Euclides.Sertao mar.19 karina.freitas

 

Sertão é uma palavra carregada de ambiguidade. Não sabemos sua origem. Talvez seja uma contração do aumentativo desertão, e tenha chegado até nós, embarcada na África, durante o século XVII. Mas aclimatou-se bem no Brasil: seu sentido tornou-se combinado e múltiplo. Por muito que se entre pelo Sertão afora, ele ainda mais se prolonga, como se a realidade que a palavra nomeia não tivesse um princípio nem um fim exatos. O Sertão era outro mar ignoto, iria resumir esplendidamente Raimundo Faoro, em seu livro Os donos do poder: a terra firme além da costa, a inevitável solidão em meio a pedras agressivas, o abismo do desconhecido.

Sertão pode indicar a formação de um espaço interno, a fronteira aberta, ou um pedaço da geografia brasileira onde a terra se torna mais árida, o clima é seco, a vegetação escassa. Mas a palavra é igualmente utilizada para apontar uma realidade política: a inexistência de limites, o território do vazio, a ausência de leis, a precariedade dos direitos. É o espaço em que a imaginação cultural brasileira se encontrou com um de seus campos simbólicos mais ricos e os grandes explicadores do Brasil identificaram ali um condicionante histórico e político da formação do país. O fato de que o sentido da palavra Sertão transcende o de uma delimitação espacial precisa possibilitou sua transformação em um enunciado original capaz de considerar a existência de uma continuidade temática e de uma perspectiva original de interpretação do Brasil sempre fincada numa situação de ambivalência. Sertão é, paradoxalmente, o potencial de liberdade e o risco da barbárie – além de ser também uma paisagem fadada a desaparecer.

Levou algum tempo, mas o escritor Euclides da Cunha se encarregou de escancarar para os brasileiros a ideia do que pode ser o “Sertão”. Em 1897, Euclides da Cunha foi enviado como repórter, para o interior da Bahia, encarregado de cobrir para o jornal O Estado de S. Paulo o deslocamento das tropas republicanas durante a quarta e última expedição contra o Arraial de Canudos. Republicano convicto, ele assumiu a reportagem convencido de que a República iria derrotar uma horda desordenada de fanáticos maltrapilhos, acoitados em um povoado miserável – e, ainda por cima, monarquistas. Desembarcou na Bahia certo de que Canudos era a nossa Vendéia, como, aliás, já tinha escrito em matéria anterior publicada pelo jornal – fazia referencia à guerra civil na França, no século XVIII, que opôs os camponeses da Bretanha marchando sob a bandeira branca da monarquia Bourbon, à República em Paris. Euclides da Cunha permaneceu na região durante as três semanas finais do conflito, tendo presenciado o dramático desfecho da guerra, com o massacre dos sertanejos.

Voltou para casa atormentado. Estava cheio de dúvidas e incertezas diante do que havia visto: uma República inegavelmente disposta a eliminar aquele outro e inteiramente diverso habitante do mesmo Brasil. “Era terrivelmente paradoxal”, escreveu incrédulo, “uma pátria que os filhos procuravam armados até os dentes, em som de guerra, despedaçando as suas entranhas a disparos de Krupps, desconhecendo-a de todo, nunca a tendo visto”. Nesse paradoxo, Euclides da Cunha alinhavou sua descoberta e seu principal argumento: a barbárie não estava confinada num recanto desconhecido e esquecido nos confins da Bahia, o litoral não se opunha ao sertão. O mesmo traço de fanatismo que alimentava a oratória delirante do Conselheiro fazia balançar, no peito dos soldados republicanos, os breves e as medalhas religiosas com a efígie de Floriano Peixoto. Pior, no insistente brado com que esses soldados invocavam continuamente a memória de Floriano havia um entusiasmo doentio e fanático análogo ao que os jagunços de Belo Monte utilizavam para saudar o Bom Jesus – “o mal era maior”, intuía Euclides, “não se confinara num recanto da Bahia. Alastrara-se. Rompia nas capitais do litoral”.

Anotou tudo o que viu e ouviu. O repórter descobriu, nos sertões baianos, uma guerra longa e misteriosa, um adversário com enorme disposição para o combate, um refúgio sagrado, uma comunidade autogovernada que oferecia aos seus habitantes melhores condições de vida do que outras regiões do sertão nordestino – deparou-se com um Brasil desconhecido. No impacto da descoberta, Euclides da Cunha trocou de certezas, adotou nova perspectiva e tornou-se um grande escritor. Sua história assumiu um tom de denúncia. Foi muito além da reportagem de guerra: insistiu em revelar o efeito provocado pelas secas na paisagem arruinada do sertão baiano e a devastação do meio ambiente produzida pelas queimadas no semiárido nordestino; reconheceu no mundo sertanejo uma marca do esquecimento secular e coletivo do país.

Euclides da Cunha desenhou na região de Canudos, no nordeste do estado da Bahia, em 1897, um mundo que permanecia inacabado, aquém da história e da geografia da nação republicana. E então, incorporou os elementos que lhe permitiram introduzir na palavra Sertão, a ficção de uma terra mergulhada em tristeza profunda, imersa na ausência de valores do mundo público, nas linhas desviantes do progresso, na irracionalidade dos homens, no choque provocado por uma visão da barbárie possível – um “chão que tumultua, e corre, e foge, e se crispa, e cai, e se alevanta”, anotou.

Mas ele estava apenas começando. Acima de tudo, Sertão é uma imagem do deserto, advertiu. Pode surgir tanto no cenário seco, retorcido e violento do Arraial de Canudos, quanto em meio à solidão e ao abandono produzido pelas grandes massas hídricas existentes na fronteira amazônica do Alto Purus. Também entre os seringais da Amazônia, o Sertão é apreendido como solidão, isolamento e perda, a força primitiva de uma região ainda em trânsito entre natureza e cultura, dominada pela resistência ao moderno e imersa na tradição: “A História não iria até ali”, concluiu Euclides da Cunha. E com essa afirmativa ele traduzia tanto uma representação da República no Brasil com sua abissal dimensão de vazio quanto sua convicção de que, sugada por essa perigosa, mas atraente barbárie, a própria República corria o risco de recuar no tempo e dissolver sua capacidade política de ação em impunidade, selvageria e tragédia.

Na escrita de Euclides da Cunha, o significado de Sertão segue muito além de Canudos. Nomeia uma “paisagem sinistra e desolada”, que se consome sempre antes de se formar plenamente; uma terra sem nome ou história marcada por uma combinação sinistra: isolamento geográfico, povoamento rarefeito, homens errantes, memória perdida e linguagem dispersa. A palavra Sertão conta uma história pouco edificante sobre a República brasileira instalada em 15 de novembro de 1889 – e que se revelou uma forma de governo oligárquica, excludente e sem nenhuma sensibilidade para a questão social. Para Euclides da Cunha, talvez essa seja a história de uma República vazia de compaixão, marcada pela indiferença entre homens e natureza, entre homens e coisas, entre o iluminismo civilizatório, a euforia do progresso técnico e o destino de uma gente que, excluída da cidadania, em Canudos, não se rendeu: “exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento completo (...) caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores e todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados”.

Euclides incluiu na imaginação política do país a consciência sobre a existência dos brasileiros párias – essa gente anônima e insignificante, simples e obscura, que se movimenta, precariamente, no vazio da nação, à mercê de uma República que não os reivindica nunca na condição de cidadãos. São “homens sem plumas”, escreveu quase um século depois, o poeta João Cabral de Melo, habitantes de uma paisagem natural e histórica “onde a fome/estende seus batalhões de secretas/e íntimas formigas”. Uma população que vive isolada de um intenso sentido de História insiste João Cabral, relendo poeticamente o argumento de Euclides da Cunha – a República ainda não chegara até o Sertão. Homens sem plumas, explica o poeta, não tem nome próprio, nem direito à sua personalidade legal de cidadãos, não são protegidos por ela e nem conseguem agir por seu intermédio na cena pública. São vítimas de uma dupla injustiça – a injustiça da urgência da sobrevivência e a injustiça da vergonha da obscuridade.

Mas foi outro escritor, João Guimarães Rosa, quem retomou o argumento de Euclides da Cunha e, no diálogo com ele, logrou obter na palavra Sertão uma expansão de significado. Sertão é o que não se vê. O fundo arcaico projetado sobre uma sociedade primitiva que vive longe do espaço urbano e o que é aparentemente seu avesso: uma cidade brasileira qualquer e todas as outras cidades do país, a que se deixou perder de seus princípios civis e a que já é apenas degradação de seus lugares públicos, a cidade concebida para expressar a modernização e a periferia miserável que fixou seu perfil. Ou, no argumento do próprio Guimarães Rosa: “Sertão é o sem-lugar que dobra sempre mais para adiante, territórios”. Sertão é dobra: nem um nem outro, mas o que se dá entre; não vai a lugar nenhum, refaz-se sempre no meio do caminho. Logo no início da narrativa de Grande sertão: veredas, o jagunço Riobaldo Tatarana, define a palavra com precisão: “Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade”. O mundo onde todas as coisas ainda estão por fazer, e seu avesso, a terra onde o Arraial de Canudos foi massacrado, o rio no qual o seringueiro do Alto Purus se arruína, a história de uma República em que uma grande oportunidade se perdeu irremediavelmente.

Nesse Brasil encharcado de ficção, Sertão é um topos literário, político e histórico que se inicia com Euclides da Cunha. Tornou-se uma perspectiva original de interpretação do Brasil capaz de combinar o encontro da imaginação literária com alguns temas complexos da formação social brasileira: aponta para uma República de formato instável, cujos ideais normativos ainda estão por consolidar-se. Não mudou quase nada. Entre nós, a República segue sendo um arremedo. Mas a palavra Sertão está aqui quase desde sempre. Talvez seja uma boa hora para ler Euclides da Cunha – e pensarmos sobre o que estamos fazendo hoje.

Ou vamos enterrar o nosso vazio republicano em desatento individualismo?

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