade de viver.

O pessimismo de Samuel Beckett, para muitos, se estampa na fisionomia que ele ostentou na maturidade. Rosto fino, olhos azuis e aguados como que diluídos em uma tempestade, pele riscada em grossas rugas (como cicatrizes), sobrancelhas em desalinho, nariz em aguilhão, Beckett carregaria na própria face as marcas de um homem que, porque nada mais esperava além da glória literária, seria a própria imagem da decepção. A hoje clássica biografia do escritor assinada por James Knowlson, inédita no Brasil, mostra que existe muito mais sob essa máscara tão pobre. Knowlson realça a imagem dissonante de um Samuel Beckett piadista, com sentimentos fortes e alma calorosa, capaz de debochar do mundo e de retirar do sofrimento um impulso para viver. Ele não foi só um homem que sofria de uma “vertigem metafísica”, embora isso também seja verdade. Insiste-se sempre na vertigem, como que para afastá-lo de nós e enfurná-lo na galeria distante dos “homens especiais”. Talvez dos loucos, ou dos doentes. Mesmo que seja dos gênios...

Lida nessa perspectiva, de um Beckett solitário e sofredor, Esperando Godot seria a prova cabal da inutilidade da espera. Seja Godot um deus (god) ou o que for (quem sabe ele não é o próprio personagem Pozzo?), ele seria um inútil – alguém que gasta seu tempo e sua vida aguardando alguém ou algo que nunca chega. Mas é talvez porque nunca chega, e prolonga a espera ao paroxismo, transformando-a no próprio motor do existir, que a presença/ausência de Godot se torna tão poderosa. Sim, podemos (devemos) ler (e assistir) Godot de outra maneira: a peça não é só um sobrevoo sobre a falta de sentido da vida, ou a falência de existir. É também isso, é claro, mas não se detém aí, pois Beckett não era de desistir por tão pouco. Se Vladimir e Estragon persistem em sua espera, ela já não é um fracasso, ou uma inutilidade – ela é o próprio semblante do real. Vivemos assim, em trânsito e à deriva, aguardando sempre o passo seguinte, e é isso o que nos movimenta. Se alguns aí afundam por falta de coragem, isso pouco diz a respeito das possibilidades do homem.

Beckett não foi um pessimista, ao contrário, ele é um escritor radicalmente centrado em seu tempo. Antes de tudo: um escritor vital. O avançar dos anos arranca Godot da lenda do absurdo e a jogo em nosso colo. Vladimir e Estragon são, por certo, dois homens espremidos e tensos. Mas todos estamos limitados por uma existência curta, recursos instáveis e ideias que quase nunca dão conta do real. E nem por isso Vladimir e Estragon desistem. Não, eles não se apoiam em ilusões, não se salvam através da rebeldia cega ou, ao contrário, da pura negação da realidade. Ao contrário, encaram e examinam, com grande avidez, o mundo que têm. E mais ainda: eles o interrogam, o ridicularizam, o testam, o desafiam. Em uma palavra: eles o vivem.

O mundo em que vivem está além de qualquer síntese. Tudo o que eles têm são pedaços, algumas certezas imprecisas, intuições não confiáveis, breves insights – e um grande fardo de dúvidas. Fardo, ou tesouro? Contudo, esse mundo tão estreito não os leva a renunciar. Ao contrário: ele os leva, sempre, a prosseguir. Os obstáculos não são barreiras que impedem seu avanço. Em vez disso, são pedras e argamassas, os únicos materiais de que dispõem para, às cegas e sem muita certeza de nada, construir não sei se o mundo, mas algo que a ele se assemelha. É nesse construir – inventar – que Vladimir e Estragon vivem e se movimentam. Isso é, numa palavra, o existir.

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