Ruddy Pinho artigoAM fev18

 

 

Ruddy Pinho. Talvez você nem conheça esse nome, talvez nem saiba que ela foi das cabeleireiras mais prestigiadas do país, a oficial de primeiras damas, misses e celebridades da TV. Mas o que muito possivelmente você também indevidamente desconhecerá é que foi ela a primeira pessoa trans a publicar um livro no Brasil, Eu, Ruddy (1980), e que de lá para cá, dos 38 livros que se conhecem de autoria trans, sete são só dela, sem contar sua participação em outros dois.

A produção é variadíssima. Inclui três obras de poesia, uma de crônicas, uma de contos e sobretudo as duas autobiografias, seu carro-chefe, uma focando da infância descaradamente viada, anos 1940 e 1950, em Minas Gerais, até os primeiros 10 anos da transição de gênero, já no Rio de Janeiro, década de noventa (Liberdade ainda que profana, 1998), a outra, já plenamente trans, explorando suas vivências a partir da virada do século (Nem tão bela nem tão louca, 2007).

Com exceção desses dois e de In...confidências mineiras e outras histórias (1999), livro de contos premiado pela Biblioteca Nacional, todos os outros vieram à luz antes de Ruddy passar a existir publicamente como mulher trans. E é interessante perceber que, embora ela assine o mesmo nome em todas, permitindo que se vislumbre uma continuidade - e que retroativamente se reivindiquem todas como obras de autoria não só sua, mas também trans -, as duas autobiografias e alguns momentos do livro de contos trazem uma Ruddy distinta daquela que publicou os demais nos anos 1980.

Há duas fases nítidas, portanto, com o In...confidências assumindo papel de transição. Na primeira delas, que engloba não só o já referido livro de poemas Eu, Ruddy, também O sabor do cio (1981, poesia), Quando eu passo batom me embriago (1983, crônica) e Certos movimentos de um coração (1988, poesia), todos em maior ou menor medida autobiográficos, estranha-se logo de cara o gênero masculino com que ela se refere a si própria. Em momento algum alude à sua condição trans ou revela sofrimento por ver-se obrigada a caber dentro de uma identidade que, com os livros posteriores, veremos não ser a sua.

Quem, àquela altura, conheceria palavras capazes de expressar esse embate? Anderson Herzer publicaria em 1982 A queda para o alto sem sequer se dar conta de que seu relato - ao mesmo tempo que denúncia da violência enfrentada por menores em situação de cárcere, objetivo do livro segundo o autor - era a primeira autobiografia escrita por pessoa trans no Brasil. O autor já era tratado no masculino pelas pessoas com quem esteve preso e por quem, fora da FEBEM, não sabia que ele havia nascido com vagina (ou melhor, por quem acreditasse sabê-lo, uma vez que o genital não vem estampado na testa). Mas em momento algum ele chega a se dizer trans e, apesar de se tratar sempre como Anderson, e sempre no masculino, é só nas entrelinhas do texto que se afirma homem.

Com João W. Nery seria diferente, mas ele demoraria ainda dois anos para publicar seu Erro de pessoa: João ou Joana? (1984), essa, sim, a primeira autobiografia conscientemente trans, com um autor que revela conhecer intimamente os debates feitos pela medicina e ciências do seu tempo e que já tinha, inclusive, se submetido a uma série de intervenções cirúrgicas clandestinas para tornar seu corpo legível como um corpo de homem. Um corpo que poderia ter por nome João. Tudo isso explorado em detalhes no livro, em especial o direito (que Nery já entendia ser seu) de se reivindicar homem e de querer ser reconhecido dessa forma.

Ruddy, nessa época, conhecia o termo travesti, mas o via não como identidade e, sim, como o simples vestir-se com roupas femininas, coisa que ela já fazia sem nem precisar de desculpa: “Lá ia eu de travesti, ostentando uma forte mini (saia), pois as pernas sempre foram meu trunfo. Não precisava um motivo grande. Tudo servia pra retirar do armário aquele meio metro de pano, usar botas longas e uma peruca loura, quase sempre”. E aqui ela está se referindo à sua rotina de vida nos anos 1960!

No entanto, a tranquilidade e segurança que se revelam nesse e em outros fragmentos, assim como no provocativo título do livro, Quando eu passo batom me embriago, e na própria crônica que lhe carrega o nome (em que ela descreve o passo a passo da construção das suas personagens femininas e revela a excitação que isso lhe causava: “Me emociona, eu tremo, os lábios, as mãos também. Meus olhos faíscam”, mascaram também as angústias que já atravessavam sua existência. O que se vê, por exemplo, quando ela reflete sobre os significados desse travestir-se: “(Quando me visto de mulher) Ao mesmo tempo homenageio e critico terrivelmente o que há de feminino em mim. Uma crítica também às mulheres, à idolatria e ao próprio macho, que também tenho em mim e que, nessas horas, esquece que também tenho pau entre as pernas e que funciona”.

Algumas dessas crônicas seriam reaproveitadas, com leves alterações, na sua obra maior, Liberdade ainda que profana, mas esse tom autoconfiante e mesmo as frequentes pontuações elitistas, preconceituosas que se deixam notar ao longo do texto (classe social e beleza padrão, talvez tornando-se a blindagem de que, àquele momento, ela precisava para forjar seu direito de existir bicha, transviada), tornam óbvia a procedência espúria desse material, não mais compatível com a Ruddy que entraria em cena depois da transição de gênero.

Os poemas já se mostram mais ariscos a aproximações, mais insossos também. Falam de amor, solidão, revolta, desejo de liberdade, mas de forma bastante convencional, exalando aqui e ali um erotismo velado, pudico, que evita cuidadosamente o vocabulário das ruas e do meretrício (vocabulário que a autora conhecia tão bem e que comparece em praticamente toda a sua obra em prosa). Os casos mais felizes surgem quando Ruddy resolve escancarar esse erotismo (ou, talvez, homoerotismo, uma vez que remetem apenas ao universo masculino) e trazer versos como, por exemplo, os do poema que abre O sabor do cio: “inquietante roçar de corpos / nas filas, nas conduções, / olhares famintos se confundem / entre a fome e o desejo / (...) nos volumes dos sexos / em roupas coladas / sugerindo prazer”.

Sua prosa é bem menos comportada do que isso e também mais verdadeira, coisa que já se notava em Quando eu passo batom me embriago, mas que se intensificará nas duas autobiografias. In...confidências mineiras e outras histórias, livro de contos que, por ser uma recolha de textos de épocas variadas, trato aqui como obra de transição entre as duas fases da autora, trará na voz narrativa bastante desse ar de superioridade, não raro resvalando em discursos elitistas e mesmo machistas - e só interessará em poucos momentos, em especial ao refletir sobre sua escrita e discutir o mal-estar que o lançamento de Liberdade ainda que profana causara no ano anterior.

Difícil falar em poucas linhas sobre este livro, sua obra-prima, a meu ver. Ali, vamos encontrar uma personagem muito mais complexa do que as demais obras apresentavam. E mais: ali veremos pela primeira vez referências à ditadura, à prostituição e à AIDS surgirem em seus textos. Não que essas referências fossem obrigatórias, incontornáveis, mas difícil imaginar uma mulher trans ou travesti que, vivendo como cabeleireira da elite carioca desde 1965, não tivesse o que dizer sobre essas palavras. E ela tinha, e muito. Mas não apenas sobre elas.

O texto começa encenando seu parto, com a parteira incrédula diante de um bebê que, tendo nascido com pênis, parecia em verdade menina. “Naquele dia começava a minha própria guerra pela identidade sexual, pois uma dúvida constante nascera, uma dúvida minha e de todos”, diz a autora, afirmando em seguida: “Ninguém nunca acreditou que eu fosse homem, e ninguém acredita que eu seja mulher”. Importante apontar que a partir de aagora qualquer remissão que fizer a si mesma se dará sempre no feminino, mesmo nesses momentos mais recuados de sua história.

E esse corpo que não cabia em padrões, corpo do qual a sociedade dizia temer e querer distância (nos anos 1970, em São Paulo, o delegado Guido Fonseca escreveria, em seus inquéritos sobre as travestis que exerciam a prostituição na Boca do Lixo: “Sempre que possível, as sindicâncias serão ilustradas com fotografias desses pervertidos em trajes femininos que estiverem usando na ocasião, para que MM. Juízes possam avaliar sua nocividade”), era também o corpo que parecia exalar desejo e convidar, na sombra, homens tanto adultos quanto adolescentes a investidas sexuais.

Segue-se então um rol de descrições de assédio e abuso sexual na infância e adolescência de Ruddy, incluindo aí experiências de exploração sexual (não se pode chamar isso de prostituição: trata-se aqui de um crime, ela sendo sempre a vítima, não da profissão reconhecida pelo Ministério do Trabalho e que tão-só pessoas adultas podem exercer). Experiências com o cárcere foram várias (outro tema recorrente nas narrativas trans), até que um delegado, por conta do alvoroço que seu corpo causava entre os presos,  a proibiu de ser presa. Mas o que de fato interrompeu a sequência de estupros e violências sofridas nas mãos de policiais, assim como de detenções para que servisse de faxineira em delegacias e quartéis, foi o fato de Ruddy ter se tornado cabeleireira oficial da primeira-dama no governo Médici (1969-1974).

A epidemia de HIV/AIDS dos anos 1980 e 1990 também dá as caras na obra, mostrando que o corpo de Ruddy, só por ser como é, também comportava a narrativa. Da tuberculose que teve às marcas deixadas em seu rosto pela depilação a laser - qualquer motivo ínfimo era suficiente para que desconfiassem que ela era portadora do HIV. Perda de clientes e amigos, época de dificuldades, mas também de libertação (o candomblé, aí o começo efetivo da sua transição de gênero, momento em que a autora decide “ajustar o corpo à alma”, já que o oposto não funcionara. Momento também em que ela encontra forças para lidar com sua dependência em cocaína), foi aí também que Ruddy descobriu com quem poderia contar e que poderia relatar sua história de outra maneira.

O compromisso com a verdade, uma verdade que discrepa do tom das demais obras, também, à sua maneira, verdadeiras, choca e, como visto no começo de In...confidências, trouxe inconvenientes à autora. As combinações de palavras que ela forjou para dar conta de inscrever, no papel sua história, sua tomada de consciência, a luta para poder libertar-se das amarras que lhe impuseram ao nascer, tudo faz do livro um marco para pensarmos não somente a trajetória de Ruddy, mas sobretudo a da sociedade em que ela se concebeu.

Ruddy fala de si, mas, ao falar de si, fala também do que não é ela, do que não é trans, e eis o maior valor de sua escrita. Seu último livro publicado, Nem tão bela nem tão louca (2007), continuará essa linha de reflexões, mas num tom bem mais moderado, não tão disposta a expor-se como na primeira autobiografia. A ficção, já na organização do livro em três partes à Nelson Rodrigues (memória / fantasia / realidade), mostra suas garras de maneira explícita, recurso bastante útil para dar um ar de dúvida aos relatos.

A maior parte do foco aqui serão seus dramas de classe média (a amiga pão-dura, a viagem desconfortável de carro de Paris a Roma, a dificuldade em conseguir um visto para os EUA, o ar condicionado que pifou, suas incontáveis viagens, etc). Mas uma das provocações que ela insinua já no título, e que será desdobrada ao final da obra, merece destaque: o fato de “bela” e “louca” serem duas das palavras que ela mais ouviu desde que passou a existir como mulher trans.

“Bela”, ainda que parte considerável dos homens lhe diga isso, só consiga dizê-lo à sombra, sem que ninguém mais ouça, me faz pensar nos sentidos dessa beleza transgressora, ameaçadora e livre em relação à beleza oficial, impositiva, colonizante. Já “louca”, numa cultura que cria homens para sentirem desejo e abusarem de seu corpo insubmisso desde a infância... Bem, o fato de imputarem a palavra “louca” a ela, a todas nós, pessoas trans, e não ao que nos circunda, o que isso dirá dessa sociedade?

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