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Coreografias do desejo e outros voleios na dramaturgia de Grace Passô; a subversão do abusador de mulheres como motivo corriqueiro na literatura; Thiago Mio Salla fala sobre pan-lusitanismo e a recepção do romance de 1930 em Portugal; O olhar, um dispositivo literário: sobre Eneida Maria de Souza (UFMG) e seu "Narrativas impuras", novo livro do Selo Pernambuco/Cepe Editora

"Parto", leitura feita por Grace Passô (Flip 2017)

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José Castello

Everardo Norões

SFbBox by casino froutakia

Botao Vermelho 1 Flavio Pessoa agosto.21

 

Você lê aqui o décimo segundo e último conto da série Botão Vermelho, uma parceria do Pernambuco com o Instituto Serrapilheira que une literatura e ciência para pensar novos mundos. Clique aqui e acesse o editorial da série, escrito pela curadora e editora Carol Almeida, e os onze textos publicados antes.

No conto abaixo, assinado pelo escritor Jeferson Tenório, a nota em vermelho indica informações científicas (no final do texto)

 

***

 

“Contudo há no canavial
oculta fisionomia:
como em pulso de relógio
há possível melodia”
(João Cabral de Melo Neto)



Tudo é no tempo Deus, se o senhor quer saber. Se eu estou aqui agora conversando é poque foi tempo que Deus escolheu. Deus não dorme. Se for da vontade dele eu morrer aqui, cortando cana, eu morro feliz. Eu juro que sou feliz. Disso não tenho dúvidas.

*

Eu trabalho das seis da manhã, até duas da tarde. Depois eu vou para casa descansar. Eu tenho dois filhos, um menino de doze anos e uma menina de nove. No começo eu achava que eu não desistia da vida por causa deles. Tudo isso aqui é muito duro. Mas aí o tempo passa. As crianças vão crescendo. E hoje eu acho que eu não desisto por causa de mim mesmo. Eu trabalho com cana desde meus 12 anos. O canavial já fez casa no meu peito. Eu não sei fazer outra coisa. Eu só sei cortar cana. Esse foi meu destino. Quando eu pego meu facão, eu olho para o canavial e penso: isso aqui é uma guerra. Eu vejo esses pés de cana alto desse jeito e eu imagino que são tudo soldados que eu tenho que derrubar. E é isso que eu faço: eu derrubo soldados.

*

Não, não. Eu não tive tempo para isso não. Repare: Eu já fui para escola, mas eu sentia muito sono. Porque eu já trabalhava no canavial o dia todo e de noite era a aula. Um dia uma professora ficou me perguntando se eu sabia da política do café com leite. Eu disse que só sabia da política da cana. Todo mundo riu de mim. Aí meu pai me disse que livro nenhum ia botar comida na mesa. Acho que na época ele estava certo. Meu pai sabia das coisas. Mas a verdade muda de lado com o tempo porque não desejo isso para os meus filhos, não. Se eu sou feliz aqui, não significa que eles também serão. A felicidade não é uma coisa só. Aqui na Usina todo mundo respeita meu trabalho. Dizem que sou melhor cortador. Eu só agradeço e sigo.

*

Não tem muito estudo isso aqui, não. Mas tem ciência. Repare, a gente mantém o facão afiado. Pega assim de três a quatro canas por vez e corta o mais rente do chão, senão for assim dá prejuízo para a usina. Não pode sobrar cana acima da terra. O sol atrapalha, mas ele faz a parte dele e eu faço a minha. Eu me defendo como posso. Às vezes, quando está muito quente, próximo do meio-dia, eu paro um pouco e converso com ele. Digo ao sol que ele tem razão em fazer calor. É o que a gente precisa para viver. É o que faz as plantas crescerem. Mas eu peço para ele aliviar um pouco, sabe. Peço para ele arder menos nas minhas costas. Às vezes ele me atende. Puxa uma nuvem para perto dele. Aí eu agradeço e sigo.

*

Eu tinha dito para o senhor que eu sei cortar cana. Mas eu também gosto de cantar. Às vezes eu canso um pouco de viver todos os dias a mesma coisa. Então eu me sento no canavial e canto. Eu canto músicas de amor. São as melhores. O senhor já ouviu Saia Rodada? Dominguinhos? Devia ouvir. Eles sabem dizer aquilo que a gente sente. Quando eu canto, eu sou mais alegre e a minha plateia é o canavial. O pessoal que trabalha comigo dizem que tenho uma voz boa. Que poderia até cantar nos bares da cidade.

*

Não senhor, às vezes eu penso que a vida é simples como as plantas. Repare. Uma planta precisa de terra, água e sol. E ela cresce. Vive e cumpre sua missão. Eu acho que se eu viesse numa outra vida, eu vinha como planta. Um dia eu disse isso para o Deocleciano. Ele riu de mim. Disse que não tinha graça nenhuma em ser um vegetal. Onde já se viu? Você é doido. As plantas vivem e nem sabem que estão vivendo, ele disse. Eu fiquei pensativo e depois falei que tem gente que vive assim e que ao contrário também é ruim: viver sabendo que vai morrer no final. Além disso, as plantas não choram. As árvores não choram. Não sofrem. Não precisam estudar para se darem valor elas. Uma árvore dá flor, dá fruto. E ainda dá sombra, que é só uma gentileza dela para gente. Repare: uma árvore nasce para ser árvore. Uma planta nasce para ser planta. Uma cana nasce para ser cana. Eu acho isso uma perfeição, eu disse. Deus sabe o que faz. A vida é simples. Deocleciano continuou dizendo que eu era doido. Mas eu não sou doido. Eu só sou triste, às vezes.

*

Sim, eu disse que sou feliz aqui, mas repare: a tristeza também cabe na felicidade. Eu acho que sou feliz porque eu estou no lugar onde posso estar. Tenho saúde. E gosto da vida. Mas nada garante que eu me canse de tudo. Que não olhe para o mato e pense: meu tempo está passando e ainda estou aqui. A felicidade é fácil quando a gente sabe lidar com a tristeza. 

*

Não sei dizer ao senhor. Mas eu acho que com as pessoas é diferente. Porque a gente nasce e não sabe a missão que a gente tem. Deus não facilita. Ele não chega e diz assim: Clécio, a sua missão é cortar cana. Sua missão é se casar com a Dulcileia e ter dois filhos. Deus não faz isso. Deus é um desafio. Talvez poque se fosse fácil demais a gente não ia gostar de viver. Deus sabe o que faz. Ele manda sinais. E a gente descobre. Eu já quis sair daqui. Já tentei minha vida de cantor. Mas eu acho que essa história não vai ajudar o senhor na sua pesquisa com as plantas.

*

Eu não achei o seu projeto estranho, não. Para mim as plantas sentem o que a gente sente.[nota científica] Mas só que diferente. Eu acho que as plantas não doem. Quando eu as corto e ponho no montinho aqui eu penso: eu estou fazendo um bem a elas. Eu não sou um matador de cana. As canas não morrem. Se transformam. Viram outra coisa. Vão para Usina virar combustível, açúcar, cachaça, ração para bicho. Um dia, quando vi um caminhão partindo e carregado de canas, eu pensei: até as plantas vão para outro lugar e eu não. Eu só permaneço. Mas a vida é assim. A cana nasce, cresce e depois eu derrubo. E ela se transforma. Assim é com as pessoas. A gente nasce, cresce e vive, e depois vem a morte e nos derruba. Daí a gente se transforma. Ou vira cinza ou comida de bicho embaixo da terra.

 

Botao Vermelho 2 Flavio Pessoa agosto.21

 

*

Eu posso contar um pouco se senhor insiste. Eu gosto de cantar aquilo que eu escrevo. Faço uns versinhos de amor. Com alguns eu tenho mais coragem e aí eu mostro para Dulce. Ela sempre elogia. Diz que sou romântico. Eu acredito nela. A Dulce é pessoa em que eu mais acredito na vida. Se a Dulce um dia me dissesse que Deus não existe eu juro para o senhor que eu acreditava nela.

*

Foi assim: um dia o meu compadre severino resolveu gravar um vídeo meu cortando cana e colocou na internet. Para mostrar que eu era rápido. No fim da gravação eu cantei uma música. Mais de mil pessoas viram o vídeo. Ainda está lá se o senhor quiser ver. As pessoas me elogiaram. Disseram que eu era o retrato do Brasil que deu certo. Que trabalho tem. Que só não tem quem não quer. Mas teve outro que disse que isso aqui era trabalho escravo. Que era um absurdo ainda nesse tempo gente cortando cana desse jeito. Eu li e pensei. Não, isso não tá certo não. Isso aqui não é escravidão. Mas aquilo ficou martelando na minha cabeça. Por algum tempo. Um dia eu perguntei para minha amiga Zulmira se ela achava que a gente era escravo. Ela ficou me olhando. Depois disse que conversa é essa, homem. O tempo da escravidão já passou. Vamos se embora trabalhar. Não inventa coisa. O trabalho aqui é duro, mas é bom. Imagina se não tivesse a usina, imagina o que ia ser da gente tudo? Eu dei razão a ela naquele momento. Baixei a cabeça e continuei.

*

Sim, meu vídeo fez sucesso. Chamou a atenção da TV local. Então eles vieram aqui para me entrevistar. Veio o repórter vestido de cortador de cana. Eu achei engraçado porque esses galegos com cara de “bem-nascidos” não se encaixam na roupa de um cortador de cana. O rapaz veio falar comigo achando que eu não tinha reconhecido ele. Me disse que era funcionário novo que precisava de orientações. Eu segui no jogo. Não sou bobo. O sol aquele dia estava muito quente. O repórter vertia água da testa. Ficou perguntando como era o meu trabalho, como era a minha vida. Eu fui contado. Logo depois ele me chamou para sentar com ele no meio do canavial e chamou também um outro homem do jornal. Ligaram a câmera e o repórter “se revelou” para mim.

*

Eu não fiz cara de assombro porque, como eu disse, eu já sabia que era tudo de mentirinha. O repórter pegou o microfone e perguntou se eu estava surpreso em ver ele ali. Eu fui sincero e disse que não, que eu já sabia que era um repórter ali todo o tempo. Nesse momento, o homem pediu para parar a gravação, olhou para mim e disse: escuta rapaz, você tem que mostrar surpresa, isso aqui vai para TV. Eu sou o Orlandino Xique-Xique. Não sou repórter. Sou apresentador do maior programa de auditório de Pernambuco, o Vem com a gente. Você vai ficar famoso, mas para isso você precisa colaborar. A gente faz de novo. Quando eu tirar meu chapéu, você me olha com surpresa e se emociona. Põe a mão no rosto e diz que não acredita que eu estou aqui, pode ser?

*

Bem, eu fiquei olhando para ele. E pensei que essa história de fazer sucesso não era para mim. Eu queria só cantar. Mesmo assim fiz como ele pediu. Fingi surpresa. Botei e mão no rosto e fingi emoção. Depois ele perguntou como era minha vida. Fez uma cara de desolado. Aí eu entendi que ele queria que eu contasse coisas tristes. Foi o que eu fiz, embora eu tivesse coisas alegres para dizer. No final pediu para eu cantar. Eu cantei. Soltei a voz. Dias depois, eu apareci na TV. Reportagem saiu com uma música de fundo para deixar a cena comigo mais triste. O povo daqui até se comoveu. Dias depois, o dono do bar Flor do Sertão veio me procurar, disse que queria me contratar para eu cantar duas vezes por semana. Conversei com a Dulcileia. Ela não gostou. Vida de artista é difícil, ela disse. Mas se é isso que você quer, vai lá. Eu fui.

*

Na primeira noite a casa estava cheia. Quase todo mundo da usina foi me ver. Todo mundo me dava elogio, mas não porque eu cantava, mas porque tinha aparecido na TV. Cantei minhas músicas e fui aplaudido. Me pediram mais uma e eu cantei. No final da noite ainda ganhei dinheiro pelo Show. Cheguei em casa feliz. Contei para Dulcileia como tinha sido. Ela sorriu para mim e disse que eu era o cantor dela.

*

Sim, eu continuei, mas o mais duro era ter que me levantar cedo depois de passar metade da noite no bar, cantando. Um dia, eu me sentei aqui, nesse lugar onde senhor está agora e pensei: Isso aqui não é mais para mim. Não consigo mais cantar e cortar. Na vida a gente tem escolher: fazer versinhos de amor ou trabalhar com facão. Eu queria ficar só com meus versinhos de dia e cantar eles à noite. Fazer versos e cantar era uma outra guerra. Naquele dia fui contar esse meu pensamento para Dulcileia. Na hora do almoço eu disse meu planejamento. Na hora ela não disse nada. Depois encheu os olhos d’água. Perguntei que foi minha flor. Ela disse que estava com medo de tudo dar errado. Que por aqui ela nunca conheceu um cortador de cana que virava Artista. Ela tinha razão em ficar preocupada. Dulcileia sempre tinha razão.

*

Acho que o senhor deve imaginar que minha vida como artista não deu muito certo. De repente, meu vídeo na internet deixou de ser vistos em poucas semanas. As pessoas já não prestavam a atenção quando eu cantava. Deixei de receber meu dinheiro no final da noite porque já não ia quase ninguém. Deocleciano me disse para eu fazer outro vídeo. Mas eu não quis. Porque tem coisas na vida que a gente ainda pode escolher. Então e desisti da vida de artista. Troquei de novo o lápis pelo facão e voltei para essa guerra. Mas veja o senhor: eu não parei com meus versinhos. Eles estão todos aqui dentro guardados comigo. Eu desisti de ser artista, mas não de escrever.

*

Vixi, eu ainda canto sim, porém eu ainda prefiro cantar para o canavial. Quando o vento sopra forte, as plantas vergam, como se tivessem me cumprimentando. É bonito de se ver. Eu acho que gente tem que ser igual às plantas: saber a hora certa de crescer. Cada vez que eu canto, eu cresço. Me torno um pouco dessas canas que envergam e seguem. Acho que agora eu posso dizer que sou feliz e sou triste. Tudo é no tempo de Deus. Será? Não sei. Mas às vezes é. Outras vezes é a gente que decide. Viver é bom, apesar.

 

 

* [nota científica]: Tais como os seres humanos, as plantas possuem relógios biológicos que indicam pra elas qual o melhor momento do dia para preparar suas folhas para  fotossíntese. No Brasil, há uma pesquisa que compara os relógios biológicos de diversas variedades de cana-de-açúcar para entender como essas variedades conseguem ter performances distintas em diferentes plantações.

 

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Jeferson Tenório estreou na literatura com o romance O beijo na parede (2013), teve textos adaptados para o teatro e contos traduzidos para o inglês e o espanhol. Também é autor do livro Estela sem Deus (2018).

 

A pesquisa científica que inspirou essa história é coordenada pelo professor Carlos Hotta, biólogo da USP, que é especialista em plantas e tem doutorado na Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Sua pesquisa investiga o relógio biológico de diferentes variedades de cana-de-açúcar no Brasil para entender se a produtividade dessa é influenciada por esse sistema interno. Assim, se uma cana-de-açúcar é mais doce que outras, por exemplo, pode-se explicar essa diferença por um relógio biológico mais pontual que, consequentemente, levaria a um melhor metabolismo.