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A realidade fala. Todo o tempo, sem parar, sem me dar sossego. A realidade é uma voz que se espalha em torno de mim. É tagarela, insistente, incansável. Mais que uma voz: ela é um amontoado de letras, intransigentes, intragáveis, intoleráveis, que formam palavras atrás de palavras e não me deixam descansar. Dizem, denunciam, acusam, protestam, elevam-se. A realidade fala e tem dito coisas terríveis. Ainda mais agora que encontro um espelho em Atiq Rahimi (foto), o escritor afegão nascido em Cabul em 1962, de quem leio A balada do Cálamo (Estação Liberdade).

A realidade anda difícil, mas o que a salva é a letra – é o sentido. A letra que é ela própria, num emaranhado de carne e espírito, de coração e invenção, de sopro e fala. Na página 98 do livro de Rahimi, encontro um capítulo decisivo, que resume tudo o que tento, de modo vacilante, dizer. “Não sou senão uma letra”, o capítulo se chama. Trata-se de uma reflexão sobre o pertencimento. A quem devo minha vida? De onde venho? Onde exatamente estou? Para o escritor afegão, essas perguntas se resumem em uma só: “A que civilização eu pertenço?”

Sim, porque a civilização nada mais é que a letra feita carne. E a resposta que Rahimi nos oferece é ainda mais difícil, embora mais óbvia e também mais amorosa: “A todas, mas sobretudo àquela que me empresta suas letras”. Ecoam as palavras de Pessoa: “Minha pátria é minha língua”. Ou ao contrário? “Minha língua é minha pátria”. Tudo se confunde e se alimenta; sem a língua não há pátria, não há fala, tampouco há o Ser; sem a língua, nada, infelizmente nada.

Resume o afegão: “O que quer que eu faça, aonde quer que eu vá, no que quer que eu me torne, eu sou o que eu escrevo, o que eu leio, o que eu vejo!” Eu sou o que eu escrevo, eu sou essas palavras mesmas que agora aqui anoto, isso – e nada mais – sou eu. Aqui eu me guardo, aqui guardo meu segredo mais antigo, aqui respiro. “E não vejo senão letras”, Rahimi conclui. Tudo é letra, tudo fala, tudo se articula e se expressa. Mesmo o silêncio é uma letra perdida, uma letra – em uma longa caravana de palavras – deixada, há muito, para trás.

Por isso, não adianta, é impossível, não “ter posição”. A letra sempre me dá uma posição, me dispõe de uma maneira, me exibe numa perspectiva, ela sempre me recorta e me faz falar. “Não sei o que dizer”, dizemos tantas vezes, no desespero ou no susto, mas mesmo assim já estamos dizendo. Lembra Rahimi de Roland Barthes, que afirmava sofrer de uma doença, uma terrível doença, que assim resumia: “Ver por todos os lados a linguagem”. Ver a linguagem é ouvi-la falar. Habitar a linguagem, como todos habitamos, é nela ocupar um lugar. Este, e não aquele. Assim, e não de outra maneira. Ser é estar: aqui, ali, acolá, muito longe, ou muito perto. Não há escapatória.
É por isso que também Rahimi vê (como todos nós, se olharmos bem) letras por todos os lados. “Letras nas rochas rebeldes das montanhas. Letras nas águas turvas, nas nuvens errantes, em cada gota de chuva”. Ali onde menos se espera, esbarramos em uma letra e em uma direção. O mundo nos obriga a lê-lo todo o tempo. Somos, antes de tudo, leitores. E, ao ler, nos situamos. Antes mesmo de viver, ou “para viver”, lemos. O olhar da mãe, os seios da mãe, a grande nuvem em torno: a letra está em todo lugar. Não há escapatória.

Continua Rahimi: “Letras na pele da terra, em suas entranhas... Letras, letras, letras...” Ainda somos essa criança que se assustou diante do mundo – desse mundo feito de letras, ainda que indecifráveis – sou eu também, somos todos nós. Sigo as palavras do afegão: “Sim, sou ainda esta criança, infans, que se põe repentinamente e com zelo a aprender, a falar, a ler, a escrever”. Sou (somos) esse infante que balbucia, e é esse gaguejar, essa hesitação constante e atroz, que lhe dá acesso ao mundo e que o tornará homem. Sou “aquele que sempre contempla as letras e brinca com elas”.

Na infância, a letra é jogo – é pura emoção. É uma dança, na qual nos engajamos para respirar e viver. Desde o primeiro “Ah!” que gritamos para mãe, até o “Ah!” vacilante do último suspiro, a letra se embrenha por todos os lados. Acontece que o infante se recusa a se submeter às amarras da letra: gramáticas, morfologias, sintaxes, conjugações, nada disso o interessa. Ele quer a alegria da letra pura, a letra que é música e que não se deixa aprisionar em sentidos fixos. A letra da liberdade. Naquela dança de letras, todos nós nascemos.

Conclui Rahimi, assombrado com as próprias palavras: “Eu nasci do verbo. Religiosamente. Socialmente”. Talvez por isso nos inquietemos com as pessoas que falam demais: elas sofrem da impressão de que as letras podem acabar e por isso devem ser ditas logo. Também por isso nos inquietamos com as pessoas que se recusam a falar: elas falam para dentro e simplesmente não nos deixam ouvir. Por isso – no cotidiano, na política, na arte – o mundo exige de nós que não deixemos de falar. Que não deixemos de ser. Que ocupemos um lugar no banquete da vida.

Não importa se falamos confusamente, ou com clareza; o que menos importa é se somos entendidos, ou não; aliás, o mal-entendido é, em nosso mundo áspero, a regra. Ele nos massacra. As letras são trocadas, amassadas, deturpadas, dizimadas – mas serão, sempre, letras a nos advertir e a nos ensinar. O verbo: estamos presos a ele, somos seus filhos. Mesmo em silêncio absoluto, nosso pensamento se agita e fala. Rahimi: “Por mais que eu tente escapar, dele não posso me desfazer”.

Por isso – atenção – é impossível, é mesmo uma estupidez, desejar “não ter posição”. Sempre, até fisicamente, em alguma posição estamos: sentados, ajoelhados, curvados, de pé, deitados, entortados. Seja como for, estamos em algum lugar e de algum jeito. A palavra é esse lugar. O verbo é uma grande manta sobre a qual rolamos, fugimos, nos encolhemos, mas sempre estamos.

“Eu retorno ao verbo, como para retornar ao meu país de nascimento”, Atiq Rahimi resume. Estamos sempre em posição de retorno. Tudo nos traz de volta ao verbo e às palavras. Nunca escapamos. Prisioneiros da linguagem, é nela que conseguimos, também, nossa liberdade. Só existem homens livres porque existem grilhões a serem rasgados.

 

* José Castello é escritor, jornalista e crítico literário. É autor de, entre outros, Inventário das sombras

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