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No clássico A psicologia de massas do fascismo, escrito em 1933 – portanto, no processo de ascensão do nazismo na Alemanha –, Wilhelm Reich perguntava-se por que, até então, não se haviam estudado as razões pelas quais, há milênios, as pessoas aceitam a exploração, a humilhação, a escravidão. Não se trata, naturalmente, de indagar por que se submetem contra a vontade a uma força mais poderosa, mas de saber por que aceitam a dominação, a ponto de naturalizá-la. Mais ainda: por que participam ativamente do processo que resultará na própria submissão.

É uma questão que não pode ser respondida apenas com a abordagem tradicional sobre o poder da ideologia. Ou melhor: é uma questão que exige articular essa abordagem a algo mais profundo, que são as estruturas psicológicas das pessoas numa determinada época. Ao estudar o fenômeno do fascismo, Reich observou que ele só poderia prosperar num ambiente social e psicológico receptivo àquele tipo de propaganda, e que expressava a mentalidade do “Zé Ninguém”, um ser subjugado, sedento de autoridade e, ao mesmo tempo, revoltado. Assinalou a habilidade de Hitler em manejar as emoções desse público, através da tática – expressa no Mein Kampf – de evitar ao máximo uma argumentação objetiva: o fundamental era explorar frustrações e ressentimentos e martelar o grande objetivo final como recompensa. Precisamente, aliás, o que fez Donald Trump quase um século depois, ao prometer “make America great again”, e ganhar a Casa Branca.

A disposição de acreditar no que nos é conveniente e a enxergar a realidade da maneira como ela se nos apresenta imediatamente é tão antiga quanto a história da humanidade, ou o mito da caverna não existiria. Perguntar por que acreditamos no que acreditamos, perceber a força do autoengano é o ponto de partida para tentarmos entender e buscar superar a nossa tendência a viver num mundo feito de sombras. Dependendo da qualidade da nossa formação e da informação que recebemos, estaremos mais ou menos habilitados para o exercício dessa crítica. Pois, como Laerte sintetizou numa de suas notáveis charges, “em terra de cego ninguém se importa se o rei está nu”. A quem interessa produzir essa cegueira?

O Brasil é um país em que a maioria da população tem baixa escolaridade e se informa basicamente pela TV, pelo rádio e pela internet, esse ambiente que não apenas radicaliza a mistura de entretenimento e informação, mas promove a circulação ininterrupta de informações falsas e verdadeiras, que chegam a confundir mesmo quem tem formação adequada para distingui-las. As redes sociais poderiam ser um espaço de debate e esclarecimento, mas tendem a reproduzir guetos de autoconvencimento, num contexto social de rejeição ao diálogo. Sobretudo quando são operadas por certos movimentos organizados, interessados em instrumentalizá-las para atingir seus objetivos.

Produzindo o golpe

Jornais sempre foram um campo de disputa ideológica – negá-lo, aliás, faz parte desse jogo –, e é exatamente isso que justifica a luta pela pluralidade de títulos: porque fatos sempre terão distintas interpretações, e isso faz toda a diferença. Em nome do interesse público, jornais devem sempre ser críticos ao governo, o que é muito diferente de fazer-lhe oposição – algo explicitamente assumido em 2010, numa aparentemente banal declaração da então presidente da Associação Nacional de Jornais, Judith Brito, a respeito do papel da imprensa diante da fragilidade da oposição parlamentar.

O papel da mídia hegemônica brasileira no processo que nos levou ao golpe já foi exaustivamente exposto em inúmeras publicações à contracorrente, mas é preciso reiterar o trabalho sistemático de produção da ignorância e do cultivo do ódio, que estimula comportamentos irracionais e cancela a possibilidade de diálogo. O que, naturalmente, se agrava no quadro de radical concentração dos meios, como é regra no Brasil.

Recordemos, portanto: desde que estourou o caso do Mensalão, em 2005, esta mídia veio identificando a corrupção ao PT, como se “nunca antes na história deste país” tivéssemos vivido situação semelhante. Como se a corrupção não fosse sistêmica e não estivesse tão arraigada na nossa cultura, desde as capitanias hereditárias: daí o famoso “jeitinho”, esperteza dos subalternos, em resposta ao nosso republicanismo de fachada, porque os serviços não funcionam, a burocracia existe para dificultar e não para facilitar a vida do cidadão. O lema “aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei” é uma perfeita síntese disso: um país em que a lei existe não para estabelecer um padrão de convívio social, mas para punir os que não pertencem à “turma”, não pode ser considerado uma República.

O vínculo “corrupção = PT”, que ganhou força adicional por atingir um partido que surgiu e cresceu com a promessa de inaugurar “outra história” na política brasileira, foi trabalhado ao longo de uma década e produziu o antipetismo cego, componente essencial do discurso de ódio que se espalhou nas manifestações pelo impeachment. Por isso a imprensa pôde agir tão tranquilamente como correia de transmissão das fontes que exaltava e às quais servia: por exemplo, ao divulgar automaticamente o conteúdo do grampo entre Dilma e Lula, que promoveu a avalanche final em favor do impeachment, quando no mínimo teria de levantar dúvidas quanto à legalidade do ato do juiz. Ou quando reproduziu, em suas homepages, a acusação de que Lula era o “comandante máximo” do esquema de corrupção, ainda durante a exibição do power point dos procuradores: um espetáculo como aquele show de bolinhas azuis necessita de um público domesticado e imbecilizado. Por isso foi possível falar em convicções apesar da falta de provas. O que aconteceria se a imprensa, cumprindo seu papel elementar, as exigisse?

Os instintos mais primitivos

Despolitizar a questão da corrupção, transformá-la numa cruzada moral, instilar o medo e incitar o ódio sempre formaram o roteiro para desestabilizar governos minimamente comprometidos com as causas sociais. O processo que resultou no golpe atual envolve dois elementos novos: o primeiro é o próprio mal-estar causado pela ascensão de um ex-retirante nordestino ao cargo mais alto da República, algo que a elite jamais engoliu. O outro são a ampliação e a melhoria das condições econômicas da “classe C” durante os tempos de prosperidade dos governos petistas: a exploração da frustração da classe média diante da perda de certas distinções – ter de compartilhar espaços antes exclusivos em aeroportos e universidades, por exemplo – fez brotar aquilo que o famoso deputado detonador do Mensalão chamou de “instintos mais primitivos”, extravasados nas maciças manifestações de rua, nas varandas gourmet e nas redes sociais.

A destruição da ordem democrática, apesar das aparências de legalidade, foi decisiva para o vertiginoso retrocesso que recoloca o país de joelhos no cenário internacional e ameaça desmontar em tão poucos meses conquistas históricas como os direitos trabalhistas e a seguridade social. Perceber como a mídia, sobretudo os meios eletrônicos, manipula as emoções do público é fundamental para entender o ponto a que chegamos. Mas, se, como afirmava Espinosa, uma paixão – no caso, o ódio – só pode ser vencida por outra paixão mais forte, é preciso trabalhar sobre elas e quebrar resistências para tentar reverter esse quadro.

Como sabemos, os princípios clássicos do jornalismo derivam do ideal iluminista de esclarecimento. Oferecer informações verdadeiras, contextualizá-las, abrir espaço ao confronto de ideias é fundamental para a formação da opinião. Mas essa aposta na razão sempre se frustra, se não há a disposição de ouvir.

 

* os hiperlinks desse texto foram inseridos pelo Suplemento Pernambuco como forma de esclarecer melhor certas ideias lançadas pela autora no texto, que não puderam ser melhor citadas/explicadas por questões de espaço. A inserção desses hiperlinks são de nossa responsabilidade enquanto publicação.

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