Autor estreante revela como os seus personagens desejam atirar-se ao mar

O Brasil não conhece o mar paranaense. Nunca molhou os pés nele. Sequer viu fotos de sua carranca enferruscada. Mas ele está lá, bravo, com suas marolas sujas e castanhas, lambido por garoas e ventanias imortais. Não é azul nem verde: reflete a cor das nuvens que o abafam. Tem um tom acinzentado, de incontáveis variações. Sua paleta vai do algodão encardido ao grafite fosco. Mesmo assim, nos feriados, poucos curitibanos deixam de visitá-lo. A capital se esvazia silenciosamente, escoa para um rio cada vez mais volumoso. Durante as últimas festas de fim de ano, até batemos nosso recorde: dois milhões de veranistas se amontoaram no litoral do Paraná. A areia lotada de formigões vermelhos.
Por outro lado, certa fama dos curitibanos é relativamente conhecida país afora. Introspectivos e antipáticos, social e sexualmente reprimidos, nos coube a pior das heranças europeias. Não nos olhamos nos olhos, não nos cumprimentamos nas ruas e nos elevadores. É o que dizem da gente. Talvez por isso não nos interesse divulgar o que realmente ocorre em nossas praias, além do paredão das serras. À beira-mar, somos afinados por um diapasão defeituoso, instrumentos dissonantes numa orquestra de escândalos. Lá, estamos nus e bêbados, sob o mormaço pegajoso, acordados numa região de sonho, estrangeira, mas estranhamente familiar. Amigos, parentes, vizinhos, companheiros de escritório, colegas de escola, madrinhas e compadres, todos salvos, longe da vigilância de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, que nada vê e, bendita cegueira, tudo perdoa. Até o Cristo sobre o morro de Guaratuba dá as costas aos balneários enlouquecidos. Vela, antes, pelo mar sem cor de mar. Piedoso, abdica de sua condição de juiz. Prefere ser pedra pichada.
Me parece que a arte curitibana — não a popular, atávica, ligada à cultura e à religiosidade dos imigrantes ou à influência dos gostos sertanejos — tem muito a ver com essa zona permissiva, esse território de extroversão inconsequente. Quando escrevi os contos de O macaco ornamental, por exemplo, eu tinha, à minha janela, no nono andar de um prédio antigo a duas quadras da Boca Maldita, o vasto mar paranaense, salpicado de banhistas e águas-vivas. No coração submerso de Curitiba.
Não, o meu livro não corre de rédeas soltas. Não há nele um criador embriagado, mas um autor que, apesar de consciente, age sob o efeito de um encantamento comum a seus conterrâneos. Por contaminação, creio que meus personagens também se mostram assim, enfeitiçados, suspensos, presos aos caprichos de uma maré mágica, imóvel e invisível. Incomodados no próprio lar, insatisfeitos, querem se mudar dali a todo custo, atirar-se ao mar e ganhar novos mundos, mas se imaginam confinados a uma torre qualquer, erigida sobre as bases de um ambíguo desejo de permanência. Assim, afogam-se no raso, todos, ou mesmo no seco.
Como se percebe, não sei falar objetivamente sobre algo que, de objetivo, não tem nada. Sendo um autor estreante, me sinto ainda menos seguro ao enumerar meus métodos e rotinas. O que pode ser positivo. De qualquer maneira, posso, sim, sondar minhas intenções. Disso sou capaz. Faço coro, porém, a Cristovão Tezza, que, numa entrevista ao Rascunho, anos antes de O filho eterno, disse que a ficção é a negação por princípio de uma última palavra sobre qualquer coisa. Assim como uma literatura nunca encontrará, no escuro das narrativas, a verdade final sobre nada, um autor também não a dominará jamais. Bendita cegueira, a do escritor.  


Quando sento para escrever, já carrego na cabeça, estruturados do início ao fim, os meus contos. Na verdade, eu os rascunho à mão, num caderno, em meia dúzia de parágrafos. Mais lentamente, vou encapando esse esqueleto com a carne e os músculos da linguagem, num trabalho cuidadoso de modelação. Já meus enredos, eu os resolvo rapidamente. O mesmo se dá com todas as significações pretendidas (as involuntárias, claro, não tenho como controlar, mas sei que estão lá, sempre à disposição dos leitores). Sobre os temas e recursos a que costumo retornar, eu os procuro conscientemente: a preferência pela escrita em primeira pessoa; uma espécie de extravasamento lírico e, ao mesmo tempo, irônico — mas nunca cínico —; e a compulsão pelo desbravamento da memória, pela infância revisitada e reconstruída, pelas questões sexuais e religiosas.
Me toma mais tempo a edição final dos textos, que podem ser muito longos, quase novelescos, como “Caldônia Beach”, ou bastante curtos, de poucas linhas, como “Ingratidão”. Demoro para me dar por satisfeito. Não sofro com isso, pois gosto de escrever e reescrever. Só não gosto de recorrer ao clichê de, ao terminar algo, declarar ter dúvidas a respeito de sua qualidade. Prefiro suspeitar de que, naquilo, há algo de bom. O que é ruim se anuncia aos uivos.


O mar dos curitibanos, enfim, não é o mesmo dos brasileiros. Aqui, o calor, quando se manifesta, é sempre mais infernal que paradisíaco. Nosso naco cinza de oceano, violento e chuvoso, nos reforça uma velha sensação de deslocamento e desconforto. É como se tivéssemos nossas casas eternamente alagadas, invadidas por ele. Comparado ao mar do resto do Brasil, o nosso é quase um banhado. Mas, quando as coisas esquentam, é para lá que vamos. É à sua margem que passamos o verão. E é ilhado por ele que eu escrevo.

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