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“A literatura é uma empresa de conquista verbal da realidade”, escreveu o argentino Julio Cortázar (1914-1984) em Situação do romance, terceiro capítulo de seu Valise de cronópio, de 1974, traduzido no Brasil pela Editora Perspectiva. O mundo sempre nos escapa, mas a literatura não desiste de persegui-lo. Sua tarefa é apoderar-se do real para lhe emprestar uma direção e um sentido. “Cada livro realiza a redução ao verbal de um fragmento da realidade”, continua Cortázar. O que o leitor tem nas mãos não é a vida, mas uma aproximação da vida. Algo imperfeito, inacabado, insuficiente: o humano.

Insiste Cortázar: “A literatura vai apoderando-se paulatinamente das coisas e de certa forma as subtrai, rouba-as do mundo”. Com essa ocupação do real, chegamos ao que os escritores chamam de temas. Ainda que distorcido, reduzido e deformado, o real está sempre presente nas ficções. Para Cortázar, mais importante do que a história das formas, é a história de suas estratégicas de conquista. Usada há 5 mil anos, a linguagem é um instrumento de luta e de posse, expressa através dos gêneros literários. Não dá, não é justo, tomar a literatura como um conjunto de formas vazias, ainda que belas. Essas formas estão sempre em atrito com o mundo, em estado de tensão, tentando submetê-lo e conquistá-lo.

Penso nas palavras de Cortázar em uma época em que literatura parece ter perdido seu esforço de conquista. Parece ter abdicado do mundo, preferindo o que as estantes de livrarias chamam, sem nenhum rigor, de “fantasia”. Diz-se: “literatura de fantasia”, como se todo o resto fosse apenas um esforço malogrado de escrever. Para o comércio, a fantasia se tornou um gênero da ficção, baseado, sobretudo, em produtos mágicos, místicos e sobrenaturais. Para seus vendedores e propagadores, só ali haveria invenção, o resto seria mera cópia da existência. Isto basta para mostrar como é deficiente a ideia que temos hoje a respeito da literatura. Sim, a literatura tem um pacto com a vida, mas nem por isso descarta a imaginação. Ao contrário: a imaginação é o instrumento de acesso – a escavadeira – com que ela perfura o real.

Do real, nos diz Cortázar, a literatura não deseja qualquer coisa. Ela se empenha “na batalha pelo indivíduo humano, vivo e presente, você e eu, aqui, agora, esta noite, amanhã”. A literatura quer o Um – cada um de nós, em separado. Como faz isso? A ficção começa por nomear as coisas. Ao dar nomes às coisas, as individualiza e humaniza. Bebês em um berçário são apenas bebês em um berçário. Mas, se lhe damos nomes – Maria, João, Antônio – deixam de formar uma massa amorfa e se tornam indivíduos. O mesmo faz a literatura: nomeia para “criar” os homens.

Mas, diz Cortázar, essa nomeação não é absoluta – afinal a língua é arbitrária – e há sempre o momento em que a dúvida se instala. Também nessa hora, a literatura nos serve de meio de interrogação, pois faz o “ajuste dos instrumentos pessoais e verbais”. Confiar nas palavras, sim; mas sempre duvidando delas. Eis o paradoxo sobre o qual a literatura se ergue: afirmação e dúvida são os dois lados da mesma moeda. Pois bem: essa preferência pelo homem, diz Cortázar, “explica a preferência pelo romance como forma predileta de nosso tempo”. O romance tenta esgotar – embora nunca esgote. Tenta sintetizar – embora uma parte sempre fique de fora. Tenta controlar o real – embora o real seja incontrolável.

“Nada é mais importante do que o homem como tema de exploração e conquista”, Cortázar nos diz. Mais ainda, podemos acrescentar: a literatura só tem um sentido quando tem o homem por objeto. Nos séculos XVII e XVIII, o romance tentou “conhecer e apoderar-se do comportamento psicológico humano”. A partir daí, a literatura empenhou-se em se assegurar de que o homem pode chegar a conhecer-se o bastante. Através do Romantismo, com sua análise da subjetividade, esse jogo de apropriação do real se acelerou. Distingue Cortázar: “O romance antigo ensina-nos o que o homem é. Nos começos da era contemporânea, o romance começa a se perguntar a respeito de seu por que e seu para que”.

Afirma Cortázar que a presença inequívoca do romance em nosso tempo se deve ao fato de ser ele “o instrumento verbal necessário para a posse do homem como pessoa, do homem vivendo e sentindo-se viver”. Não é fácil conquistar o sentimento de existir e o romance nos ajuda nisso. A ficção busca a totalidade do homem enquanto pessoa. “Profundamente imoral dentro da escala de valores acadêmicos, o romance supera todo o concebível em matéria de parasitismo, simbiose, roubo com agressão e imposição de personalidade”. No projeto de conquista do humano, o romance não descarta nenhum recurso, nenhuma estratégia. E leva esse projeto até as últimas consequências. Nesse sentido, o ficcionista não pode ter escrúpulos. Tudo, absolutamente tudo, do homem lhe interessa. Todos os métodos e todos os instrumentos – da palavra, que isso fique claro – são válidos para levar adiante sua luta.

Penso nas palavras de Cortázar em um século de romances frios, mecânicos e desumanizados. Romances “para vender”, romances “para distrair”, romances “para dormir”: de todos eles o homem sempre escapa. A literatura precisa recuperar seu desejo de conquista do mundo. Seu projeto de nele interferir, ainda que suavemente. A literatura, que é língua e metáfora, pode sustentar a falta de limites, sem machucar ou golpear ninguém. Não se trata de praticar a violência – hoje, infelizmente, tão disseminada em nosso mundo. Ao contrário: trata-se de usar da força criativa para arrancar o homem de sua apatia e indiferença.

A ficção, nos diz Cortázar, supõe a procura de um ser impuro. Por isso os romances são inesgotáveis: porque o homem é, ele também inesgotável. O humano está sempre contaminado pelas coisas do mundo e, a cada contaminação, toma uma face. Essa impureza é, na verdade, sua riqueza. Daí também as dificuldades enfrentadas pelos romancistas, sempre com o sentimento de que sua escrita não terminará nunca. De fato, também o homem não termina, também ele não comporta uma síntese, ou um resumo, e daí a potência das ficções, que conseguem suportar essa figura interminável.

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