euclides

Quando Michel Temer, 76 anos, assumiu a presidência interina em maio, a imagem do seu discurso de posse tornou-se emblemática. Apenas homens brancos ao redor do presidente. “A foto da posse de Temer é a epítome do Brasil, do Brasil sem cor, que ameaça e esmaga, o Brasil de que fala Euclides da Cunha”, aponta Walnice Nogueira Galvão, ensaísta e professora titular aposentada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Sua declaração faz referência à máxima euclidiana de que “não é o bárbaro que nos ameaça, é a civilização que nos apavora”.

Walnice acaba de organizar a quarta edição crítica de Os sertões, lançada esta semana pela editora Ubu. O livro chega num momento em que a literatura brasileira olha para a vida política e social do país durante a virada entre os séculos 19 e 20 como forma de entender a crise atual. Silviano Santiago está prestes a lançar Machado, biografia dos últimos cinco anos de Machado de Assis e painel extensivo do golpe de estado que gerou a República Velha. Nas próximas semanas, José Luiz Passos vem com O marechal de costas, que tenta compreender a trajetória do nosso primeiro vice, Floriano Peixoto.

Mas seria de fato a República Velha um bom termo de comparação para 2016? “A ruptura do Império para a República significou que o Brasil, enfim, entraria no consenso das nações civilizadas, que eram aquelas que não possuíam nem rei nem escravos. Repúblicas de homens livres... Chegamos lá, mas não foi bem isso o que aconteceu. A República foi um golpe palaciano, um golpe de caverna, ou melhor um golpe do alto, como agora estamos vivendo. Acabou a escravidão, mas a problemática da escravidão não foi resolvida, está aí até hoje”.

A pesquisadora ressalta a importância de sempre voltarmos ao diagnóstico de Euclides. “A questão é que o diagnóstico que Euclides fez ainda é válido. Aquela coisa de que existem dois Brasis, um desenvolvido, no litoral, branco, próspero, 'civilizado', e o outro fora do litoral, longe das metrópoles. Um só toma conhecimento do outro Brasil para massacrar, para tirar os direitos. Veja o que acontece agora: o outro Brasil que não é litorâneo, que não é o das metrópoles, reivindicou um lugar ao sol, teve alguns direitos e aconteceu o que está acontecendo. Não houve nem disputa de poder, houve um outro golpe”, afirma Walnice.

“Quando todos os olhavam para Europa, Euclides olhava para o interior do Brasil. Não são os habitantes dos sertões que promovem barbárie. A barbárie é que é realizada na região dos sertões pelo Brasil 'civilizado'”, continua.

A palavra “sertão” é elemento fundamental para compreendermos o Brasil. O termo já era usado pelos portugueses no século 12. Sua grafia variava entre “sertão” ou “certão”, para referir-se a áreas situadas dentro de Portugal e distantes de Lisboa. A partir do século 15, foi usada também para nomear espaços vastos de possessões recém-conquistadas, sobre os quais pouco ou nada se sabia . Em Pernambuco, em 1628, o Frei Jaboatão definiu que o mundo conhecido era formado pelo mosteiro, pelo Bairro do Varadouro, pelas cidades de Tracunhaém e São Lourenço e “depois tudo era sertão”.

Uma das acepções mais importantes do termo, a ficcional, completa este ano 60 anos: a publicação de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Mas trata-se de uma forma diversa da de Euclides. A começar pelos animais que representam cada um dos livros. Em Guimarães, temos o boi. Em Euclides, a cabra, animal capaz de resistir na miséria extrema, “capaz de comer até pedra, quando tudo lhe falta”, destaca Walnice. “É claro que Guimarães propôs um diálogo com Euclides, por isso usou o termo “sertão” no título. Mas são perspectivas diversas. Em Guimarães, a geografia é outra, existe cor. São livros que podem ser comparados por seus contrastes, por subtração”.

NOVA EDIÇÃO

A nova edição de Os sertões começa e termina com textos de Walnice Nogueira Galvão. No primeiro, a pesquisadora ressalta que Euclides escreve seu clássico no auge do romance realista brasileiro, ou seja: no momento em que Machado ironizava as barbáries palacianas e “civilizadas” da vida na corte. Trabalhando em paralelo, os dois autores criavam uma espécie de retrato de corpo inteiro do país. No segundo ensaio, tenta desmistificar a teoria de que Canudos tenha sido um movimento de molde sebastianista.

Dentre a volumosa recepção que teve o livro de Euclides e as polêmicas que suscitou, a posteridade reteve os pronunciamentos dos três maiores críticos literários da época: José Veríssimo, Araripe Jr. e Sílvio Romero. “São eles que assentam as bases da crítica futura, sendo alguns de seus argumentos decisivos. Por exemplo, a falta de definição de um gênero, literário ou não, que permitisse classificar o livro como história ou como literatura. A riqueza léxica e estética do livro foi logo notada e anotada por eles, que, às vezes, denunciaram os excessos de Euclides, no cientificismo e no abuso dos termos técnicos. Outro ponto a assinalar refere-se aos conhecimentos enciclopédicos ostentados. De qualquer modo, são estudos seminais e que influenciariam tudo o que se seguiria”, destaca Walnice.

Estão presentes ainda textos de nomes como Antonio Candido, Gilberto Freyre, Roberto Ventura e de Luiz Costa Lima. E de Costa Lima vale frisar um trecho no qual ele destaca o Euclides-escritor da sua preferência. Ou seja, o intelectual que vacila e gagueja no momento em que percebe que seu arsenal teórico não abarca a prática nem pode abarcar o mundo (ou melhor: que não pode abarcar o Brasil e seu sertão): “aquele (Euclides) que transparece a partir das hesitações pouco reconhecidas, dos gestos de altivez logo abandonados, da exploração do que, malgrado ele próprio, se insurge contra suas explicações científicas e suas soluções pragmáticas, sejam açudes, seja a propaganda aberta pelo trajeto das balas. Pois é nesse recanto de restos que a indagação do país alcançava um esboço de formulação imprevisível.”

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