Castello nov18 mjuliamoreira

 

Uma famosa frase de Fiódor Dostoiévski ressoa em nossos ouvidos e, hoje mais que nunca, não deve ser esquecida: “Todos nós saímos do capote de Gogol”. A referência a Nikolai Gogol, o grande pai da literatura russa, e a Akáki Akákievitch, o protagonista de seu célebre relato O capote, de 1842, nos serve não só para pensar a literatura contemporânea, mas, sobretudo, nosso perturbado mundo contemporâneo.

Como os leitores de Gogol já sabem, Akáki é um funcionário de baixa categoria do Estado czarista, conhecido na repartição pública por sua imobilidade e obscuridade. Passa os dias a fazer cópias de documentos, reconhecidos pelo rigor e aplicação. É quase um robô. Akáki tem um velho capote, todo em frangalhos, com qual mal consegue se proteger dos velozes ventos de São Petersburgo. “Akáki Akákievitch não se entregava a nenhum divertimento. Ninguém podia dizer que algum dia já o tivesse visto em alguma festa”. Miséria e tristeza – não só no caso de Akáki, mas até hoje – se misturam e se alimentam. Do mesmo modo, seu capote provocava zombarias entre os colegas. “É preciso dizer que o capote de Akáki Akákievitch era também objeto de galhofas na repartição: tiraram-lhe inclusive o nobre nome de capote, substituindo-o por roupão.”

O abismo entre a pobreza e a riqueza marca o ambiente da Rússia czarista e se infiltra pela gola e pelas mangas bolorentas de Akáki. Algo parecido com esse miserável capote encobre, muito mal, a miséria de hoje. Também o mundo contemporâneo é feito de disfarces e de frágeis consolos. E como debochamos e desprezamos aqueles que andam em farrapos! Pois é desse personagem triste e de seu surrado capote que Gogol retira seu grande relato. Na luta para superar a imagem infeliz e, sobretudo, para se proteger do frio, Akáki, depois de muita luta e de privações, consegue um pequeno dinheiro e convence o alfaiate Pietróvitch a lhe fazer um capote novo. A nova roupa não irá apenas aquecê-lo, mas também lhe devolver a dignidade. Vestindo-a (como a uma fantasia) voltará a existir.

Assim como Akáki pretende esconder a miséria sob o disfarce precário de um capote, nosso mundo contemporâneo esconde, como pode, qualquer sinal da pobreza e da presença trágica dos pobres. Nada disso, desde Gogol, se alterou. Ao contrário: a paixão pelo disfarce e pela maquiagem parece ser uma marca das classes abastadas de nosso século XXI. Para a feiura, os cosméticos e o photoshop. Para a miséria, a negação e a cegueira.

De posse do capote novo, e depois de muita relutância, Akáki aceita, quase à força, o convite para uma reunião social na casa de um colega. Ainda é tudo muito precário, e aqui o próprio narrador não esconde suas incertezas: “O lugar exato em que morava o funcionário que o convidara é coisa que infelizmente não sabemos”, ele admite. Narrar – desde Gogol – se transformou em uma aventura de alto risco, na medida em que a realidade se tornou instável, traiçoeira, e está recoberta por muitas máscaras. Diz ainda o perplexo narrador, de acordo com a tradução de Paulo Bezerra para a Editora 34: “não se pode penetrar na alma de um homem e descobrir tudo o que ele possa ter em mente”. Narrar também é mascarar, narrar também é, de alguma forma, cambalear.

Tarde da noite, atravessando uma praça escura, Akáki é assaltado. Levam-lhe o capote – que é quase tudo o que ele tem. Aflito, ele volta para casa, abalado por tremores. “Akáki saiu triste para o seu quarto, e só quem pode imaginar minimamente a situação de outra pessoa é capaz de julgar como ele passou a noite.” A máscara e o consolo do triste Akáki caíram. Também como nos tempos de hoje, e depois de desistir dos caminhos legais, lhe sugerem que procure certo figurão – uma prótese de autoridade – que, dizem, poderá resolver seu caso. De novo, em meio às trevas que o cercam, o narrador vacila: “Quem era exatamente esse figurão e que posto ocupava é coisa que até hoje estamos por saber”. A franqueza desse narrador indigente contrasta com a onipotência dos narradores de nossa literatura comercial.

No gabinete do figurão, ele se vê frente a frente com uma série de subalternos que, como máquinas de duplicação, imitam uns aos outros. Comenta o narrador, quase em desespero: “Pois é, na Santa Rússia tudo está contaminado pela imitação, cada um arremeda seu chefe e banca o chefe”. A luta pelos pequenos poderes, ontem como hoje, é feroz. Também o figurão encobre sua prepotência com um deficiente teatro: “Era um homem de maneiras e costumes graves, majestosos, mas não complicados”. Sua ostentação de poder mais notória é uma frase que, ainda hoje, os prepotentes gostam de repetir: “Será que o senhor sabe com quem está falando?”

Depois que o figurão o enxota, Akáki retorna mais uma vez para seu quarto. “Como desceu a escada, como tomou a rua – nada disso Akáki Akákievitch chegou a notar. Não sentia os braços nem as pernas. Nunca fora tão fortemente repreendido.” Cai doente. Um médico é chamado, mas não há esperança. Ele morre. “Desapareceu e eclipsou-se um ser que ninguém defendera, que ninguém estimara, por quem ninguém se interessara, que não chamara a atenção de um naturalista”, descreve. O único lampejo de felicidade em sua vida fora o capote perdido. Akáki foi um ninguém, da mesma forma que as favelas, os presídios, as calçadas estão cheias de personagens eliminados pela dor.

Não parece haver solução dentro dos limites da realidade e, por isso, o conto de Gogol toma um rumo fantástico, única saída possível para uma história sem saída. Então, Akáki retorna à Terra como um fantasma e passa a roubar capotes de transeuntes em busca do que perdeu. Visita, por fim, o figurão e, o agarra pela gola; o homem se apavora ao ver o próprio Akáki, “num uniforme velho e surrado”, que está de volta para um acerto de contas. Akaki lhe rouba o capote – vinga-se do desprezo de um homem que o tratara como uma mosca – e desaparece. Em um mundo fechado e sem saída, só o recurso à fantasia, muitas vezes, traz a sensação enganosa de libertação. Sair do capote, deixar as máscaras para trás e enfrentar o real, contudo, é o único caminho.

 

>> José Castello é escritor, jornalista e crítico literário. É autor de, entre outros, Inventário das sombras

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