Castello1 A

Leio os contos de Tchekhov na tradução de Boris Schnaiderman para a editora 34 (A dama do cachorrinho e outros contos, 1999). Livros – imitando os sonhos mais fantásticos, em que imagens arrastam outras imagens – nos levam sempre a outros livros. Chego então, mais uma vez, a Sem trama e sem final, reunião de pensamentos de Tchekhov organizado por Piero Brunello para a Martins Fontes em 2002. O subtítulo é promissor: 99 conselhos de escrita.

Contudo, a promessa não chega a se cumprir. Como “dar conselhos” num campo, o literário, em que a singularidade comanda? Tchekhov bem que tenta. É preciso tentar – imitando os astrônomos que, diante de um cosmos infinito, buscam alguma explicação para o inexplicável. A lembrança (dos astrônomos) me vem, agora, de um filme, “Nostalgia da luz”, do chileno Patricio Guzman, a que assisti ontem à noite. Filme esplendoroso, que nos leva a constatar – mais uma vez – que estamos sempre destinados ao fracasso, mas nem por isso devemos desistir, pois a beleza não está na vitória, mas na luta.

Perdi-me (a escrita é uma experiência deslizante e nos conduz a destinos imprevistos). Volto a Tchekhov e a seus conselhos desaconselháveis. Enfim, ele tenta, e acompanhar sua luta para encontrar respostas impossíveis me enche de energia. Tchekhov começa pela pergunta clássica: “Por que escrevo?” Brunello fisga a resposta em uma carta ao contista Maksim Górki, datada de 1899. A resposta é inusitada: “Não é de escrever que se espeta o nariz no chão; pelo contrário, escreve-se porque o nariz fica espetado e não dá para seguir adiante”. O chão: para Tchekhov a escrita está sempre conectada à realidade. E, portanto, à experiência. Não é uma simples transcrição da vida – não é “reportagem” – mas, no entanto, não existe sem a ela se ligar.

Na verdade, Tchekhov responde a uma carta de Górki, em que ele tinha dito: “O momento em que espetarei o nariz no chão ainda não está próximo, mas, se fosse amanhã, para mim dá na mesma, eu não tenho medo de nada”. Tchekhov inverte a proposição de Górki: não se escreve para se grudar ao chão, mas porque a ele já se está grudado. A vida (o chão) é anterior e está sempre ali, ele nos mostra.

Também não se deve escrever “nem por fama, nem por dinheiro” – ele nos alerta ainda, e seu conselho devia ser levado em conta pelos escritores de hoje, tão hipnotizados pelo deus Mercado. Não se escreve para o público. Não se escreve para receber elogios. Não se escreve, nem mesmo, para a satisfação pessoal. Escreve-se, ao contrário, porque algo nos leva a isso, e esse algo, mais uma vez, é a própria vida.

É por isso, conclui Tchekhov, que a vontade de escrever se confunde com a vontade de viver. Isso, porém, apenas como ideal. Confessa: “Não tenho vontade de escrever, e além do mais é difícil unir o desejo de viver e o desejo de escrever”. Inevitável lembrar aqui de Clarice, que dizia: “Se eu pudesse, não escreveria”. Algo – o real – no entanto nos empurra. Algo nos agita e se agarra a nossas mãos.

Avanço maravilhado pelas páginas de Tchekhov, o que não significa dizer que o tempo todo concorde com ele e suas idéias. Aconselha por exemplo: “Não escrever para si, mas para o leitor”. Mas como? Afinal, como saber quem é o leitor, esse ser abstrato no qual apenas nos amparamos e através do qual justificamos nossos próprios desejos? Tchekhov é intransigente: “Livrar-se de si mesmo onde quer que seja, não se colocar nos protagonistas do seu romance, renunciar a si próprio nem que seja por meia hora”. Mas – pergunto: como realmente conseguir isso?

Será mesmo possível? Belo ideal (a pureza da ficção) que, no entanto, a realidade desmente. Ainda mais hoje, que vivemos os tempos das contaminações e dos contágios. Na verdade, o que Tchekhov tem é medo – o mesmo medo de que Górki dizia se livrar: “A subjetividade é coisa terrível. Já é ruim pelo fato de desmascarar o pobre autor da cabeça aos pés”. Medo de se mostrar – de exibir as próprias fraquezas, de ostentar o fracasso. Mas, pergunto: isso adianta? Não estamos sempre destinados a nós mesmos?

Tchekhov tem um pensamento fértil que, mesmo em desacordo, nos ajuda a seguir em frente. É um escritor que pensa o tempo todo, que pensa a cada passo. Nada, porém, é gratuito. Nada é “espontâneo”, tudo é trabalhado. Há sempre uma luta e a escrita é o resultado dessa luta contínua. Mas também esse pensamento tem seus limites. “Nada me permita Deus julgar ou falar aquilo que não sei e não entendo”, diz numa carta a Aleksamdr Tchékov.

Também não suportava as conclusões e os pensamentos fechados. Na mesma carta, ele diz: “Pega alguma coisa da vida, de todos os dias, sem trama nem final”. Vivemos na época das tramas mirabolantes, dos grandes thrillers, das histórias impecáveis com seus fechos perfeitos. Histórias em que “tudo se encaixa”. Tudo aquilo que Tchekhov desprezava. Não queria despertar grandes sensações, ou jogar com os nervos de seus leitores. Ao contrário: preferia a lentidão, a meditação e a força das interrupções abruptas. Sabia Tchekhov que a vida nunca se completa: ela é um longo processo que está sempre a se desdobrar e a se transformar. Buscava apenas um pequeno pedaço desse caminho, uma fatia bem pequena, e isso lhe bastava para chegar ao miolo do mundo.

Conhecia a relatividade absoluta das coisas. “Eu vi tudo; portanto a questão agora não o que eu vim, mas como vi”, diz. A realidade é instável e relativa, vem recortada pelo olhar individual, é parcial e muito frágil. Com seus relatos bruscamente interrompidos e que apanham o real pelo meio, Tchekhov largava de lado a onipotência – o “tudo dizer” – e se contentava com as miudezas que tantas vezes desprezamos mas que, no entanto, emprestam o sabor da existência.

Desprezava os grandes temas: “É mais fácil escrever a respeito de Sócrates, que de uma fidalga ou de uma cozinheira”, diz em nova carta. Tchekhov sabia que, para o escritor, todo esforço não passa de uma tentativa. “Publiquei uma tonelada de contos, mas até agora não sei onde reside minha força e minha fraqueza”, diz. Olhar a si mesmo com desconfiança. Tocar a realidade com respeito e temor. Saber, enfim, que o escritor não pode tudo – como, de resto, nenhum homem pode tudo também. E ainda assim não parar, pois a vida pede isso.

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