estudo especial Borges 70 1

Quem caminha pelo bairro portenho de Constitución, a uma altura incerta da Avenida Juan de Garay, talvez se lembre que ali, e apenas ali, é possível vislumbrar todos os pontos do infinito cosmos. Por exemplo: o geométrico piso de mosaico da antiga Biblioteca Nacional da Rua México, que Borges dirigiu num interstício peronista; um banco branco em Adrogué onde certa noite as mãos do escritor tocaram as de Estela Canto; o número 2135 da Rua Serrano, hoje batizada com seu nome, endereço da família Borges entre 1901 e 1914; um gato tomando sol no sexto andar da Rua Maipu, 994; um tigre-de-bengala no Jardim Zoológico em cujas listras pode-se, quem sabe, decifrar a Escrita do Deus. 

A cidade, como a literatura, é um palimpsesto sendo reescrito geração após geração. Assim, no bar de esquina das ruas Chile e Tacuarí, onde o protagonista de O Zahir tomara uma dose de cana de laranja, agora há um supermercado chinês. E o outrora pacato Bairro de Palermo já é outro, tomado por gringos perambulando por envidraçados escritórios de coworking e cafeterias gourmet que servem machiatto ao invés de cortado, a preço inflacionado. 

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O verão de 1945 está terminando e Jorge Luis Borges escreve O Aleph. A amiga Estela Canto, a quem o conto está dedicado, datilografa o manuscrito e a revista Sur o publica em setembro do mesmo ano. Em 1949, é lançado o livro homônimo, que reúne outros 12 relatos. “O Aleph não é só um acontecimento literário, mas algo transcendental, que de maneira não demasiado remota alude ao plano moral e ao metafísico. O Aleph é uma expressão, um mito, e também, ineludivelmente, um livro destruidor de mitos, entre eles o mito do próprio Borges”, diz a resenha de Estela Canto publicada no número 180 de Sur. Em 1952, a obra é reeditada com a inclusão de quatro novos relatos (Aben Hakam, o Bokari, morto em seu labirinto, Os dois reis  e os dois labirintos, A espera e O homem no umbral). Na nova edição de 1966, Borges inclui o conto A intrusa – talvez experimentando um diálogo com o relato Emma Zunz –, mas o exclui anos depois, mantendo-o em O informe de Brodie

Sebastián Hernaiz, escritor, pesquisador e professor de literatura da Universidade de Buenos Aires, lembra que tal procedimento era comum na política editorial borgiana: cada vez que reeditava um livro, Borges intervinha, corrigia, incluía pós-escritos ou novos finais, “mitigava seus excessos barrocos, limava asperezas e riscava sentimentalismos”, como diz no prólogo de suas obras completas. “À exceção da biografia sobre o poeta Evaristo Carriego e de História da eternidade, Borges não escrevia livros, mas contos breves autônomos que saíam antes na imprensa e depois em coleções. Estava o tempo todo brincando de armar e desarmar livros. Ao mesmo tempo, cada vez que publicava algo, reescrevia a si próprio”, diz. 

O Aleph reúne histórias com implicações filosóficas marcadas por preocupações metafísicas sobre o tempo, o espaço e a realidade. São tramas labirínticas que revelam seu rebuscado sistema de citações, a erudição enciclopédica, a ironia mordaz e, sobretudo, o paradoxo de narrar, por meio do limitado artifício da linguagem, a infinitude do mundo. Variantes do relato policial e releituras da poesia gauchesca e da tradição literária argentina do século XIX são outros eixos pelos quais transitam os contos do volume. 

O escritor e ex-diretor da Biblioteca Nacional Argentina Alberto Manguel conta que estudava no Colégio Nacional de Buenos Aires, quando leu O Aleph pela primeira vez. “Nossa professora de castelhano nos fez ler O imortal, que abre o volume, e o conto me intrigou tanto, que li também os outros. Naquela época, achei extraordinários aqueles jogos com o tempo: todos somos filósofos metafísicos aos 13 anos de idade”. Ao longo de quase meio século, Manguel releu este livro muitas vezes, e diz que para época de sua vida há um conto. “Atualmente leio o final de Emma Zunz como uma descrição da nossa realidade atroz de mentiras políticas e informações falsas: ‘A história era incrível, mas se impôs a todos, porque substancialmente era verdade. Verdadeiro era o tom de Emma Zunz, verdadeiro o pudor, verdadeiro o ódio. Verdadeiro também era o ultraje que sofrera; só eram falsas as circunstâncias, a hora e um ou dois nomes próprios’”, cita.

 

Artifícios congêneres

Dentre os 17 relatos do livro, dois têm parentesco siamês: O Zahir e O Aleph – Borges admite no epílogo a influência em ambos de The cristal egg, conto de H. G. Wells que descreve a descoberta de uma esfera de cristal capaz de espelhar as paisagens e os seres de Marte. Em O Zahir, este objeto mágico teria a forma de uma moeda de 20 centavos que o narrador-protagonista (de nome Borges) recebe como troco de uma dose de cana de laranja num bar de San Telmo após o velório de Teodelina Villar, sua amada. O “Zahir”, que em outro lugar e tempo fora um tigre, um cego, um astrolábio persa, uma bússola, e que na tradição islâmica seria “um dos 99 nomes de Deus”, tem a capacidade de enlouquecer seu proprietário. Já o Aleph teria a forma de uma esfera cintilante de dois ou três centímetros capaz de conter todo o espaço cósmico “sem redução de tamanho”, e que o narrador-protagonista (também de nome Borges) descobre, em decúbito dorsal, no 19º degrau da escada que leva ao porão da casa de Beatriz Viterbo, sua amada também morta. Em ambos os contos, a única forma de se livrar da influência sinistra destes “artifícios congêneres” seria esquecê-los: Borges não faz nada para evitar a demolição da casa onde se encontra o Aleph, e decide “perder” deliberadamente o Zahir, usando-o para pagar outra dose de cana. “Não existe coisa no mundo que não seja germe de um possível Inferno; um rosto, uma palavra, uma bússola, um anúncio de cigarros poderiam enlouquecer uma pessoa, se ela não conseguisse esquecê-los”, diz um trecho de Deutsches requiem, outro conto do livro.

 

“Chego, agora, ao centro
inefável de meu relato”

Retomemos a trama de O Aleph: desde que Beatriz morre em 1929, Borges passa a visitar regularmente seu primo-irmão, Carlos Argentino Daneri, em sua velha casa da Rua Garay. Nesse ritual fúnebre de idolatria à defunta, estreita vínculos com Daneri, que está compondo um pedantesco poema com o fim de versificar toda a redondez da Terra. Daneri pede que Borges lhe consiga um prólogo assinado por Melián Lafinur (insinuando que este teria tido algo com sua Beatriz), mas Borges nada faz, apesar de sua insistência. Daneri revela então, em desespero, que o imóvel da Rua Garay será demolido, e que em seu porão existe um Aleph, sem o qual não poderá concluir sua gesta poética. Ao ver o tal objeto com seus próprios olhos – e, em seu conteúdo infinito, as cartas obscenas de amor entre Beatriz e o primo –, Borges refuta os poderes alephianos e insinua que Daneri está louco. Uma vingança secreta. 

Para além de suas implicações fantásticas, o conto está cheio de autoironias e é também uma crítica contundente às instituições literárias argentinas. Daneri tem o mesmo cargo subalterno que tinha Borges numa “biblioteca ilegível dos arrabaldes do sul” quando o escreveu. E o fato de ser premiado por seu medonho poema épico seria, na verdade, uma autofiguração do conflito vivido pelo próprio escritor, que perdeu o prêmio Nacional de Literatura em 1941 sem receber sequer o voto de seu primo Melián Lafinur, que integrava o júri. 

O antagonismo entre os personagens ilustra, segundo Sebastián Hernaiz, um dos pontos centrais do conto: o embate entre o realismo e o fantástico. “Borges sempre vê o realismo como inimigo em termos literários, porque no mundo da liberdade total se limita a tentar representar a realidade, o que por um lado seria impossível e, por outro, estúpido”. Hernaiz também vê n’O Aleph o “ceticismo essencial” de Borges, uma vez que o conto põe em crise a realidade, o amor, a verdade, o sentido do mundo, a literatura e a linguagem. “Borges destrói as estruturas do pensamento convencional, mina a resolução de qualquer problema, daí a presença de tantos oxímoros e paradoxos em sua obra. Por isso o Pós-modernismo e o Pós-estruturalismo encontram nele ferramentas para pensar e criticar o mundo”, aponta. 

Enumerações heteróclitas

No pós-escrito de março de 1943 incluído ao final do conto, Borges observa que Aleph é a primeira letra do alfabeto da língua sagrada, e que para a cabala judaica significa o Ein Sof, a ilimitada e pura divindade. “O que a eternidade é para o tempo, o Aleph é para o espaço”, escreve em comentário à edição inglesa do livro em 1970. E explica que seu maior problema ao escrever a narrativa seria o que Walt Whitman já havia logrado: construir um catálogo ilimitado de um sem-fim de coisas.

O recurso usado para este procedimento é o que Sylvia Molloy chama em Las letras de Borges de “enumeração heteróclita”, que lista e combina elementos poeticamente aleatórios com base no princípio de que “não há classificação do universo que não seja arbitrária e conjetural”, para citar uma frase de Borges. O mesmo escreve, em Discussões, que “a enumeração é um dos procedimentos poéticos mais antigos, e seu mérito essencial não é a extensão, mas o delicado ajuste verbal, as simpatias e diferenças das palavras”. Assim, quando deve descrever as visões do Aleph, o faz a partir de uma série de enumerações díspares: “vi cachos de uva, neve, tabaco, veios de metal, vapor de água, vi convexos desertos equatoriais e cada um de seus grãos de areia, vi em Inverness uma mulher que não esquecerei...”. (Na versão “engordada” de Pablo Katchadjian, as combinações adquirem humor nonsense extra: “vi o nascimento de cinco cães-salsicha (…), vi um homem comprando um alfajor (…), vi numa linha de montagem um operário deixar passar uma colher disforme, vi tigres brancos, êmbolos, bisontes (...), vi um sapo esmagado por um jipe...”. Katchadjian se propôs a rechear O Aleph com seis mil palavras novas sem excluir nenhuma de Borges, cruzando os dois textos e embaralhando a noção de autoria num jogo bastante borgiano de palimpsesto e ready-made que lhe rendeu um delirante processo da viúva María Kodama, do qual foi absolvido.) 

Em seu longo estudo El orden divino, Viviana Ackerman classifica as enumerações de O Aleph como um dos parágrafos mais potentes da literatura universal: “O verbo ‘vi’ é uma anáfora retórica, uma repetição buscada, estilística, carregada de valor expressivo e que funciona como um enquadramento do olhar de um Borges fascinado. Também escande o fragmento ritmicamente e lhe outorga uma cadência que evoca e invoca a eternidade”, define. Ackerman atenta ainda para a apóstrofe “Vi tua cara”, em que irrompe a segunda pessoa: “o leitor também está dentro do Aleph, a narrativa en abîme nos engoliu”.

Durante anos, Estela Canto guardou o manuscrito de O Aleph que datilografara. Em seu livro de memórias, Borges à contraluz, ela revela ter contado a Borges que pretendia vendê-lo quando ele morresse. “Georgie deu uma gargalhada e disse: ‘caramba, se eu fosse um perfeito cavalheiro entraria agora mesmo no banheiro de cavalheiros e, ao cabo de segundos, se ouviria um disparo!’”. Estela não esperou a morte do autor para vendê-lo por U$S 25.760 num leilão em Londres. A peça, felizmente, foi comprada pela Biblioteca Nacional de Madri, e uma versão fac-similar pode ser consultada na Sala do Tesouro da Biblioteca Nacional Argentina. A julgar pela quantidade de tachados, rasuras, números e símbolos tipográficos na sua “caligrafia de inseto”, nota-se que Borges penou um bocado para construir a sequência das enumerações.  

Cartografias impossíveis

O Aleph é também sobre a insuficiência de se representar as experiências vividas (simultâneas, complexas, totais) por meio do discurso narrativo (arbitrário, limitado, necessariamente sucessivo). O brevíssimo texto Do rigor na ciência, incluído em O fazedor, ilustra o problema a partir da alegoria de um império onde os mapas têm a escala exata das cidades. São perfeitos, mas perderam sua função. “Este paradoxo está por trás de toda a obra de Borges (Pierre Menard, autor do Quixote, O congresso, Funes, o memorioso, A biblioteca de Babel etc.), e O Aleph é uma forma de responder a isso”, afirma Hernaiz. Para ele, a enumeração por elementos de distintos níveis e categorias seria uma forma de evidenciar a impossibilidade de dar ordem ao caos. “Em Borges, para que a representação seja possível, tem de ser inútil”. 

Assim, neste 70º aniversário, escrever sobre O Aleph implicaria em transcrever aqui seu texto integral, citar todos os estudos críticos, resenhas e artigos em todas as línguas, publicados em todos os tempos. Tarefa infinita e inútil, absolutamente impossível no espaço reduzido destas páginas.

Divina Comédia

Em 1977, Borges proferiu sete conferências no Teatro Coliseo de Buenos Aires, posteriormente compiladas no livro Sete noites. Uma delas sobre a Divina Comédia, clássico de Dante Alighieri que lera em versão bilíngue italiano-inglês no trajeto de bonde até a Biblioteca Miguel Cané, no bairro de Boedo, onde trabalhava na época em que escrevera O Aleph. “Nenhum livro me proporcionou emoções estéticas tão intensas. E sou um leitor hedonista; nos livros eu procuro emoção”, disse. Há, de fato, divertidos jogos paródicos entre o conto e a Commedia, desde o nome da musa morta (Beatriz Viterbo x Beatriz Portinari) ao personagem antagonista Carlos Argentino Daneri (há quem leia nele o anagrama DANte alighiERI), da descida ao porão escuro (o inferno?) guiado por um poeta (Daneri x Virgílio) à impossibilidade de se narrar o maravilhamento de suas visões. “Toda linguagem é um alfabeto de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartilham”, diz o narrador do conto, como que aludindo ao peso da tradição. 

Para Alberto Manguel, Borges amava tanto esta obra, que a única forma de lhe prestar homenagem seria criar uma espécie de versão cômica. “A tragédia grega consistia, na era clássica, numa trilogia com a adição de uma peça de humor grotesco chamada de ‘drama satírico’. De alguma maneira, acho que O Aleph é essa quarta peça, uma espécie de nota satírica ao colossal poema de Dante.” 

Sebastián Hernaiz, por outro lado, nota que mais interessante do que atentar para estes vínculos entre os dois textos é a provocação de Borges em colocar um fenômeno estético tão impactante e luminoso como o Aleph em um lugar tão miserável e escuro como o porão de uma casa prestes a ser demolida num bairro portenho degradado. Seria esta uma forma de trazer a altura cultura universal (a Divina Comédia) para este lugar periférico em relação ao cânone (a literatura argentina)? “Isso sim é um contraponto bastante borgiano”, opina Hernaiz. 

Escrever é reescrever

Em Jorge Luis Borges, um escritor na periferia, Beatriz Sarlo defende o autor como “um marginal no centro, um cosmopolita à margem; (...) um escritor que, paradoxalmente, constrói sua originalidade por via da citação, da cópia, da reescrita de textos alheios, porque desde sempre pensa a escrita a partir da leitura e desconfia da possibilidade de representação literária do real”.

De Dante a Cervantes, da Odisseia ao Martín Fierro, da Bíblia Sagrada às mitologias judaicas, nórdicas e pampianas, de Macedonio Fernández às aventuras de Conrad e Stevenson: Borges foi um flâneur literário, assim como também flanou pelos arrabaldes portenhos durante boa parte do século XX. 

“Como nenhum outro escritor, Borges marca as glórias e dificuldades de estar em literatura. A leitura como fonte de escritura. Borges herdava relatos e ao contá-los os tornava novos. Sua escrita, assim como toda a literatura, é lugar de trânsito, de tradução”, disse Sylvia Molloy na conferência Borges e eu, apresentada em 2017 na Biblioteca Nacional Argentina. Na opinião de Manguel, não se pode falar de literatura em língua espanhola sem se referir à narrativa de Borges, aos contos de Ficções e de O Aleph. “Há um antes e um depois de Borges. Mesmo a literatura escrita antes de seu nascimento, hoje nós lemos com uma perspectiva borgiana”. 

A vigência de O Aleph, como de toda a obra do argentino, parece residir na importância de ler os clássicos à luz do nosso tempo, apropriando-nos deles e mantendo azeitados os elos da cadeia literária. Porque não existe literatura sem tradição, mas subvertê-la é preciso. Ler Borges é um exercício de pensamento e uma reinvindicação do trabalho intelectual – algo revolucionário nestes tempos em que o anti-intelectualismo parece se alastrar na sociedade brasileira.

Ler Borges em 2019 é, também, descobrir outro Borges. Assim como é impossível banhar-se duas vezes no mesmo rio, Molloy lembra que é impossível ler o mesmo Borges. “Mas essa impossibilidade, talvez lamentada por alguns (penso nos celebradores, homenageadores de Borges, ansiosos por manter intacta uma monumentalidade monótona), é, na verdade, uma vantagem.”

>> Mariana Sanchez é jornalista e tradutora.

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