Castello1

Conheço um poeta, que chamarei de Sr. U., que vive a se lamentar porque seus versos não são lidos. Sonha em se tornar um best seller – gostaria de ser devorado por multidões. Não pode se conformar que seus leitores sejam tão poucos, ainda que abnegados e sinceros. “Escrevo para o lixo”, lamenta-se, sempre que nos falamos. “Não sirvo para nada, tanto esforço e ninguém me reconhece!”

Já sugeri a esse amigo distante e problemático que leia as Páginas íntimas de Konstantínos Kaváfis, o poeta grego nascido em Alexandria (1863-1933). Em Lisboa estão editadas pela Hiena. Limitada a 154 poemas, a obra de Kaváfis se apresenta como um soco a atordoar nossa indiferença; não é por outro motivo que ele é considerado o maior poeta grego moderno. Pois as notas íntimas que nos deixou poderiam consolar muito o Sr. U. – isso se ele, em vez de se queixar, as lesse. E parasse um pouco para pensar no que leu.

Kaváfis perdeu o pai, Iannis, muito cedo, e sua mãe, Hariclia, enfrentou grandes dificuldades para criar os filhos. Arrancada da infância, sua poesia traz a marca desse espírito de luta arcaico, conflito que se agravou por sua condição homossexual, pouco ou quase nada aceita naquele tempo. Anotações de 9 de julho de 1905, notas de um homem já maduro de 42 anos, ajudariam muito o Sr. U., meu lamentoso amigo. Mas cada um lê o que quer, e quando quer, e essa liberdade é o fundamento da leitura.

“Tal como um bom alfaiate faz um terno esplendidamente adaptado ao corpo de uma pessoa (ou talvez duas), e um sobretudo que pode assentar bem a duas ou três, também eu faço poemas que conseguem ajustar-se, to fit, a um caso (talvez dois ou três)”, Kaváfis escreve. A repetição do verbo inglês “to fit” (ajustar-se) é apenas um recurso de ênfase, pois Kaváfis tem consciência das dificuldades levantadas por sua afirmação. Sabe que o paralelo com o trabalho do alfaiate “é algo humilhante” – mas logo trata de se corrigir: “apenas na aparência”. Na verdade, o poeta grego a vê como “feliz e consoladora”. Feliz do poeta que tem dois ou três leitores verdadeiros, daqueles que se entregam, que mergulham e depois emergem transformados, contaminados pelo texto. Assinala Kaváfis – o que muito serve a meu amigo U.: “Se os meus poemas não tiverem uma utilidade geral, tê-la-ão particular. E já não é pouco. Veem assim garantida a sua verdade”.

Um ou dois leitores verdadeiros – desses que se entregam e depois sofrem do texto – bastam para garantir a grandeza de um poema. Desejar muito mais do que isso é, provavelmente, ambicionar a mais doentia das leituras: a dos “leitores medianos”. Aqueles que leem “distraidamente”, ou para se ilustrar, ou para se exibir, ou para choramingar, mas nunca (quase nunca) para se deixarem afetar pelo que leem. Aqueles que leem com os olhos fixados nos lucros, nas vantagens a tirar das palavras e não nas palavras.

Além disso – medita Kaváfis em uma breve anotação do ano de 1904 -, nem o próprio poeta tem garantias a respeito da qualidade do que escreve. Isso só lhe é dado pelo tempo e a grande distância que ele abre (como um desfiladeiro) entre o poeta e seu poema. “Só o tempo faz descobrir os defeitos dos grandes poemas”, anota. Ao serem publicados, ainda que por dois ou três leitores especiais, a primeira reação – a reação máxima – é de uma grande admiração. Só tempos depois vem a fase da decepção, ou pelo menos da suspeita. Nesse momento, o poeta se parece com Emmy Von N., a paciente de Sigmund Freud que, relata o psicanalista, “Não podia estender a mão a ninguém com medo de que ela se transformasse num animal medonho”.

O poeta passa a temer o próprio poema (a própria mão), que já não pode oferecer a leitor algum. Antes disso, contudo, enquanto se encontra inebriado pelos versos que escreveu, o poeta – mas será o caso de U.? – não consegue enxergar em suas palavras sinal algum de fracasso. Até essa sensação de perfeição passar, ou transformar-se em uma outra bem mais saudável (suspeita), “Nem os críticos mais perspicazes conseguem ver-lhe defeitos”, Kaváfis escreve. E conclui: “Tudo isso se deve à curiosa natureza do homem, que só pode julgar se não admira”. Contudo, que relação haverá entre a paixão e o julgamento (a condenação)? Um poeta quer que seus poemas sejam amados, e não julgados – ainda que bem julgados. Essa sensação de encantamento, contudo, está reservada a raros leitores. Sim, o poeta é um alfaiate cuja roupa não serve para qualquer um. Não por elitismo, tampouco porque recuse o afeto que lhe dirigem; mas porque a poesia é, antes de tudo, o reino do singular e só de forma muito íntima se incorpora em alguém.

Em uma terceira anotação, de 20 de junho de 1910, em que se refere a seu poema em processo “O fazedor de ânforas”, que só teve sua versão definitiva no ano de 1921, Kaváfis admite que as “flutuações” definem o trabalho do poeta. “A minha vida passa-se entre flutuações agradáveis, entre projetos de amor – às vezes consumados”. Kaváfis pensa aqui no amor carnal, mas bem que a frase pode ser atribuída também a suas reflexões sobre a poesia. Escreve: “A minha obra passa-se no meu pensamento. E talvez seja isto o que está certo”. A obra é sempre interior, nasce dentro do poeta e só vez por outra – como em uma iluminação – se derrama sobre o papel, convertendo-se em versos.

“A minha obra é como o fazedor de ânforas de que já falei. Dá origem a interpretações diferentes.” Novo pensamento útil para meu amigo U., que deseja uma espécie de padronização da leitura; algum tipo de leitor modelo, que o acolha, reconheça e o legitime. Nada se esgota – leitura alguma chega ao fim. Todo poema fracassa um pouco. Poemas não têm um fim – o poeta, sem piedade, simplesmente o corta. Compara-se Kaváfis: “Trabalho como os Antigos. Escreviam histórias, faziam filosofia, dramas trágico-mitológicos, e tantos eram vítimas do amor, exatamente como eu”. Vítimas do amor, isto é, da turbulência.

Em sua ânfora, o artista luta para modelar a imagem de um jovem formoso, “sensual e nu/ uma perna nua metida na água”. O artista (o poeta), contudo, está sempre a fracassar. Escreve Kaváfis: “Mas foi difícil. Quinze anos ou quase/ haviam passado desde Magnésia e a derrota/ onde ele, soldado, tinha perecido”. A ânfora e o poema, por mais belos que sejam, deixam sempre o real escapar. É justamente essa imperfeição que permite que apenas “um ou dois” consigam de fato chegar até eles. Imperfeição que meu amigo U., sempre cheio de si e querendo mais e mais, não pode, não consegue, não admite aceitar.

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