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Uma imagem caracteriza o nosso século: a do obstáculo. Não são apenas as grandes cidades que se tornaram intransitáveis, ou a vida online que se apresenta como um emaranhado incompreensível de caminhos. Uma série adversa de miudezas, de todos os tipos, atravanca e atrapalha nossos movimentos. Basta uma rápida passada de olhos em nossas agendas. Posso resumir assim: viver se tornou mais difícil. Na era do excesso e da zoeira, atravessamos um imenso salão coberto de cacos de vidro; cheios de horror, pisamos com as pontas dos dedos. O tempo todo pedimos a nós mesmos coragem para prosseguir, coragem para enfrentar, coragem para não desistir. A coragem, sua presença ou ausência, está no centro de nossas atenções.

Mas como medir a coragem? Como saber até onde devemos ir e, ao contrário, a partir de que ponto é melhor, é mais prudente e correto, simplesmente parar? Encontro um esboço de resposta em A incursão, primeira narrativa dos três volumes dos Contos completos de Tolstói, na tradução de Rubens Figueiredo para a Cosac Naify. Já estou na última metade do terceiro volume. Os relatos curtos do russo Leon Tolstói (1828-1910) são fabulosos. As quase 2 mil páginas de ficção, que Rubens traduziu com uma abnegação e uma inspiração assombrosas, apesar da distância de dois séculos, ou por isso, despejam uma luz surpreendente sobre os dias atuais.

Mas volto à coragem. Apenas um dos muitos “contos de guerra” que Tolstói nos deixou, A incursão não subtrai o humano da luta. Ao contrário: vê a guerra, antes de tudo, como uma atividade em que se jogam as esperanças e as ilusões humanas. Vou direto à parte que me interessa. Em pleno front do Cáucaso, o capitão Khlópov, exibindo suas dragonas e seu sabre, rememora a chegada de um voluntário espanhol que, antes de morrer, fez duas campanhas a seu lado. “E ele era corajoso?”, lhe pergunta um soldado. O capitão não vacila em sua resposta: “Deus é testemunha: ia sempre na frente; onde houvesse luta, lá estava ele”. Era um bravo.

Para o combatente espanhol, não parecia existir a dúvida que hoje tanto nos atormenta: até quando lutar, a partir de quando desistir? Onde estão as minhas forças? O que faço com as forças que tenho, ou que penso ter? O soldado que narra a história pergunta ao capitão: “E o que o senhor entende por corajoso?” A resposta é certeira, embora incomum: “Corajoso é aquele que se comporta como deve”. Em outras palavras: para cada um de nós, a coragem tem uma medida. Não existe a coragem absoluta. O conceito de covardia é muito vasto, e injusto, e em consequência insuficiente, para medir nossos atos, ou o limite de nossos atos.

O personagem de Tolstói se lembra, então, do filósofo Platão, que definiu a coragem como o conhecimento do que é preciso e não é preciso temer. As palavras do filósofo em A república seriam aproximadamente estas: “Corajoso é o homem cujo ânimo, incapaz de ser abalado pelo prazer ou pela dor, teme ou despreza os perigos conforme lhe aconselha a razão”. A razão, como se vê, está no centro de tudo. Tudo depende do que ela nos diz. Ao refletir sobre a coragem, refletimos sobre a razão. Define o Houaiss: faculdade de racionar, de compreender – mas também de ponderar e de julgar. Sem ela, nada somos.

Pensa o soldado que as diferenças entre as idéias de Platão e a de seu capitão não são tão grandes quanto parecem. Medita: “A definição do capitão era até mais correta do que a do filósofo grego, porque, se ele pudesse se expressar como Platão, certamente diria que o corajoso é aquele que teme apenas aquilo que é preciso temer, e não o que não é preciso temer”. A coragem, portanto, se distingue do açodamento, da precipitação e também da fúria. Os furiosos, embora pareça o contrário, não são corajosos. Lançam-se às cegas, cometem atos impensados – movidos provavelmente mais pelo medo do que pela coragem.

Tanto o filósofo grego como o personagem de Leon Tolstói esbarram, enfim, na mesma questão: a do limite. O que fazer? O que deixar de fazer? O que, em definitivo, não fazer? Há uma fronteira estridente que separa as diversas opções. Uma fronteira que não está fora de nós, mas, ao contrário, se situa em nosso próprio coração. Uma fronteira delicada: uma fronteira de vidro. Tentando dar um salto sobre esse limite inóspito, largo os contos de Tolstói e recorro (sempre por acaso, sempre movido pelo acaso) à Fragilidade, ensaio do francês Jean-Claude Carrière (1931), que encontro jogado em um canto de minha biblioteca. A edição, da Objetiva, é de 2006.

Escreve Carrière – que, além de escritor ligado ao Surrealismo, já trabalhou como roteirista para Luis Buñuel: “Nossa imperfeição, de início insuspeitada, é dura de engolir quando chega a hora”. Que hora? A hora de decidir, a hora de escolher, a hora de fazer. Prossegue: “Quando a descobrimos, pouco a pouco, nós a dissimulamos como um segredo inconfessável”. Amargo destino humano, que nos leva a esconder justamente aquilo a que devíamos, sempre, nos apegar. Àquele que devia ser nosso inegociável ponto de partida, até porque, de fato, ele é. A descoberta da imperfeição leva ao contato com nossa fragilidade. Mas nós não a suportamos. “Indivíduos e grupos: todos calam sua fraqueza, ou então a travestem sob aparências de força.”

No mundo de hoje, todos querem exibir coragem e força. Ontem, vi um grupo de rapazes fortões que, em plena rua, chutavam um moço talvez até a morte. A multidão se aglomerou para ver – para vibrar, para festejar. Eu estava num circo e, ciente de meus limites, fugi. Senti raiva de mim, mas fugi assim mesmo. De que fugi? Do enfrentamento com a morte. Lembra Carrière que, desde a infância, nos ensinam a olhar para os dois lados antes de atravessar a rua. “Muito cedo, sabemos que, se um carro nos pegar, não é ele que vai se arrebentar.” Um carro, que não passa de um objeto, não corre perigo de morte. “O vidro parece mais frágil do que nós. Mas nós não dizemos que um vaso de vidro pode morrer.”

O horror – o impensável, o limite – está em nossa fragilidade. Mas, no mundo dos esportes violentos e do renascimento do fascismo, a maioria de nós prefere esquecer que é frágil. Escreve Carrière: “O frágil está em perigo, mas o frágil é perigoso. Isso vale para o vidro. E para nós também”. Impossível pensar sobre a coragem sem pensar, no mesmo ato, sobre a fragilidade. Nesse limite tenso entre o desejo (força) e o impossível (fragilidade) fazemos nossas escolhas. Isso não quer dizer que devamos deixar de fazê-las. Ao contrário: isso quer dizer que, só com delicadeza e tato, podemos encontrar, cada um de nós, a própria medida de coragem.

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