Castello.abr19.Karina Freitas

 

Ano de 1865. Na famosa Passagem, galeria comercial de luxo que ainda hoje resiste no centro de São Petersburgo, Rússia, um certo Ivan Matviéievitch passeia com Ielena Ivânovna, sua esposa. Funcionário graduado, Ivan já está com bilhetes comprados para a Europa, onde passará, por ordem médica, uma temporada de repouso. Em uma das lojas da galeria, dentro de uma tina, exibe-se um imenso crocodilo, recém-chegado à capital. O casal resolve conhecê-lo. “Então isso é um crocodilo!”, exclama Ielena. “E eu que pensei que ele fosse... diferente!”

O proprietário da loja, um alemão, batizou o réptil de Karlchen, isto é, Carlinhos. Porém, o bicho não desperta a mesma ternura em todos os visitantes. “Como é nojento esse crocodilo!”, Ielena desabafa, e, para tranquilizá-la, Ivan, com uma luva, começa a acariciar o focinho do animal. Tudo parece divertido, embora exótico e mesmo perigoso, até que o monstro, exibindo suas mandíbulas, devora Ivan Matviéievitch vivo. Começa pelas pernas, engole-as, regurgita, engole de novo. “Finalmente, numa tragada decisiva, o crocodilo fez entrar em si o meu culto amigo, inteiro, sem qualquer sobra”, relata o narrador. Como um Geppetto dentro de sua baleia, Ivan, ainda vivo, passa a habitar a barriga do réptil.

O que é fantástico e também repulsivo, contudo, logo se transforma em algo normal. “Oh, o meu crocodilo!”, exclama o proprietário, mais preocupado com o predador do que com a vítima. “Ele estava provocando o crocodilo”, reclama, referindo-se ao desaparecido Ivan. “O nosso Carlinhos, o nosso queridíssimo Carlinhos vai morrer!”, enlouquece a mulher do alemão. Já ninguém se preocupa mais com o homem que, depois de engolido, agora está preso para sempre nas tripas de um monstro.

Contudo, imitando o que tantos fazem hoje, o próprio Ivan se torna, ele mesmo, comparsa de seu agressor. Quando Ielena, aos gritos, lhe pergunta se está vivo, ele, com espantosa serenidade, a tranquiliza: “Vivo e com saúde e, graças ao Altíssimo, fui engolido sem qualquer dano”. Apesar do ataque brutal, sente-se sereno, quase aliviado, como se a agressão tivesse sido, na verdade, uma conquista. Aqui – nessa inaceitável reviravolta –, começa a parte mais chocante de O crocodilo, novela que Fiodor Dostoiévski publicou no ano de 1865 e que leio na tradução de Boris Schnaiderman para a Editora 34. Pior que o desastre é a apatia, e também – como fazem os vassalos – a submissão ao agressor. É nesse ponto – em nosso mundo insensível, indiferente, em que agimos, um pouco, como sonâmbulos – que a novela de Dostoiévski ganha surpreendente atualidade.

As ameaças de guerra se multiplicam, migrantes em desespero se afogam nos oceanos, a fome e a miséria se disseminam, o planeta parece, tantas vezes, prestes a explodir; o fanatismo se expande, e o diálogo se torna cada vez mais difícil. Ainda assim, anestesiados, abobalhados, continuamos a seguir nossas vidas medíocres, nossas rotinas vazias, continuamos a encenar o script de nossos bons hábitos. Que outra coisa faz Ivan Matviéievitch senão gozar do próprio sofrimento? Tomando suas dores, e ainda perplexo, o narrador da história pensa em recorrer aos superiores para prestar queixa pela agressão. Mas a entrevista que tem com Timofiéi Siemiônitch, o chefe, mostra-se inútil.

“Quem o mandou entrar no crocodilo?”, repreende Timofiéi, indignado. “Uma pessoa séria, na posse de determinado cargo, que vive em matrimônio legítimo, e de repente... um tal passo!” Pela falta de um precedente, declara-se incapacitado de pensar. A obsessão pelo cálculo contamina o próprio narrador, o amigo de Ivan, que passa a imaginar que vantagens a vítima poderia tirar de seu triste destino. Pensam, quem sabe, “numa missão oficial... para as profundezas do crocodilo”. Além dos ganhos pecuniários, haveria vantagens espirituais, para a ciência e para a filosofia.

Voltando logo depois à loja, o narrador constata que Ivan continua vivo e com saúde. À beira da tina, passa a conversar com o amigo. Ele parece entusiasmado com a ideia de uma missão oficial ao interior do réptil. Encanta-lhe, também, o aumento do número de visitantes que chegam à loja, que agora pagam para ver não apenas um crocodilo, mas um crocodilo que engoliu um homem. Passa a fazer as contas, constata os aspectos vantajosos de sua desgraça. A ideia de lucro se sobrepõe a todas as outras. Resolve então que continuará, até feliz, na barriga do bicho. “Não me aborrecerei!”, promete. Já não precisa de sua viagem de férias. “Somente agora, dispondo de lazer, posso sonhar com a melhoria da sorte de toda a humanidade”. E arremata, cheio de si: “Do crocodilo hão de sair agora a verdade e a luz”. Sente-se designado a um trabalho especial. A desdita se torna seu prêmio.

Revela ao amigo, por fim, um disparate: que, por dentro, o crocodilo é completamente oco. Embora vivo, é tão vazio quanto um monstro de papel. O amigo ainda resiste em aceitar. “Tudo isso são coisas fantásticas, em que mal posso acreditar. Mas será possível, será possível que você pretenda nunca mais jantar?”, pergunta, insistindo em sustentar o prosaico diante do absurdo. “Com que tolices você se preocupa, cabeça fútil e ociosa!”, protesta Ivan. “Eu lhe falo das grandes ideias, e você...” Também aqui o protagonista de Dostoiévski se torna nosso contemporâneo. Já não se interessa pelos aspectos humanos, está dominado pelo cálculo e pela ganância. Além de tudo, mesmo recluso em uma barriga vazia, ele passa a brilhar e a brilhar cada vez mais. As filas se alongam, o interesse aumenta, Ivan é um astro da... zoologia?

Ivan teme, apenas, a agressão dos espíritos críticos, da imprensa, das zombarias. “Tenho medo de que os visitantes levianos, os néscios e invejosos e, de modo geral, os niilistas me tornem alvo de sua chacota.” Teme a crítica. Também para ele, como para tantos homens práticos de hoje, a crítica é não só perigosa, mas perniciosa, e até escandalosa. Enquanto se cega com a fama, a mulher, Ielena, pensa em abandoná-lo. “Quer dizer que ele vai permanecer lá, dentro do crocodilo, e talvez passe a vida toda assim, e eu tenho que esperá-lo aqui?” Também como em nossos dias, os laços amorosos definham. Será que estamos todos, igualmente, no interior de um monstro?

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